LG_jc.gif (3670 bytes)

CONTO CRÔNICA
Noivas das nuvens, lua-de-mel nas janelas

Por Luiz Marcos Lima Barreto

Não tão moças, nem aéreas, sinuosamente belas. Noivas das nuvens, lua-de-mel nas janelas. Alianças de névoas em vôos à uní-las.

Sei um a um os meus sonhos de menino e sigo este até hoje do mirante dos meus olhos. Sobre tudo e sobre todos, nunca me veio como os outros. É que só me levaram uma vezinha ao aeroporto e lá chegando, a contar do que foram poucos os minutos, menos eram os aviões. Basta dizer que da ponta dos pés não dava para ver. Gritei a jato: chegou um avião. Nesse caso, ouviram-me o pleito à espera do braço.

Pois bem, pode vir. Afinal, pude ver.

Malcriado na hora de descer. Sim e não. De cima a baixo perdi altura, mas da noite para o dia estava nos ares. A proeza de ter visto uma aeromoça em toda a sua grandeza. A graça feminina na medida desejada embarcava na memória cristalina. Do ponto de apoio onde estava, os olhos postos na porta gradativamente rolavam pela escada.

De nariz arrebitado, aspirava coisas elevadas e o fascínio do azul vinculado ao vestido lhe teria sido atribuído pelo céu. Penteado sem precedente na plena avidez dos ventos que avançavam em sua direção. Tudo instantâneo e a pretexto, do que agora a revelar me atrevo.

Procuro-a na partilha da memória. Pondero e posto-me diante de outros dotes após uma folheadinha. Etiquetadas com estrelinhas ondulam-se golas, aquietam-se gorros e aquecem-se punhos. Balizam-se gestos e balançam-se lenços. Delicadas, despedem-se à porta em todas as línguas. Lapidadas a bordo das contingentes turbulências da vida. De pé, fazem o check-up do medo com a perfeição dos seus sorrisos. Porta-vozes da gravidade, sedativas de vertigens.

Tiradas da cama, banhadas e prontas bem cedinho. Elegantes pelos claros e escuros caminhos. Ansiosas por íntimos lençóis em estáveis carinhos. Estresses nas madrugadas das nervosas escalas em que fulguram enganosas bandeiras e fusos-horários que as fazem ver navios. Menstruações que os diáfanos passos sugam e vazam e dos corpos se deixam sem a menor pausa.

Saudosas da porta de casa, dos filhos que se voltam e abraçam, dos maridos que da cabine do piloto se lembram, com o quarto do hotel conversam e de ciúme se queixam.

Batons que comungam quando os lábios nem namoram. Brilhos vaidosos da vocação. Vôos que saem de entristecidos invernos e chegam em radiantes verões. Horas a fio entre flertes e frestas no mais recôndito dos telões. Passarela em que se teme a queda por decreto com reserva do destino. Vínculos com o Atlântico, o Pacífico e o índico. Veementes, quando se fala em burburinhos; obscuros, pelo que a noite possa ser calma; sossegados, em uma disciplina da escola que aponta e gira o mapa. Oceanos em gráficos assinalados e rotas assimiladas.

Aeroviárias evidências sedutoramente aromáticas. Carreira que dispensa prendas domésticas para não cair no perigo de evitar a tentação. Estadas tanto quanto possível, como de fato são: missões de esposas-mães. As bênçãos que no teto e do espaço, acolhem e aconselham.

Para quem queira saber, na inventiva de Santos Dumont não estavam, mas em seu louvor e tributo ele pensava. A tal respeito, tranqüilizam todos os nomes da lista de passageiros. Teclas clamam simultâneas luzes que se isolam nas páginas, cintos que se afivelam, molas que acomodam-se, choros que se convertem com graças. Surtos de sedes em rogos de medos. Um terço sobre o peito da mais alta precisão. Aqui, cabe dizer: papai do céu é quem tem razão.

Países e passageiros que se aceitam ou não. Notícias que encartam-se em martirizadas nações, que incontinenti atentam contra a aviação.

Passemos agora por uma dezena de passageiros assentados e atendidos. Um magistrado de cabelos brancos na companhia de um criminoso calvo; uma senhora sozinha de forma agravada e indisposta; um senhor estranho com desarranjo intestinal; um professor de línguas de quem não se deduz nada; um engenheiro hidráulico que olha para baixo; um arcebispo esquecido que só ora para si; um adolescente de aspecto subjetivo com o pai em descontrole discursivo; uma feminista em sinal de alerta que aparenta perversão; um militar que suplica pelo soldo inseguro em suas mãos; um advogado ocasionado e cheio de repetições; um político mortiço partindo de onde partiu, da lei da oferta para a procura; uma criança que se decide doce atrás de um chocolate claro; um intelectual com a coluna prestes a desabar confabula sobre os erros de cálculo do muro de Berlim na cata de impressões da coxa de uma gorda poetisa entre aspas e caspas e um refinado empregadinho, obsessivamente chamado de oficial de gabinete formula perguntas impressionistas à um casal de vida social equânimemente ilegal e duvidosa.

Em face do exposto, o leitor se apercebe que da aeromoça sinto ciúmes e multifacetados esboço-os em termos de apuros.

Há de ver-se salva de tudo com os instantâneos da sua altivez. Pretendida como a primeira página, creio que só seja dominada por quem porte timidez. É até explicável: todas elas envaidecem-se quando lembram que se vestem como as colegiais que um dia posam ao lado de um atlas e defronte de um bureaux para um retrato que ainda guardam.

Lembro bem do dia que a sua imagem e semelhança embelezava e bendizia. À meia voz e dentre nós, adoçava o mundo em torno. Eu reparava e avivava a pulsação da fantasia. Gravitava e valia-me da aura que ela possuía. Não queria pensar em outra coisa quando de repente um procurador da república que se mantinha à frente reconheceu-me e incontido, apossou-se da cadeira vizinha. Possesso e fixo, saturava-me com a sua rotina fermentada. Atormentava-me à reportar-se de um caso amoroso que o levou à apaixonar-se por uma psiquiatra. Deslocado pelo tempo encurtado e comprometido, pensei apavorado: se eu passasse por isso e ela se apaixonasse, desmentia-a e lhe daria alta.
Àquela hora, desprendi-me da psiquiatra e impressionei-o com a aeromoça. Em questão de segundos uma fada ilumináva-nos.

Muito à contragosto cheguei ao esquadro da pista. Por um aéreo adeus fui tocado na descida. Terminante viagem que fez bem a alma.

Dado ao invulgar, lido agora com a fantasia como fonte de distração. Retorno ao meu aviãozinho de folha de caderno onde viajava uma aeromoça atônita e comprimida.

Caído do céu, resolvo colocar-me em seu mundo de traços característicos. Eis por que moldo-o na linha de abordagem e retoco-a na liberdade da narrativa.

De lá para cá é da infância que escrevo como adulto.

Da pequena janela que não se abre, do painel de chegadas e partidas e da qualidade das imagens que vão ao ar durante a vida, reservei essa passagem em vista da conexão que do braço ao chão confirma e repisa a paixão do menino em rápida aparição pelo canal do coração.

Luiz Marcos Lima Barreto é escritor

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 06.11.2000
Segunda-feira