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MÚSICA V
Os anjos pornográficos do Alto

Depois de quase 10 anos de estrada, Matalanamão lança hoje, às 22h, seu primeiro CD no Dokas. O disco sai pelo selo pernambucano Candeeiro, com produção de Pupilo, da Nação Zumbi.

POR SCHNEIDER CARPEGGIANI

Adilson Ronrona, vocalista da Matalanamão, costuma andar de cima para baixo com o Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, em sua mochila. O livro é uma detalhada, trágica e até divertida biografia do escritor Nelson Rodrigues, notório por ter sido um dos maiores cronistas da vida, manias e taras do povo brasileiro. “Sou um anjo pornográfico, que vê o mundo pelo buraco de fechadura”, assim o dramaturgo definia sua vida e obra. “Nelson é uma grande influência para a gente. Assim como o Matala, ele também retrata a vida dos suburbanos, os seus desejos sexuais”, declara o músico, que inclusive incluiu uma gravação de um depoimento do dramaturgo pernambucano como vinheta de abertura do disco.

Com o lançamento do seu primeiro CD, o homônimo Matalanamão, que é marcado com um show-festa, hoje à noite, no Dokas (ver serviço no JC em Cartaz), o grupo prova que os seus quatro integrantes são, sem dúvida, todos anjos pornográficos. Só que ao contrário de Nelson, que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura, o Matala não tem medo de bancar o voyeur das taras do subúrbio do Recife e prefere escancarar a porta, sem dó nem piedade.

Assim como nos livros do dramaturgo Nelson, as letras do grupo são recheadas por figuras das mais notórias do imaginário popular. Em Maria Gasolina, há uma engraçada ‘homenagem’ àquelas moças que transferem para o carro do ‘boy’ todas os seus desejos fálicos e, principalmente, financeiros: “Maria, Maria/ Maria gasolina/ apanha todos os carros da esquina/ já conhece as buzinas/ e a marca do carro que domina/ eu não sei o que deu nessa mina/ motos, carros a fascinam/ trabalha em posto de gasolina/ de noite faz zona na pista/ é um vai e vem danado/ motel, praia, pagode no sábado/ de dia troca óleo/ e a noite também/ amanhece toda suja/ em um mercedes bens (com os bens)”.

LIBIDO – A personagem onipresente em qualquer conto de revista erótica de segunda categoria que se preze, aquela prima que mora longe, toda gostosona, que levanta a libido do tio e primo e a simpatia da – sempre – inocente tia, não poderia faltar. E é responsável por um dos melhores refrãos do Matala – “Em homenagem a você, em homenagem a você” – repetido como um verdadeiro mantra.

Para amarrar todas essas crônicas popularescas, um som cru, cuspido na cara, bem ao estilo punk, com canções que não duram mais do que dois minutos – o álbum inteiro tem pouco mais de meia hora. Um grande CD para quem gosta de rock básico, sem qualquer inovação e com muita sacanagem, sem o verniz ‘Barra da Tijuca’ que tem o mais famoso nome brasileiro desse gênero, os Raimundos.

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Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2000
Sexta-feira