VIDA CRÔNICA
HOLLYWOOD
DREAMSPor
Joaquim Cesário de Mello
Tão logo as luzes se
apagaram se reencostou relaxadamente na poltrona
acariciando-lhe os braços com a ternura de um recente
enamorado. Mergulhado na negritude inicial aconchegou-se
à escuridão como quem se recolhe a um colo feminino e
sem cheiro, permitido-se oscilar impreciso por entre
indefinidas sombras noturnas. Embora fosse tarde lá
fora, deliciava-o a sensação embriagante e terna das
noites artificiais, na ausência dos ruídos mundanos.
Vingava-se assim das tardes e de suas solidões,
assassinando-as com a obscuridade das trevas
improvisadas.
Seguro no abraço da
cadeira, postou-se frente à imensa tela branca iluminada
como se aguardasse a chegada de uma mulher amada. Os
segundos que antecedem à ilusão eram vazios e lentos,
porém necessários ao ritual da passagem que se sucedia.
Os objetos, as coisas e as pessoas excluíam-se do redor,
restando apenas a visão retangular dos sonhos acordados.
Não havia mais ninguém, somente ele e os rostos próximos
dos outros distantes. Despido do social, vestia-se de
novas fantasias onde o pensamento se diluía em quimeras
e desejos. Com que sonha o homem neste instante senão
consigo próprio? - ele é feito de imagens e a tela é
seu espelho e sua extensão. Flutuava para além de si,
redescobrindo antigos afetos hibernantes.
Para ele, pouco importava
o filme ou a trama. O cinema era seu sepulcro e a sua
sobrevivência. Detestava a claridade
denunciante das filas e
das salas de espera, onde casais trocavam carícias
permitidas, ansiosos para se embrenharem no negrume anônimo
das mãos e das coxas. A felicidade alheia
inquietava-lhe, da qual se defendia desviando-lhe os
olhos. Por isto levava sempre consigo um livro qualquer
que lhe auxiliasse a distrair a atenção e a dor. Os
livros são melhores que gente, costumava dizer, pois
quando nos incomoda basta fechá-los, enquanto as pessoas
cobram e sugam.
Nunca lhe fora difícil
estar desacompanhado. Nascido filho único, reinara por
inteiro em um quarto somente seu, cujos brinquedos
amargavam a falta de outros toques. Houve momentos, é
verdade, e não foram poucos, que aspirava aos irmãos
com quem compartilhar o medo das madrugadas, porém, como
Deus era surdo as suas preces silenciosas, inventara
amigos imaginários a quem, assim como os livros, podia
mudá-los tão logo enjoasse. Adormecia quase sempre
cercado de cavalheiros, guerreiros e soldados.
Odiava a visita dos primos
e dos vizinhos. Magro, frágil e tímido, era
constantemente subjugado nas brincadeiras de força,
enquanto os pais conversavam na varanda crentes de sua
felicidade. Inferiorizado e humilhado buscava a
supremacia nos estudos, o que lhe rendia elogios e
medalhas. Não sabiam os adultos que os livros e os óculos
eram sua armadura e seu escudo. Cultivava assim a inteligência,
desertificando os sentimentos.
A vida começa na tela.
Escorrendo o corpo pela cadeira, procura a melhor posição,
inclinando a cabeça como quem repousa em travesseiros e
seios. Sumido da tarde, dilui-se em cores múltiplas.
Desaparecido do dia, confunde-se no piscar das
fotografias. Não importa o filme ou a trama, o que
importa é que o filme jamais acabe e lhe devolva a
realidade tantas vezes sonegada.
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