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MÚSICA II
Zé Rocha recria loas, lendas e luas no seu rico caldeirão musical

O cantor e compositor Zé Rocha enfeixou maracatu, forró, samba, crianda e música sertaneja, em Loas, Lendas e Luas, seu CD ‘solo’ de estréia, que lança hoje na Vivace do Plaza Shopping Casa Forte. O disco teve 12 das 13 faixas editadas pela Trama (UBC). Mas, após dois anos de burilada, o álbum sai independente, pelo selo local Via Som, bancado pelo produtor Toni Lua e com o apoio dos estúdios Plug (de Zé da Flauta) e L&R (de Paulo Raphael).

Zé Rocha explica que a demora não se deu por questão financeira, mas pelo próprio processo de confecção da obra, que incluiu gravação em três estúdios – o Via Som e Plug, no Recife, e o L&R, no Rio de Janeiro –, com a participação de figuras como o parceiro Lenine, Antonio Carlos Nóbrega e o ex-Boca Livre Zé Renato, mais mixagem, masterização e prensagem. As participações, algo cada vez mais comum nos discos gravados por artistas do Estado, são para Zé Rocha uma maneira dele reforçar o trabalho como compositor. “Para o público ouvinte, o disco se torna um produto mais prazeroso, pela diversidade de vozes, linhas e estilos de interpretação”, acredita. “E, para o artista, a confirmação do seu potencial”.

As primeiras bases de Loas, Lendas e Luas começaram a ser gravadas no início de 1998. A exceção ficou por conta da faixa que encerra o CD, Tambores, terremotos, marés. Isto porque o artista chegou a inscrever a canção no Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo, mas não chegou a se classificar. A bem da verdade, nenhum pernambucano atingiu o feito. “A maioria das músicas finalistas do festival não somaram nada à proposta, que era a de dar uma ‘guinada’ na música brasileira”, analisa.

LENDAS – Tambores, terremotos, marés se juntou então a canções como Maracatu das ondas, que tem participação do parceiro de longas datas Lenine. O autor de Na Pressão, por sinal, estava escalado para interpretar também Flor da lira. “Para encontrar um período em que Lenine estivesse disponível foi muito difícil”, justifica Zé Rocha. “Mas ele, eu, Bráulio Tavares temos grandes afinidades musicais, fazemos parte da mesma ‘irmandade’. Fugimos ao grande equívoco que são os modismos impostos pelas grandes gravadoras”. Segundo o compositor, o fato de Lenine fazer parte hoje de uma dessas ‘grandes gravadoras’ (a BMG) e conseguir manter a integridade do trabalho é uma exceção.

Zé Rocha é amigo de Lenine desde a década de 70, quando fez parte com ele do grupo Flor de Cactus. A banda gravou um compacto simples, em 1978, com as músicas Festejos (de Zé) e Giração (de Lenine). O mesmo Lenine, com Lula Queiroga, gravaria no seu LP de estréia, Baque Solto (de 1983, agora reeditado em CD), três composições do amigo Zé: Prova de fogo, parceria da dupla com a qual Lenine participaria do festival da Globo de 1981; Maracatu silêncio, parceria com Erasto Vasconcelos; e Raoni.

O gosto pelas composições de Zé Rocha, no entanto, não se limita a Lenine. Já gravaram suas canções artistas como Geraldo Maia, Gisele Tigre, Eliane Ferraz, Elba Ramalho e o grupo Boca Livre. Para ele, grava apenas quem se identifica com o seu trabalho. O compositor, no entanto, não esconde o desejo de ter suas crias interpretadas na voz de cantoras como Nana Caymmi, Zizi Possi e Leila Pinheiro – esta, pelo menos, “já está de namoro”, como ele mesmo diz.

Quando ele compõe, garante que, entre as idéias, predominam a paixão, o amor e a preocupação de dar ‘toques’ sobre a preservação do meio ambiente. A influência latente dos ritmos locais, o compositor credita à vivência constante nas manifestações populares da região. “Essa é a grande experiência, que está aí. Quem quer criar, é só se envolver com isso”, dá a receita. A influência é rítmica e temática. Eu pego tudo isso e transformo num caldo sonoro”, explica. “Aí é que está a diferença. A originalidade da obra é única e reconhecida”, resume Zé Rocha, sem falsa modéstia. (M.T.)

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2000
Sexta-feira