O início de Jogo Duro (Reindeer Games, EUA, 2000), de John Frankenheimer, é promissor e parece anunciar algum tipo de análise sobre a ganância do homem e o tipo de violência que lhe é peculiar. É o resultado de algo que deu errado, talvez um assalto. A história volta seis dias e começamos a acompanhar os eventos que levaram a este massacre natalino.
No final das contas, não há análise nenhuma sobre a ganância e o tipo de violência de grosso calibre peculiar ao homem. O clima de O Grande Golpe (The Killing, 1957) e Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) abre espaço para uma espécie de noir ‘B’ aventuresco filmado na neve e onde a principal preocupação é divertir. Isso, o filme consegue pelas mãos profissionais de um dos mais robustos veteranos do gênero ‘ação’ de todo o cinema americano: o próprio Frankenheimer (Sob o Domínio do Mal, Domingo Negro, Ronin).
O ladrão de carros Rudy Duncan (Ben Affleck, de Armageddon) conta os dias para sair da penitenciária. Divide a ansiedade com o seu amigo, Nick (James Frain, de Hilary & Jackie), com quem sairá no mesmo dia. Rudy quer simplesmente chegar na casa dos pais, ver TV e beber chocolate quente. Já Nick quer finalmente conhecer sua paixão postal Ashley (Charlize Theron), que nunca viu pessoalmente.
Desconfie de qualquer trama noir onde Theron (Advogado do Diabo, Regras da Vida) é a paixão platônica de alguém. Como geralmente ocorre em filmes desse tipo, com presos que estão ansiosos demais para sair da prisão, Nick morre assassinado antes de completar a pena. Rudy sai sozinho, conhece Ashley e assume a identidade do amigo, que nunca havia mandado fotos para a namorada.
A companhia de Ashley num motel é das mais agradáveis, até que o irmão criminoso dela, Gabriel (Gary Sinise), entra em cena e revela seu plano a Rudy, que se passa por Nick: utilizar os conhecimentos de Nick sobre a segurança de um cassino onde ele trabalhou, informação pescada durante as dezenas de cartas entre Nick e Ashley.
Rudy se vê numa situação difícil. Se disser que não é Nick, morre. Se mantiver o disfarce, terá participação crucial numa operação onde não tem informação alguma. O lado positivo desse produto é o estilo ágil de Frankenheimer, num ritmo quebra-pescoço composto por enquadramentos radicais que usam toda a largura da tela, freqüentemente em ângulos ligeiramente inclinados. Pode ser o truque mais velho do cinema, mas pouca gente usa (Hitchcock e Welles adoravam) e os resultados são quase sempre interessantes.
Combinando com o ritmo, há a sensação ‘noir’ de que alguém terá suas costas encravadas com pelo menos uma faca, a qualquer momento, inclusive o espectador, numa série de reviravoltas cada vez mais divertidamente absurdas. O roteiro é de Ehren Kruger, que escreveu O Suspeito da Rua Arlington (Arlington Road, 1998), filme lembrado por pelo menos uma mudança especial de marcha, já perto do fim.
O resultado disso é um ‘filme de roubo’ dotado de um herói clássico (rapaz legal, física e mentalmente capaz) que tem em Affleck o porte e o queixão para o serviço. Sinise (Forest Gump) é também eficiente como o caminhoneiro brutal que mete medo pela sua ignorância e Theron, bem, Theron é a boneca perfeita. Jogo Duro é tão esquecível quanto seu título brasileiro, mas é diversão bruta dentro de um cinema de gênero.