CRÍTICA
Dimensões
sócio-filosóficas em EçaPor José Procópio da Silveira
Nosso propósito neste
artigo é dar um mergulho numa das obras principais de
Eça de Queirós, qual seja O Primo Basílio e toda a sua
dimensão sócio-política, o que nos parece interessante
e pouco estudado. Estaremos analisando, enfaticamente, as
dimensões sócio-políticas e reformistas na obra do
autor, primeiro porque o contexto histórico permitiu,
com o movimento literário do Realismo, e segundo por ser
de interesse na atualidade devido à crise dos valores e
da ética na sociedade contemporânea.
Estas preocupações do
autor com o caráter e dimensão social e moral de sua
sociedade as quais veiculou, através da obra que
escreveu, sobretudo do Primo Basílio, uma vez que são
uma visão de mundo, de filosofia social que parece estar
por trás das histórias e personagens que descreveu;
assim como de sua autobiografia em A Relíquia. Ele se
preocupou com a qualidade de vida nas diferentes
sociedades por onde passou e conviveu e das diferentes
classes sociais com as quais partilhou preocupações e
ideais, levantou questões muito importantes sobre a
modernidade, o progresso técnico-científico e a
felicidade humana.
O autor descreve não só
a vida cotidiana, mas também o contexto social e
político de Portugal no século XVIII, durante o
movimento do Realismo. Um exemplo disso é quando afirma:
"detesto os reis e os padres". O estado das
coisas públicas enfurecia-o, mostrava-se nas suas
palavras e atitudes um patriota exasperado.Esse romance
descreve, ainda, a vida da classe média e suas
dificuldades para manter um padrão de vida de pequeno
burguês português. Fala também da vida social e
econômica dessa categoria social com o personagem O
Primo Basílio e suas memórias. Descreve personagens da
classe social média e seus valores morais conservadores
e a crise da convivência social como também da economia
e política do país.
A questão das virtudes
como valor moral do bem, até então válida e culturada
pelos pequenos burgueses de Lisboa daquele tempo, tem seu
fundamento filosófico na teoria do bem e do mal como
parte da natureza humana na estética racionalista
aristotélica e do Realismo em ascensão naquele momento
em toda a Europa. E ainda a razão prática de Kant. A
crítica da moral do bem e do mal como alto inato segundo
Camus, que se opõe à teoria aristotélica da natureza
humana, a qual foi reelaborada pelo tomismo. A teologia
tomista se baseou em Aristóteles e buscou nele seus
fundamentos filosóficos sobre a natureza humana e
sociedade. Aristóteles, ao definir o homem como ser
social, ou seja, a convivência social como sendo a Polis
e a política como sendo uma definição do homem na sua
frase famosa: "o homem é um ser político",
modificou a teoria do homem que, até Platão, era
definido como ser pensante. A vida social e política é
uma segunda natureza do ser humano, segundo Aristóteles.
Porém, a crítica desses valores sociais feita por Eça
no decorrer do trabalho discutirá não só a falsa moral
da pequena burguesia lisboeta mas também repensa a vida
política e sócio-econômica do país. Seu objetivo é
pensar no reformismo social. Como este ideal o autor vai
trabalhar e discutir como é que estas idéias são
vistas e aplicadas na sociedade conservadora. Existe um
certo idealismo ou presunção de que estas idéias são
boas em si mesmas e para a reforma social daquele país.
Assim sendo, tomo como
ponto de partida para analisar a obra O Primo Basílio a
influência dos ideais sociais, ou melhor, seu pensamento
social e sua visão de mundo. O autor persegue o ideal ou
o pensamento social europeu daquele período, onde as
idéias de reforma social e política se iniciavam com a
revisão da estética racionalista aristotélica para se
mergulhar num realismo crítico-social como o de Victor
Hugo, em sua obra Os Miseráveis.
Pode-se dizer, com
certeza, que Eça estava preocupado com o estado de
conformismo social e político do mundo português que
vivia dos tempos do fausto do reino português. A
decadência moral e política descritas na obra O Primo
Basílio reflete sua preocupação com o futuro apesar de
apreciar a infidelidade de sua personagem de forma
discreta: a falsa moral burguesa. Vamos analisar seu
reformismo social e político.
Sua crítica dos valores e
da moral do pequeno burguês está baseada no princípio
do Realismo. Este Realismo literário vai influenciar
toda a obra de Eça de Queirós em que o autor vai ser
influenciado pelo reformismo social. Mas aqui gostaria de
discutir o conceito de reformismo: reformismo e realismo.
A idéia de reforma social estava em moda na Europa, mas
não significava que a reforma na literatura fosse uma
cópia do reformismo filosófico e social radical.
Aliás, ele mergulhou no pensamento filosófico deste
período e sofreu influências do pensamento filosófico
social reformista no sentido mais tradicional e não do
socialismo radical ou do socialismo utópico.
Na sua obra, Eça de
Queirós tenta apresentar alguns elementos da coerção
social através da moral rígida do personagem Luíza e
de sua fidelidade conjugal, mas ao mesmo tempo mostra a
presunção de liberdade dos personagens o Primo e Luiza
no contexto social. Toda a obra demonstra que a coerção
social existe e que as pessoas estão presas a ela de uma
forma ou de outra. Esta dialética da vida social da
pequena burguesia lisboeta é uma marca da visão social
do autor.
Segundo os estudos de
Feinberg sobre filosofia social, ofensas morais e
moralismo legal são casos difíceis se tomarmos o
princípio do dano que uma censura moral pode causar
naqueles que são vítimas de tal procedimento.
Entretanto, este não é o caso dos personagens do
romance de Eça de Queirós porque esta censura social
verbal não tomou dimensões públicas como parece ser a
teoria em que se baseia Feinberg para explicar a
importância da filosofia social moderna com a teoria das
ofensas morais e moralismo legal como coisas sérias e
não banais, que se toleram, as quais não pudessem gerar
uma ação jurídica de dano moral.
Considero bastante
interessante observar que, no caso de O Primo Basílio,
estamos ainda no nível da coerção social no sentido
sociológico do termo, como popularmente se diz, no senso
comum, onde existe uma censura ou fofoca entre seus pares
sociais que não chega a desencadear nenhum processo de
reparação pública ou jurídica. Esta parece ser um
sofisticação das sociedades modernas com a evolução
da democracia e do Estado de direito liberal que foi
desenvolvida para separar o estado público e privado dos
indivíduos sobretudo em termos políticos e sociais das
classes alta e média com o surgimento das idéias
liberais a partir da Revolução Francesa.
Parece-me que, por se
tratar de um romance de cunho social, em O Primo Basílio
a questão central é exatamente outra: a reforma social
que foi o móvel, ou melhor, a idéia motora do texto no
contexto do colapso do desenvolvimento da sociedade
portuguesa após as crises da coroa e do império daquele
país que pretendia estender com as viagens às Índias e
depois com o descobrimento do Brasil por Pedro Álvares
Cabral seu domínio político e econômico ao novo mundo.
Porém, essa questão supõe também discussão de outros
valores que não seja só a moralidade social, mas sim a
reforma social.
José Procópio da
Silveira é sociólogo
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