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MUNDO DIGITAL
Adolescentes lucram com Internet

Garotos aproveitam conhecimento de informática, adquirido geralmente de forma autodidata, para ganhar dinheiro com negócios ligados à Internet. Seja gerenciando um canal de bate-papo ou descobrindo bugs em sistemas de empresas, eles garantem renda própria no final do mês

por Mona Lisa Dourado
mldourado@jc.com.br

Um mouse na mão e um monte de ‘e-déias’ na cabeça. É por esse slogan que parece se guiar uma turminha esperta – de jeans, camiseta, tênis, espinha no rosto e gibi ao lado do micro – que está cada vez mais ganhando dinheiro nas brechas da nova economia, aproveitando as mil e uma possibilidades criadas pelo ritmo de crescimento da Rede no Brasil. Nada, é claro, que sequer se aproxime dos milhares de dólares abocanhados pelo tubarões da Web, mas o suficiente para fazer um bom ‘pé-de-meia’ ou pelo menos garantir a farra do final de semana.

Um caso exemplar de como a Internet pode se tornar lucrativa, desde que se tenha criatividade, é o do estudante do colegial Fábio Trindade Mendes, ou Fabinhu, nickname pelo qual é mais conhecido, 17 anos. À base de muita intuição, em dois anos, o garoto conseguiu transformar um canal de bate-papo num ‘negócio’ bem-sucedido.

Apostando na curiosidade natural dos adolescentes de 13 a 19 anos que participam do canal #osbads, da Rede Brasil, em se conhecerem pessoalmente, Fabinhu decidiu unir o útil ao agradável, realizando o desejo da garotada. Através da promoção de grandes IRContros, com direito a banho de piscina e banda de música, o estudante, junto com amigos que compõem a diretoria do canal, conseguia “juntar um trocado”. “Investimos a verba inicial necessária para organizar o evento e ficamos com o retorno”, revela.

Com o crescimento de #osbads, que atualmente registra a participação de cerca de 300 pessoas, foi a vez de comercializar camisas e bonés com a marca do canal e criar uma homepage para a sua divulgação, atraindo anunciantes interessados nos consumidores potenciais do site, o qual já conta com uma média de 14 mil visitas.

SERIEDADE – Entre festas e vendas de banners e produtos, os dividendos mensais obtidos por Fabinhu chegam a R$ 700, quantia que usa para pagar suas contas e investir no próprio canal. Embora pareça pequena, a remuneração é mais do que satisfatória, considerando-se que o garoto trabalha apenas duas horas por dia. “A Internet é o campo mais propício para que pessoas de qualquer idade, com seriedade e boas idéias, ganhem dinheiro”, defende o estudante, que tem planos de prestar vestibular para Ciência da Computação e continuar tirando o máximo proveito da onda da Web.

Outro grupo que enxergou na Rede o local ideal para amealhar alguns tostões e ainda declarar sua paixão pelo time de futebol, promovendo muita diversão dentro de campo, foi o dos sócio-fundadores do site Torcida Sportnet. Criado por cinco amigos que se conheceram na Web e passaram a ir ao estádio juntos, o site tem como objetivo principl divulgar o Sport Clube do Recife e sobrevive principalmente da venda de produtos do time e de espaços publicitários do seu informativo, enviado por e-mail para mais de 3.500 cadastrados.

A renda movimentada por essas transações fica entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil mensais, que, de acordo com o webmaster do site, Felipe Gomes, 19, é investida na própria homepage e na torcida real, através da confecção de faixas e compra de bandeiras e fogos de artifício. O que sobra é dividido pelo grupo, além de servir para custear as despesas dos rapazes, que viajam para dar força ao ‘leão’ aonde quer que ele vá.

No limite da legalidade, o estudante Rafael Silva, 17, desenvolve um trabalho pouco convencional na Internet. Seu ganha pão virtual consiste em ‘estudar’ os micros alheios até detectar algum furo na segurança e invandir o sistema deixando dicas e mensagens de alerta para os administradores de rede, numa típica atividade hacker, no entanto, com intenções ‘benignas’. “Alguns se assustam, outros acham que é brincadeira, mas a maioria termina me pedindo ajuda para resolver o problema. Daí vêm os contratos”, conta o estudante, que já teve como clientes bancos, faculdades e provedores de acesso e cuja renda mensal pode bater em R$ 6 mil em determinados períodos.

INOVAÇÃO – Navegando no mesmo mar de prosperidade proporcionado pela Internet, Fábio Albuquerque Nani, 23, também encontrou uma maneira alternativa de engordar sua conta bancária por meio da Rede, provando que inovação é a palavra-chave desse mercado. Integrante de uma geração de garotos que no início da popularização dos PCs ficavam trancados em casa desvendando os segredos do computador, Fábio aprendeu sozinho a fazer páginas da Web e começou a prestar serviços da maneira convencional, anunciando em jornais e esperando a resposta dos clientes.

Com propostas de trabalho escassas, ele resolveu mudar de estratégia e percorrer o caminho contrário. Passou a identificar falhas e deficiências nos websites, refazendo-os e enviando-os para as empresas com uma nova ‘cara’ e maior qualidade. Como só utiliza flash (linguagem que confere maior dinamismo às homepages) e tem um preço competitivo, Fábio garante que encanta a clientela. “A idéia é fugir dos padrões e fazer algo além do trivial que todo mundo faz. Penso quais são as necessidades das empresas e entrego o produto pronto antes de elas pedirem. Aí ganho o cliente porque tenho argumentos para discutir com ele”, explica o webdesigner, que presta serviços para os colégios Agnes e Salesiano, a fábrica Fricon e a BCP.

Ganhando até R$ 3 mil com as cerca de três páginas que refaz por mês, Fábio acredita que, para se destacar na Web e ter o retorno esperado, vale aquele velho provérbio que diz: em terra de cego quem tem um olho só é rei.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.11.2000
Quarta-feira