CONTO CRÔNICA
Noivas
das nuvens, lua-de-mel nas janelasPor Luiz Marcos Lima Barreto
Não tão moças, nem aéreas,
sinuosamente belas. Noivas das nuvens, lua-de-mel nas
janelas. Alianças de névoas em vôos à uní-las.
Sei um a um os meus sonhos
de menino e sigo este até hoje do mirante dos meus
olhos. Sobre tudo e sobre todos, nunca me veio como os
outros. É que só me levaram uma vezinha ao aeroporto e
lá chegando, a contar do que foram poucos os minutos,
menos eram os aviões. Basta dizer que da ponta dos pés
não dava para ver. Gritei a jato: chegou um avião.
Nesse caso, ouviram-me o pleito à espera do braço.
Pois bem, pode vir.
Afinal, pude ver.
Malcriado na hora de
descer. Sim e não. De cima a baixo perdi altura, mas da
noite para o dia estava nos ares. A proeza de ter visto
uma aeromoça em toda a sua grandeza. A graça feminina
na medida desejada embarcava na memória cristalina. Do
ponto de apoio onde estava, os olhos postos na porta
gradativamente rolavam pela escada.
De nariz arrebitado,
aspirava coisas elevadas e o fascínio do azul vinculado
ao vestido lhe teria sido atribuído pelo céu. Penteado
sem precedente na plena avidez dos ventos que avançavam
em sua direção. Tudo instantâneo e a pretexto, do que
agora a revelar me atrevo.
Procuro-a na partilha da
memória. Pondero e posto-me diante de outros dotes após
uma folheadinha. Etiquetadas com estrelinhas ondulam-se
golas, aquietam-se gorros e aquecem-se punhos. Balizam-se
gestos e balançam-se lenços. Delicadas, despedem-se à
porta em todas as línguas. Lapidadas a bordo das
contingentes turbulências da vida. De pé, fazem o
check-up do medo com a perfeição dos seus sorrisos.
Porta-vozes da gravidade, sedativas de vertigens.
Tiradas da cama, banhadas
e prontas bem cedinho. Elegantes pelos claros e escuros
caminhos. Ansiosas por íntimos lençóis em estáveis
carinhos. Estresses nas madrugadas das nervosas escalas
em que fulguram enganosas bandeiras e fusos-horários que
as fazem ver navios. Menstruações que os diáfanos
passos sugam e vazam e dos corpos se deixam sem a menor
pausa.
Saudosas da porta de casa,
dos filhos que se voltam e abraçam, dos maridos que da
cabine do piloto se lembram, com o quarto do hotel
conversam e de ciúme se queixam.
Batons que comungam quando
os lábios nem namoram. Brilhos vaidosos da vocação. Vôos
que saem de entristecidos invernos e chegam em radiantes
verões. Horas a fio entre flertes e frestas no mais recôndito
dos telões. Passarela em que se teme a queda por decreto
com reserva do destino. Vínculos com o Atlântico, o Pacífico
e o índico. Veementes, quando se fala em burburinhos;
obscuros, pelo que a noite possa ser calma; sossegados,
em uma disciplina da escola que aponta e gira o mapa.
Oceanos em gráficos assinalados e rotas assimiladas.
Aeroviárias evidências
sedutoramente aromáticas. Carreira que dispensa prendas
domésticas para não cair no perigo de evitar a tentação.
Estadas tanto quanto possível, como de fato são: missões
de esposas-mães. As bênçãos que no teto e do espaço,
acolhem e aconselham.
Para quem queira saber, na
inventiva de Santos Dumont não estavam, mas em seu
louvor e tributo ele pensava. A tal respeito, tranqüilizam
todos os nomes da lista de passageiros. Teclas clamam
simultâneas luzes que se isolam nas páginas, cintos que
se afivelam, molas que acomodam-se, choros que se
convertem com graças. Surtos de sedes em rogos de medos.
Um terço sobre o peito da mais alta precisão. Aqui,
cabe dizer: papai do céu é quem tem razão.
Países e passageiros que
se aceitam ou não. Notícias que encartam-se em
martirizadas nações, que incontinenti atentam contra a
aviação.
Passemos agora por uma
dezena de passageiros assentados e atendidos. Um
magistrado de cabelos brancos na companhia de um
criminoso calvo; uma senhora sozinha de forma agravada e
indisposta; um senhor estranho com desarranjo intestinal;
um professor de línguas de quem não se deduz nada; um
engenheiro hidráulico que olha para baixo; um arcebispo
esquecido que só ora para si; um adolescente de aspecto
subjetivo com o pai em descontrole discursivo; uma
feminista em sinal de alerta que aparenta perversão; um
militar que suplica pelo soldo inseguro em suas mãos; um
advogado ocasionado e cheio de repetições; um político
mortiço partindo de onde partiu, da lei da oferta para a
procura; uma criança que se decide doce atrás de um
chocolate claro; um intelectual com a coluna prestes a
desabar confabula sobre os erros de cálculo do muro de
Berlim na cata de impressões da coxa de uma gorda
poetisa entre aspas e caspas e um refinado empregadinho,
obsessivamente chamado de oficial de gabinete formula
perguntas impressionistas à um casal de vida social equânimemente
ilegal e duvidosa.
Em face do exposto, o
leitor se apercebe que da aeromoça sinto ciúmes e
multifacetados esboço-os em termos de apuros.
Há de ver-se salva de
tudo com os instantâneos da sua altivez. Pretendida como
a primeira página, creio que só seja dominada por quem
porte timidez. É até explicável: todas elas
envaidecem-se quando lembram que se vestem como as
colegiais que um dia posam ao lado de um atlas e defronte
de um bureaux para um retrato que ainda guardam.
Lembro bem do dia que a
sua imagem e semelhança embelezava e bendizia. À meia
voz e dentre nós, adoçava o mundo em torno. Eu reparava
e avivava a pulsação da fantasia. Gravitava e valia-me
da aura que ela possuía. Não queria pensar em outra
coisa quando de repente um procurador da república que
se mantinha à frente reconheceu-me e incontido,
apossou-se da cadeira vizinha. Possesso e fixo,
saturava-me com a sua rotina fermentada. Atormentava-me
à reportar-se de um caso amoroso que o levou à
apaixonar-se por uma psiquiatra. Deslocado pelo tempo
encurtado e comprometido, pensei apavorado: se eu
passasse por isso e ela se apaixonasse, desmentia-a e lhe
daria alta.
Àquela hora, desprendi-me da psiquiatra e impressionei-o
com a aeromoça. Em questão de segundos uma fada ilumináva-nos.
Muito à contragosto
cheguei ao esquadro da pista. Por um aéreo adeus fui
tocado na descida. Terminante viagem que fez bem a alma.
Dado ao invulgar, lido
agora com a fantasia como fonte de distração. Retorno
ao meu aviãozinho de folha de caderno onde viajava uma
aeromoça atônita e comprimida.
Caído do céu, resolvo
colocar-me em seu mundo de traços característicos. Eis
por que moldo-o na linha de abordagem e retoco-a na
liberdade da narrativa.
De lá para cá é da infância
que escrevo como adulto.
Da pequena janela que não
se abre, do painel de chegadas e partidas e da qualidade
das imagens que vão ao ar durante a vida, reservei essa
passagem em vista da conexão que do braço ao chão
confirma e repisa a paixão do menino em rápida aparição
pelo canal do coração.
Luiz Marcos Lima
Barreto é escritor
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