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MÚSICA
Moreira Lima toca clássicos populares

Pianista reinaugura o Arcada Bistrô com um repertório que inclui, além de temas eruditos, sucessos de grandes nomes da música brasileira

POR MARCOS TOLEDO

O pianista Arthur Moreira Lima está de volta ao Recife neste final de semana, mais uma vez para se apresentar no Arcada Bistrô. O bar do Hotel Arcada reabre hoje após reforma que duplicou o espaço para shows. A abertura do espetáculo fica por do Quarteto Novo, grupo vocal formado pelas cantoras Kelly Benevides, Nena Queiroga, Rosana Simpson e Vanessa Oliveira.

A última vez que Moreira Lima se apresentou na cidade foi maio de 1996, no mesmo endereço. Pianista bem conceituado e de formação internacional, ele chegou há duas semanas de uma viagem à Moscou, onde participou de concertos com a Orquestra Nacional da Rússia – país onde morou por quase 10 anos e teve boa parte da sua formação musical.

O instrumentista, no entanto, não se intimida em tocar para públicos de bares. “Tenho muito tempo de estrada, e estou acostumado”, explica. “O músico toca bem onde se sente à vontade”, reconhece. Em tais ambientes, o repertório é adaptado de acordo com o gosto musical de quem sai à noite para jantar ou simplesmente tomar um drinque e curtir uma boa música. Além das peças eruditas, o intérprete executa temas populares, mais adequados à ocasião.

Historicamente, muitos instrumentistas brasileiros de formação erudita têm fluência entre clássicos e populares – a exemplo de Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos, no século passado; Turíbio Santos e Egberto Gismonti, nos nossos dias. Moreira Lima, contudo, não acha essa tarefa fácil. “Conheço pouca gente que faz isso”, afirma. “Fazer música popular não é fácil”.

“Eu fui o primeiro da minha geração”, lembra. “Agora, principalmente os europeus, sem dinheiro, estão fazendo isso. É uma forma de atrair mais público e, através da música popular, levar o público a conhecer a música clássica. Mas não é para todo mundo. Precisa ter coragem e imaginação”. O maestro diz também que o músico precisa tomar cuidado para, quando passar de um gênero para o outro, não “levar os vícios”.

Moreira Lima analisa também que o rádio foi um importante meio de fixação da chamada música popular urbana brasileira. Na época, segundo ele, o nome mais expressivo foi o do maestro Radamés Gnatalli.

Outra análise do pianista remete à banalização da música na atualidade. “Eu não gostaria de estar começando a carreira agora”, afirma. “Antigamente, o pessoal da classe média ouvia Chico Buarque e o da mais baixa pagode. Hoje, a classe média é quem está ouvindo pagode. Nivelou por baixo”.

O músico não quer ver ninguém ouvindo apenas os clássicos. “Aliás, a música clássica não faz parte da nossa cultura”, diz. Mas acredita que o público pode melhorar o gosto musical. Da sua parte, o pianista tenta dar uma contribuição. Além dos concertos mais sofisticados aos quais costuma ser convidado, conta que já tocou em presídio, praia, praça pública, bares e favela. Em São Paulo, ele integra o projeto Guri, ao lado do violonista Toquinho, que promove apresentações para crianças carentes.

Arthur Moreira Lima chega ao Recife na mesma semana em que é lançado o CD duplo O Piano em Pernambuco, no qual os pianistas Elyanna Caldas e Marco Caneca interpretam peças de compositores do Estado criadas para esse instrumento. Daqui, Moreira Lima lembra da obra de autores como Alfredo Gama – de quem já gravou valsas – e Misael Domingues, alagoano radicado em Pernambuco.

Atualmente, o pianista aparece em uma nova série com 41 CDs lançados pela revista Caras, no qual revisita grandes nomes das composições clássicas – Bach, Beethoven, Brahms, Schumann, Wagner, Litz. E ainda divulga uma caixa com seis álbuns, editados pela gravadora Sony Music, no qual toca composições de Chico Buarque, Roberto Carlos, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Tom Jobim, Caetano Veloso e outro compositores da MPB (esta caixa estará à venda no Arcada). A nova safra soma-se aos mais de 50 CDs que gravou.

VOZES – Antes do pianista convidado, sobem ao palco do Arcada Bistrô as mulheres do Quarteto Novo, grupo formado por Kelly Benevides, Nena Queiroga, Rosana Simpson e Vanessa Oliveira. As cantoras interpretam um repertório que mescla Tom Jobim a Lenine, João Bosco a Luiz Gonzaga e Chico Buarque & Edu Lobo a 14 Bis. Os novos arranjos, que dão um tom jazzístico ao show das intérpretes, são assinados pelo tecladista e produtor Tovinho.

O público que for conferir o espetáculo de hoje à noite poderá adquirir um ingresso que dá direito a um jantar completo: entrada, mais prato principal e sobremesa, a partir de um cardápio francês. O espaço foi ampliado e comporta agora uma platéia de até 200 pessoas.

Serviço

Jantar-show com Arthur Moreira Lima e Quarteto Novo. Hoje e amanhã, às 22h30, no Arcada Bistrô (Av. Conselheiro Aguiar, 3500, Boa Viagem). Reservas: 3465.6499. Ingressos: R$ 50 (com direito ao jantar) e R$ 30

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2000
Sexta-feira