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MÚSICA DIGITAL
MP3 luta para continuar vivo e gratuito

por Bruna Cabral
bruna@jc.com.br

Depois de sofisticar a transmissão e a reprodução de áudio pela Web, o MP3 está em plena ‘adolescência’, ou seja, enfrenta todas as sofridas transformações anteriores à maturidade. Espinhas, puberdade? Na verdade, o maior tormento do MP3 é a Justiça. Pressionado há meses por cinco gravadoras numa batalha judicial, o Napster, o maior e mais popular programa de MP3 do mundo, se rendeu: assinou um contrato com a alemã Beterlsmann, dona da BMG, comprometendo-se a pagar pelos direitos autorais das músicas disponibilizadas na Rede.

Quem se prejudica? Os 38 milhões de usuários, que terão que pagar taxas mensais estimadas em US$ 5 para usar o serviço, além do próprio MP3, que poderá perder força e público. Para quem já fez o download, o segredo é aproveitar enquanto não é criado um sistema de cobrança. Esforço, aliás, financiado com empréstimos da Beterlsmann, que também comprou uma parte do negócio e se comprometeu a sair do grupo que processa o Napster tão logo o serviço se torne rentável para artistas e gravadoras.

Até agora, pouca coisa foi definida. Os criadores dizem que o serviço manterá a distribuição e a troca de arquivos de MP3. Mas e quanto à gratuidade, que era o terceiro elemento da equação? Para alívio dos ‘napstermaníacos’, a empresa assumiu o compromisso de disponibilizar serviços gratuitos pela Web. Só não disse quais.

O acordo entre Napster e Beterlsmann é visto com bons olhos pela Justiça e indústria fonográfica. Segundo Paulo Henrique Batimarchi, analista de Internet da Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos (APDIF), este é o primeiro passo para que o MP3 traga vantagens para todos os envolvidos. Ele diz que a Justiça espera que outros serviços acenem para a negociação.

Enquanto as mudanças não vêm, os usuários tentam decidir o que fazer. Mesmo sem saber de quanto será a taxa, a estudante de publicidade e administração Silvana Delgado, 23 anos, garante que deixará de usar o serviço quando começar a cobrança. “Não é nem pelo incômodo de ter que revelar o número do meu cartão pela Web, ou de efetuar o pagamento numa agência bancária, mas por uma questão ideológica. Não acredito que esse dinheiro será revertido, de fato, para os artistas”, afirma.

O estudante de arquitetura Thomaz Ramalho, 20, também questiona o destino da verba arrecadada. “Que garantias temos de que esse dinheiro realmente será revertido para os músicos?”. Decidido a abandonar o Napster, ele afirma que não é justo o sistema de cobrança que está sendo cogitado pela empresa. “O usuário que tem uma conexão mais rápida acabará baixando mais músicas que os outros”.

Nem desconfianças nem taxas. Nada fará o designer gráfico Kleber Venancio, 24, ‘aposentar’ o Napster. “Acho justo o pagamento de uma pequena taxa”. O estudante de arquitetura Augusto Magno, 26, também não pretende deixar de usar o serviço. “Continuará sendo mais barato gravar um CD de MP3 que comprar um nas lojas”, defende.

Uma pesquisa desenvolvida pelo Diga-me para o iG revelou que Augusto e Kleber são exceções. Entre os 9.514 participantes, apenas 8% se declararam dispostos a pagar para baixar músicas usando o Napster. Em outra pesquisa, do próprio site, o número de internautas que jura fidelidade ao Napster, haja o que houver, sobe para 18%.

Essa polêmica também está mobilizando artistas. Segundo Adelson Luna, 29, baterista da banda Querosene Jacaré, a lei de direitos autorais é melhor para as gravadoras que para os músicos. “Da vendagem de disco, só ficamos com 8%”. Adelson garante que rentável para o artista é o show. E não há show sem divulgação e popularidade.

Por isso a banda decidiu lançar o CD Fique Peixe em MP3. “Descobrimos que essa é uma boa forma de divulgação e não vamos cobrar por isso”, afirma. “Ao contrário do que se diz, os internautas não deixam de comprar discos. Recebemos vários e-mails perguntando quando o disco estará nas lojas”. Na Web, as músicas do álbum estão disponíveis em www.manguenews.com.br, www.manguetronic.com.br, www.aponte.com.br e www.mp3clube.com.br. No mundo real, o disco só será lançado em janeiro.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.11.2000
Quarta-feira