BRASÍLIA – O plenário da CPI da Nike permaneceu completamente em silêncio quando o jogador Edmundo Alves Souza Neto descreveu a convulsão de Ronaldinho, no dia da final da Copa de 98. Por volta das 15h, os jogadores estavam no quarto descansando, Edmundo assistia à TV, quando Roberto Carlos disse que Ronaldinho estava passando mal. “Ele tinha a boca espumando, o corpo todo contorcido e se debatia. Ao ver a cena, eu me desesperei”, relembrou Edmundo, que saiu batendo em todas as portas e gritando para que os médicos fossem atendê-lo.
Edmundo disse que não sabe de nenhuma pressão exercida pela fabricante de material esportivo sobre a Seleção no Mundial.
Manifestando desde o início o desejo de ajudar a CPI “em tudo o que for possível pelo bem do futebol”, Edmundo assegurou que um representante da Nike acompanhava sempre os jogadores na França e que a equipe teve de participar de festas organizadas pela empresa nos EUA.
Voltando ao caso Ronaldinho, o atacante explicou também que ninguém na Seleção sabia da gravidade das convulsões sofridas pelo atacante. Edmundo afirmou que Ronaldo chegou quando o aquecimento dos outros jogadores já tinha começado, ou seja, meia hora antes do início do jogo, e que o treinador da época, Mario Jorge Lobo Zagallo, esteve acompanhando o jogador desde que este começou a sentir-se mal, o que contradiz as declarações prestadas por Zagallo à CPI, esta semana.
Segundo Edmundo, foi César Sampaio quem protegeu a mão com um lençol e desenrolou a língua de Ronaldinho. “Passada a crise, ele adormeceu”.
Edmundo disse que os médicos argumentaram que o jogo daquele dia era importante e que o Ronaldinho iria acordar e não se lembraria do que havia acontecido. “Os médicos nos pediram então para não contar a ele”, revelou. Todos estavam no refeitório, quando Ronaldinho apareceu. Foi o último a chegar, sentou e não falou com ninguém, num comportamento diferente do normal. Mas não lanchou, levantou-se e foi ao campo, que ficava ao lado do restaurante. “Ele não está bem”, reagiu Leonardo, solicitando aos médicos que o levassem para fazer exames.
Ronaldinho reapareceu já no estádio, perto da hora do aquecimento. Estava alegre e sorridente. Entrou em uma reunião da qual participaram ele, a comissão técnica e o departamento médico. Ronaldinho, que seria substituído por Edmundo, acabou sendo escalado.
O depoimento de Edmundo recebeu elogiou tanto da bancada da CBF, que integra a comissão, como dos deputados de oposição, pela sinceridade e serenidade.
TENSÃO – O clima ficou tenso quando o deputado Nelo Rodolfo (PMDB-SP) disse que Edmundo não era nenhum santo e começou a expor os problemas pessoais do jogador, como a condenação por homicídio em conseqüência de um acidente de carro.
O presidente da comissão, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), bateu boca com Rodolfo, para exigir o respeito ao depoente. Edmundo que assistia a tudo de braços, disse: “Tenho problemas particulares como todo o mundo e quem não tiver que atire a primeira pedra”. Os populares, em pé no fundo da sala, aplaudiram o jogador, mas foram repreendidos por Rebelo: “Isto é uma CPI e não uma torcida organizada”.
DOCUMENTOS – Numa kombi, a CBF encaminhou todos os documentos referentes às transferências de jogadores, à CPI do Futebol, no Senado, e à CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados. Às 15h30 (no Recife), a kombi com placa LHO-1828 encostou ao lado da sede da entidade, de onde partiria para o Aeroporto Internacional do Rio/Tom Jobim.