Nos últimos 15 dias, duas pessoas foram mortas e uma ficou ferida em um atentado à bala, crimes atribuídos aos “Anjos da Guarda”
TIMBAÚBA – Depois que a CPI do Narcotráfico e da Pistolagem passou por esta cidade, há quatro meses, e conseguiu prender oito dos 22 homens acusados de fazer parte de um grupo de extermínio, em conjunto com as autoridades locais, o município parecia que iria voltar à sua rotina pacata, como pólo da Mata Norte do Estado. No entanto, o clima de insegurança e o medo permanecem estampados no cotidiano dos mais de 60 mil habitantes. O caso é tão sério que o Ministério da Justiça determinou que a Polícia Federal investigue os inquéritos pendentes que incluem ainda tráfico de drogas, armas e roubo de cargas. Além disso, nos últimos 15 dias, duas pessoas foram mortas e uma ficou gravemente ferida em um atentado à bala. Uma farmácia foi arrombada e os comerciantes ameaçados. Todos esses crimes são atribuídos aos remanescentes do grupo de extermínio que ‘mandava’ no município e já praticou cerca de 80 assassinatos, desde 1992.
As estatísticas do Ministério Público dão conta que existem 135 inquéritos de homicídios sem solução na delegacia da cidade. Desses, cerca de 80 teriam sido praticados pelo grupo de extermínio denunciado pela CPI do Narcotráfico e da Pistolagem. Outro detalhe importante é que 23 dos assassinatos não esclarecidos tiveram como vítimas crianças e adolescentes pobres da cidade.
A sessão que a CPI realizou na cidade em julho terminou com a prisão do segurança Abdoral Gonçalves Queiroz e outros dois homens acusados de integrar um grupo de extermínio. De acordo com as informações levantadas pela CPI, Abdoral liderava uma equipe de seguranças chamada de ‘Anjos da Guarda’. Os ‘Anjos’ foram mobilizados inicialmente para fazer segurança particular em festas e eventos que ocorriam em Timbaúba.
Com o tempo, alguns comerciantes e pessoas influentes passaram a financiar o grupo que, em troca, dava surras em desafetos, intimidava rivais e, posteriormente, passou a eliminar pessoas tidas como marginais. A situação chegou a um ponto em que os “Anjos da Guarda” assumiram o papel do Estado e passaram a ser policiais, juízes e carrascos.
Mesmo estando preso há quatro meses, Abdoral Gonçalves Queiroz ainda consegue intimidar seus conterrâneos. Durante a audiência de ontem, em um dos quatro processos que tramitam contra ele na comarca de Timbaúba bastou ele chegar escoltado pela PM e por agentes penitenciários para o silêncio se instalar no fórum, provando que ainda falta muito para que o Estado retome as rédeas da cidade.
“A gente pensou que depois que Abdoral foi preso, as coisas iriam melhorar, mas só mudou a postura dos outros integrantes. Antes eles agiam descaradamente, agora estão matando e roubando na surdina, como voltaram a fazer na semana passada. Não existe segurança nem para o promotor e para a juíza imagine para o cidadão comum “, desabafou um comerciante local que preferiu não se identificar.
O temor de sofrer represálias também está presente entre as famílias que tiveram pessoas assassinadas pelos “Anjos da Guarda”. Maria das Graças de Araújo, mãe do adolescente José Rodrigo de Lima Araújo, morto em março deste ano, perdeu o sossego. “Tenho outro filho e não quero perdê-lo também”.