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COMPORTAMENTO
Primeiro encontro: cama ou aperto de mão?

Transar com uma pessoa logo no primeiro encontro divide opiniões. Tem gente que acha normal. Outros acham um absurdo

por LUIZA MODESTO

Você iria para a cama no primeiro encontro? Os mais ousados dizem que sim. É só pintar o clima certo, a dose exata de química no ar e o ato de tirar a roupa vem como conseqüência. Regras não existem, dizem em uníssono homens e mulheres de todas as idades. Se tiver de acontecer, ótimo. Nada de sentimentos de culpa ou preocupação com o que ele ou ela vai pensar depois do ato consumado.

Outros, menos afoitos, ponderam e pensam duas vezes antes de retirar a primeira peça de roupa assim, de cara, sem nenhum preâmbulo. Afinal, nem todo dia é dia de frevo, diriam. Para esses, o melhor é esperar o instante apropriado e subir no bonde na parada certa. E isso, afirmam os protagonistas, só deve acontecer com o tempo e com boas doses de conhecimento do outro.

O estilista Leopoldo Nóbrega é um dos que preferem a cautela para não arruinar a magia do primeiro encontro. A conquista, segundo ele, tem um papel fundamental no jogo da sedução. É como um vinho bem curtido: deve ser degustado aos poucos, sentindo o aroma e o sabor por inteiro. “É preciso tempo para construir o personagem, para fazer o tipo, como se costuma dizer. Sexo é o fim de um ciclo. E se ele for bom, o ciclo se repete naturalmente, prazerosamente”, opina.

Como costuma fazer com as roupas, Nóbrega prefere ir captando elementos indispensáveis para quando a hora certa chegar. Na sua lista, intimidade e cumplicidade são dois ingredientes indispensáveis. “Pode até acontecer de pintar sexo logo após o primeiro jantar. Vai depender do tesão. Porém, como diz o ditado, ‘amor de praia não sobe serra’ e, muitas vezes, ele só atrapalha um possível relacionamento futuro”, acredita.

SEM PUDOR – Cida Pedrosa, poetisa pernambucana da geração 70, tem uma idéia diferente do assunto. “Para mim, não existem regras que determinem se sexo deve ou não acontecer no primeiro encontro. Se você se sente à vontade e a outra pessoa também, pode rolar tudo. Às vezes, a comunhão de almas é instantânea, não precisa de muito tempo para descobrir os pontos de identificação entre os dois”, comenta. Sem falso pudor ou papas na língua, a poetisa conta que já saiu com alguém sem a mínima pretensão de transar e, no fim, aconteceu o inesperado. “A química tem suas influências”, acrescenta.

Os hormônios também. Ainda assim, é comum entre os mais jovens uma atitude mais comedida, mais cautelosa. Em vez de irem com muita sede ao pote, muitos preferem segurar o desejo e adiar para depois aqueles minutos extras de intimidade absoluta. Os rapazes, por medo de desrespeitar as garotas. E estas, por receio de serem consideradas ‘fáceis’. “A mulher tem que se valorizar. Se, toda vez que ela ‘ficar, terminar na cama, vira mulher ‘fácil’”, sentencia Raquel Mariz, 20 anos.

Alberto Arcoverde, 19, e Emerson Nascimento, 24, são de opinião parecida. Para eles, não existe muito espaço para sexo sem uma história prévia em comum com a parceira. “Caso aconteça, a garota pode se sentir usada como um objeto”, compara Alberto.

Marília Rodrigues, 24, e Regina Araújo, 21, discordam dos dois. A exemplo de Cida Pedrosa, elas não vêem nenhum empecilho em ceder aos caprichos da libido em um primeiro encontro. “Se houver interesse, pode acontecer. Por que não?”, indaga a primeira. A condição sine qua non para que o ato se consume é simples: basta haver desejo suficiente de ambas as partes envolvidas. “Não creio que sexo no primeiro encontro compromete o andamento de um futuro relacionamento com a pessoa. Tampouco mexe com a minha imagem. Se acontecer, é porque eu quis. A decisão é minha. Não tem esse negócio de ser ou não ser ‘fácil’” , explica taxativa Marília.

Nem todas mostram-se tão seguras quanto a dupla feminina acima. Na opinião de Paula Duarte, 30, a maioria das mulheres pensa duas vezes antes de dizer “sim” e deixar a roupa cair. Segundo ela, o receio de ser vista como uma ‘mulher fácil’ pesa na hora de decidir. Por outro lado, Paula não crê que sexo deva ser descartado se houver empatia entre o casal. “O primeiro encontro é imprevisível. Às vezes, a pessoa sai dois, três meses com alguém e não acontece nada. E, às vezes, basta um primeiro encontro. Questão de pele”, explica.

COM CAUTELA – A futura mamãe e promotora cultural Maria do Céu também dá sua resposta sobre a polêmica. Ao contrário do que se esperava, ela preferiu o caminho da cautela ao da estrada acidentada da aventura. Conhecida pela sua maneira liberal de ser, Maria revela que, de uma maneira geral, não é sábio fazer sexo logo no primeiro encontro.

“Muitas vezes, o sentimento de autopreservação, o medo de sair machucada de uma relação apressada é maior do que o tesão. Além do que, o HIV também pesa no momento da decisão. Portanto, se houver dúvida, é melhor não ir”, aconselha.

Lembrando que uma noite não é suficiente para descobrir o mapa de cada um, a promotora cultural acredita que, em alguns casos, ceder na primeira tentativa pode prejudicar uma relação futura. E dá um exemplo: “Talvez, se eu tivesse ido para a cama no meu primeiro encontro com Canário (seu atual companheiro), a gente não continuasse juntos”, comenta.

Quem concorda com Maria quanto a ser mais precavido é o designer e também organizador do Mercado Pop, William Batista, o Wil. Na sua opinião, às vezes é bom vestir roupa de conservador e aguardar o instante certo. “Isso já aconteceu comigo. E foi fator determinante para que o relacionamento continuasse rolando por mais tempo. Conhecer a outra pessoa é fundamental”, afirma.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.11.2000
Domingo