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Brasileiros dizem não ter inveja

[SO-PROCEDENC]Agência Globo

[/SO-PROCEDENC]O brasileiro é invejoso? Para surpresa até dos pesquisadores da empresa MCI, 780 brasileiros dos mil entrevistados em todo o país sobre o que mais lhes dava inveja – beleza, dinheiro ou sucesso pessoal – declararam que não invejam nada em ninguém. Refeita do susto inicial, a diretora de atendimento e pesquisa da MCI, Marcela Montenegro, matou a charada: a inveja é um sentimento tão pejorativo que será eternamente negado pela maioria dos invejosos.

Dos que tiveram a coragem de assumir tal sentimento, 8% disseram invejar o sucesso pessoal dos outros, 2% invejam a beleza alheia e 2%, o dinheiro dos mais ricos. “Nós tivemos que concluir que os brasileiros não assumem a inveja, porque é claro que a sentem. A pesquisa foi bem dirigida. Não deixamos que o entrevistado decidisse o que ele invejava. Perguntamos do que ele sentia mais inveja, do sucesso pessoal, da beleza ou do dinheiro dos outros. Mas a maioria recusou as três opções para afirmar que não sentia inveja de nada”, lembra Marcela.

“O interessante é que a inveja é negada em todas as classes sociais e em todas as faixas etárias em idênticas proporções. Quanto ao sexo, 81% das mulheres negam a inveja contra 76% dos homens. É uma diferença pequena, de 6%. A inveja é rejeitada por unanimidade nacional”, completa.

Para o psicanalista Giovanni Gamgemi, a inveja é recusada porque, do contrário, deixaria em evidência a condição aniquilada do invejoso. Ele explica que, assim como o ciúme está relacionado ao ter algo ou alguém, a inveja se refere ao ser, geralmente ser alguém que não se é. “As pessoas invejam nas outras o que não conseguem ser ou viver por conta própria. Confessar a inveja é reconhecer a própria incapacidade de ser o que o outro é. Quanto mais incapaz de viver plenamente, de se expandir existencialmente, mais invejosa será essa pessoa”, diz.

Para a psicanalista Barbara Carvalho, a negação da inveja está mais relacionada ao "complexo de vira-lata" dos brasileiros, a definição "psicanalítica" do escritor Nelson Rodrigues para a baixa auto-estima nacional. “O brasileiro comum vive na corda-bamba, enfrentando dificuldades e limitações, lutando para viver e não apenas sobreviver. Ainda vai confessar que é um invejoso, que queria ser outra pessoa, ter outra vida que não a sua? Reconhecer isso é muito doloroso”, afirma.

Para o psicanalista José Renato Avzaradel, não é o brasileiro que não admite a inveja, mas o ser humano em geral. “É muito doloroso admitir que queremos destruir uma coisa boa do outro só porque a gente não a tem e não podemos tolerá-la”, analisa.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.11.2000
Domingo