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PATOLOGIA
Tecnose, a nova doença da vida moderna

por Marcia Cezimbra

Agência Globo

Quem não pode viver sem um celular, um computador, uma máquina de fazer café, de lavar, um microondas pode estar sofrendo, sem saber, de tecnose, uma das novas psicopatologias da vida contemporânea, que começam a ser diagnosticadas por psicólogos, psicanalistas e por usuários que freqüentam consultórios médicos. No Rio, o psicanalista Eduardo Losicer coordena um grupo que há três anos pesquisa as novas psicopatologias contemporâneas e diz que a dependência exagerada da tecnologia é uma espécie de compulsão. “É uma compulsão de informação e de comunicação. O excesso gera mecanismo de compulsão à repetição que compromete a saúde mental. As novas compulsões são as principais psicopatologias contemporâneas. A tecnose tem como sintoma dominante o vício por informação e hipercomunicação”, diz o psicanalista.

Outras novas patologias vêm, segundo ele, da dependência da velocidade. Losicer diz que tudo na vida é hoje mais acelerado. As pessoas vivem em alta velocidade e querem satisfazer seus desejos também nesse ritmo elétrico. “Para compensar essas urgências de gratificação, há uma abundância também cada vez mais veloz de objetos de satisfação que pretendem para preencher um vazio, uma falta radical da existência contemporânea. As pessoas correm em busca desses objetos, dessas informações. Elas, porém, são efêmeras, descartáveis e a sensação de frustração leva à busca repetitiva, ou seja, compulsiva. Isso é um perigo. Hoje, temos novos tipos de compulsão não diagnosticados pela psicanálise convencional. A compulsão por consumo é um desses novos sintomas. Há novas tristezas e novas depressões que são criadas pelas frustrações causadas pelas falhas da tecnologia e do consumo.

DISTÚRBIO – Para a psicanalista Dulce Silveira, a relação com as inovações tecnológicas reflete a relação da pessoa consigo mesma e com o mundo. “Uma pessoa pode se sentir perseguida pelo simples toque de um celular. Tenho pacientes que fantasiam seus cônjuges controlando-os pelo celular. Eles deixam o aparelho desligado ou na secretária eletrônica, pois vivem as relações como intrusivas ou perseguidoras”.

A psicanalista Helen Meireles diz que a tecnose é apenas a nova roupagem da doença mental. “Um computador não fabrica loucos obcecados pelo seu uso, mas obsessivos e fóbicos se ligam ao dilúvio tecnológico para evitar a realidade”, teoriza.

Já a psicanalista Solange Bittencourt comenta que os que têm dificuldades para lidar com a tecnologia escondem um problema de auto-estima. “Essas pessoas se sentem incapazes e atrapalhadas para lidar com o novo. Já os que usam todas as facilidades da tecnologia e têm cada vez menos tempo sofrem de grandes inquietações internas e não conseguem parar para elaborá-las”.

O psicólogo americano Larry Rosen, que pesquisa os efeitos dos avanços tecnológicos no cotidiano, se diz ele próprio uma vítima da tecnose. “A tecnologia é atraente e não sabemos dar um basta. A jornada de trabalho aumentou três horas diárias com o celular e a Internet em casa. Fiquei com pavor de férias pelo que poderia acontecer com meu e-mail. Hoje não respondo e-mails imediatamente e só minha família tem meu celular”.

O clínico Roberto German diz que atende estressados em geral com problemas de gastrite, cólon irritável, enxaquecas, crises convulsivas e até disritmias, mas o estresse por excesso de tecnologia atinge, segundo ele, só os que sofrem de transtornos obsessivos compulsivos. “Não há comprovação para os ditos malefícios do uso do telefone celular. Quem sofre com a tecnologia é o obsessivo compulsivo”.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.11.2000
Domingo