HISTÓRIA
História
e produção da Editora VozesPor Marcelo Fereira de Andrades
As origens da Editora
Vozes remontam ao fim do século XIX, quando os frades
franciscanos alemães chegaram a Petrópolis, no Rio de
Janeiro. Por que motivo os frades alemães vieram para
Petrópolis?
Durante todo o século
XIX, os religiosos do Brasil passaram por sérias
dificuldades. Perseguições, indisciplina e tensões
internas, fechamento de seminários, proibição de novas
vocações e interferência do governo. As ordens
religiosas foram definhando gradativamente. Assim também
aconteceu com os franciscanos. Em 1889, restavam apenas
nove frades no Nordeste e um frade no Rio de Janeiro, o
Frei João do Amor Divino Costa. Com a Proclamação da
República, que separou Igreja e Estado, os religiosos
passaram a ter, novamente, total liberdade de ação e
organização, ou melhor, de re-organização. Puderam,
então, receber ajuda dos franciscanos da Alemanha, que
enviaram missionários. Em 1891 chegaram os primeiros
frades alemães em Santa Catrina. Em 1892, chegaram à
Bahia e em 1896 a Petrópolis, na Igreja do Sagrado
Coração de Jesus. Em Petrópolis, os franciscanos
construíram um convento ao lado da Igreja, que foi
inaugurado no dia 27 de janeiro de 1897. No dia seguinte,
os frades iniciaram a Escola Gratuita São José.
Funcionando em duas salas do próprio convento, a Escola
foi criada para alfabetizar e dar educação religiosa
aos filhos dos colonos pobres de Petrópolis.
A carência e a
precariedade do ensino na época é denunciada pelo
artigo de Quintino Bocaiúva no jornal O Paraíba, de
Petrópolis, em 1858. Um dos maiores defeitos da
educação brasileira é, para Quintino, a falta
absoluta de um sistema de instrução adaptado às
circunstâncias peculiares de nossa divisão
administrativa; a mesquinha retribuição pecuniária dos
professores e a nenhuma importância que por ora se dá
à profissão.
Um de seus primeiros
professores foi o noviço Frei Inácio Hinte, que tinha
chegado da Alemanha no ano anterior e feito o noviciado
na Bahia. Antes de entrar para o seminário Frei Inácio
tinha trabalhado três anos em uma tipografia na
Alemanha.
Um certo dia, no final de
1899, Frei Ciríaco, guardião do convento, chegou
sorrindo e disse aos frades estudantes que tinha comprado
os restos de uma tipografia falida.
Momentos depois
relembra Frei Schaette, um dos estudantes
uma carroça parou à porta, trazendo os objetos
enferrujados, indicadores de glórias passadas. A carga
toda não ocupou grande espaço e cabia muito bem em um
cantinho debaixo da escada.
Ali mesmo, debaixo da
escada, com a ajuda de alguns estudantes pobres da Escola
Gratuita, Frei Inácio começou a examinar e a limpar
peça por peça. Quando terminou, comunicou alegremente
ao guardião: podemos montar uma tipografia com
estes materiais, só vai ser preciso trocar algumas
peças. Frei Ciríaco deu total apoio aos projetos
de Frei Inácio e até escreveu para os superiores da
Província pedindo autorização para o funcionamento de
uma tipografia no convento, com o objetivo de imprimir
livros para os alunos da Escola Gratuita São José.
Enquanto isso, Frei Inácio moldava em madeira as peças
que faltavam, para depois serem fundidas no Rio de
Janeiro. Depois de alguns meses, as caixas de tipos
estavam em ordem e a máquina Alauzet pronta para
imprimir. Tocada à mão pelo Frei Matias e sob a
direção técnica de Frei Inácio Hinte, a nova Alauzet
funcionou pela primeira vez, imprimindo cartões de
visita para o guardião Frei Ciríaco.
Em 5 de março de 1901, os
superiores da Província concederam a licença para o
funcionamento da oficina, com o nome Tipografia da Escola
Gratuita São José.
Desde aquele dia, a
tipografia passou a imprimir livros didáticos e
religiosos. Entre os primeiros livros publicados estão A
vida e o culto de Santo Antônio, Maná (livro de
orações populares) e o Primeiro Livro de Leitura,
publicado em 1904. Trata-se de um livro de
alfabetização preparado pelos professores da Escola
Gratuita São José para uso da própria escola, mas que
foi comercializado em todo o Brasil. Segundo Jorge
Deister, um dos professores da Escola, até o ano de 1941
foram vendidos aproximadamente 1 milhão de exemplares
deste livro, permanecendo por mais de 70 anos em
catálogo.
Em 1907, os franciscanos
resolvem fundar uma revista de cultura, a Vozes de
Petrópolis, cujo primeiro número foi impresso em
julho de 1907. De peridiocidade mensal, a revista
Vozes de Petrópolis teve seu nome inspirado
no nome do jornal alemão Stimmen der Zeit
(Vozes do Tempo), o qual era muito lido pelos frades da
época. A repercussão da revista Vozes foi
muito grande. Em pouco tempo, espalhou-se por todos os
estados do Brasil, tornando conhecida em todo o país a
pequena tipografia dos franciscanos de Petrópolis. Dois
anos após o lançamento, a revista já contava com
1700 assinantes, fora as vendas avulsas. O
número de assinaturas é bem significativo, se
considerarmos que apenas uma pequena parcela da
população tinha acesso à instrução escolar:
As últimas
estatísticas, dando ao Brasil uma população de vinte
milhões e duzentas e quinze mil almas, demonstram que,
em toda a extensão do país, todos os estabelecimentos
de ensino, incluindo o ensino público e o particular, o
civil e o militar, o primário, o profissional, o normal,
o secundário, o superior, tinham, em 1907, ano em que se
operou o censo, a matrícula de 624.064 alunos: e isto
quer dizer que a pouco mais de dois e meio por cento da
população é ministrado o fator do ensino.
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