EDITORAÇÃO II
As
muitas vozes dos melhores livrosPor Mário Hélio
Era um simples depósito
de distribuição, na rua Conselheiro Portela. Três anos
depois, seria uma livraria na Concórdia. Hoje, são duas
lojas (além da matriz, que fica na rua do Príncipe, há
outra na Frei Caneca). Essa história completa 25 anos,
nesta quarta-feira.
Eram simples restos de uma
pequena impressora. Uma carroça parou à porta do
convento, trazendo os objetos enferrujados, indicadores
de glórias passadas. A carga toda não ocupou grande
espaço e cabia muito bem em um cantinho debaixo da
escada. Essa história tem quase cem anos.
Foi desse modo bem
franciscano que nasceu a editora Vozes. As celebrações
do seu primeiro centenário estão sendo programadas para
o próximo ano. Mas, a festa, na verdade, já teve início.
Há bastante tempo. Precisamente, no dia 5 de março de
1901, quando com tinta e papel os frades de Petrópolis
começaram a semear livros, livros à mancheia e a mandar
o povo pensar. Levavam à prática aquela conhecida frase
de Mallarmé: tudo no mundo existe para acabar em
livro. No entanto, apostavam em lema ainda mais
rico do que o do poeta francês: a vida por um bom
livro.
O adjetivo bom define não
só a opção da editora por publicar livros de
qualidade. Aponta um posicionamento ético. Por isso, os
seus best-sellers estão longe de conter os apelos fáceis
do sexo e da violência. São uma tradicional e
inofensiva folhinha, do coração de Jesus,
que está na casa das famílias católicas, há 62 anos.
Ou um livreto do tamanho de uma caixa de fósforo, que já
teve 38 edições e ensina coisas como: Não perca
sua calma! Não se deixe dominar pela cólera. Que jamais
o sol se deite sobre sua raiva. Contenha-se o mais que
puder. Um simples raio de cólera pode destruir longas e
pacientes sementeiras de amor e carinho! Procure
dominar-se. Quem sabe se a pessoa que o ofendeu não está
doente? Não perca sua calma... Seu fígado é demais
precioso para que você o estrague.
Não se sabe se os que
consumiram os 7.509 milheiros de Minutos de Sabedoria
seguiram realmente os seus preceitos. Mas, o fato é que
a receita de auto-ajuda dessa espécie de sermão-da-montanha
em pílulas tem um público cativo, e bem mais singelo do
que os que elegeram Paulo Coelho como o seu guru. Torres
Pastorino ergueu os seus 288 lugares-comuns com uma força
inconteste sobre os mansos e humildes de coração.
Claro que sendo católica,
a Vozes tem no seu catálogo diversas obras de
proselitismo ou de fundamental conhecimento para a boa prática
dos cristãos. Mas é justamente no filão não religioso
que se encontram os melhores títulos da editora. Publicações
de filosofia, antropologia, lingüística, sociologia,
psicologia e história colocam-na entre as mais respeitáveis
do mercado brasileiro. Junto de obras populares como O
Corpo Fala e Cante Lá Que Eu Canto Cá (a filosofia
de um trovador nordestino), de Patativa do Assaré,
há outras mais áridas como A Democratização Inacabável
e, também, Brasil Nunca Mais, um dossiê sobre a tortura
no país mais católico do planeta.
Além dos bons livros que
publica (incluindo os de referência, como um dicionário
enciclopédico das religiões, talvez o melhor do gênero
em língua portuguesa), a Vozes edita uma revista
bimestral de cultura, a mais antiga a circular no Brasil.
Na verdade, a editora praticamente nasceu com a revista,
pois com Vozes de Petrópolis (o seu primeiro nome; hoje
se chama Cultura Vozes) que alcançou o primeiro grande
sucesso comercial. A pluralidade de temas e a seriedade
de abordagem definem as suas características
fundamentais. E com a costumeira combinação de assuntos
católicos a outros mais gerais. O leitor pode encontrar,
por exemplo, no volume 94 (um dos números mais recentes)
tanto comentários do filósofo Adorno sobre Beethoven
como uma resposta de um frei a uma pergunta universal e
particular: como falar de Deus, hoje? Tanto uma análise
de uma contribuição paulista à reforma psiquiátrica
quanto um estudo da literatura sino-japonesa. Ora um
ensaio de cinema comparativo entre Hitchcock e Brian de
Palma como uma explicação do eterno retorno
da cineasta querida dos nazistas Leni Riefenstahl. Um
mergulho no mundo das letras de música rap e um passeio
pelos processos coletivos de vídeos educativos na
área da saúde: explicitação da intenção pedagógica
e diálogo de saberes. Ou algo do mesmo nível acadêmico,
mas com título menos prolixo: uma curiosa aproximação
ou, mais precisamente, um diálogo entre Francisco
de Assis e Walter Benjamin.
Talvez em extremos assim
que se harmonizam é que se encontre uma síntese possível
para o centenário dessa editora. Tanto aos césares do
pensamento laico quanto aos deuses singulares e ecumênicos
da doutrinação cristã e os seus renovadores. Tudo na
mesma vida. Uma vida pelo bom livro.
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