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VIDA E CIÊNCIA
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Captar água de chuva no Semi-Árido

Por Antônio Heriberto de Castro Teixeira

A contabilidade de ganhos e perdas de água nos últimos 35 anos no município de Petrolina (PE) revela uma tendência de déficit hídrico de mais de 900 milímetros (mm) nos próximos anos. A tendência vem se manifestando desde 1997 com o registro de temperaturas acima da média e índices de chuva aquém das normais. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, em março de 2000 choveu apenas 81,6 mm quando a média é 134,8 mm.

Esses dados são síntese de uma tendência que se verifica em todo o Semi-Árido nordestino - muito embora, ainda ocorram meses com chuvas acima da média em anos alternados, chegando mesmo a se registrar casos de excesso de precipitação. Mas, esses dados servem como alerta a produtores e autoridades – nos vários níveis – sobre a proximidade de mais um período de estiagem na Região Nordeste. A magnitude que terá é uma incógnita. Mas os dados ressaltam a necessidade da adoção de providências que visem maximizar o uso da água da chuva que vai cair nos próximos meses e anos.

Não é possível que o Semi-Árido nordestino continue a perder, em média, cerca de 34 bilhões de metros cúbicos de água de chuva por ano devido à falta de empenho dos gestores públicos ou desconhecimento das tecnologias que captam e armazenam essas águas.

As secas, é bom que se diga, não significam a ausência total de chuva. Na verdade, suas ocorrências são marcadas por uma redução drástica do volume normal das precipitações pluviométricas. Isto implica que alguma chuva vai cair e que é imprescindível a sua retenção em reservatórios do líquido cada vez mais “precioso” em todo o planeta.

E há experiências bem-sucedidas de construção de cisternas para abastecimento humano em municípios do Semi-Árido. Nos oito municípios que formam a Diocese de Juazeiro (BA), no Submédio São Francisco, ONGs ligadas à Igreja Católica e sindicatos de trabalhadores rurais, inicialmente, e prefeituras municipais, já construíram cerca de 5 mil cisternas rurais com capacidade de 15 mil litros cada – o bastante para abastecer uma família com 6 pessoas pelo período de estiagem (8 meses). A grande maioria delas foram construídas com financiamentos de fundos captados pelas ONGs nordestinas junto a instituições religiosas no exterior.

Não são obras caras. A depender de despesas com mão-de-obra ou não, o custo da cisterna de 15 mil litros varia de R$ 270 a R$ 420. E, além de tudo, têm demonstrado grande eficiência e contribuem para a melhoria da qualidade de vida da população beneficiada. As instituições públicas, em âmbitos municipal, estadual e federal, devem atentar para o problema e para as soluções imediatas que demanda. E as soluções muitas vezes podem ser simples, sem necessidade de planos grandiosos e mirabolantes. As cisternas são prova disso.

ANTÔNIO HERIBERTO DE CASTRO TEIXEIRA é pesquisador da Embrapa Semi-Árido


Jornal do Commercio
Recife - 24.11.2000
Sexta-feira