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EVENTO
Debate sobre vida versus Web anima Jornada de Informática da UFPE

por Mona Lisa Dourado
mldourado@jc.com.br

Haverá vida inteligente fora da Internet? Essa foi a pergunta que norteou um dos painéis mais concorridos da VI Jornada de Informática, na semana passada, no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Promovido pelo Centro Acadêmico de Computação, o evento acontece anualmente com o objetivo de estimular a integração entre o meio universitário do curso de Ciência da Computação e a comunidade, através da realização de palestras, cursos e seminários.

Encarado mais como uma provocação, o tema do painel suscitou interpretações distintas, sendo abordado em diferentes aspectos por jornalistas e professores das áreas de informática, artes gráficas e comunicação social.

Na opinião da editora de produção do Radix, Roberta Rêgo, a idéia de que a Web possa vir a mudar o cotidiano das pessoas a ponto de elas renunciarem a atividades prosaicas, como ir ao cinema ou à praia, não tem coerência alguma. “A Internet deve ser vista como um serviço, como uma ferramenta poderosa desenvolvida para facilitar a nossa vida normal, e não como um instrumento que vai substitui-la”, esclareceu Roberta.

AUTONOMIA – Seguindo um caminho semelhante, mas com um enfoque mais filosófico, o professor de artes plásticas Clilton Galamba intrigou o público ao questioná-lo sobre a concepção do que seria a suposta vida inteligente proposta pelo tema do painel.

Segundo ele, não há inteligência na Internet até mesmo porque o computador e tudo mais que se refere a ele não tem autonomia, desejos e necessidades, sem que haja a interferência humana para simulá-los. “O mundo virtual faz parte do nosso psiquismo, é uma extensão da nossa mente, com características de complexidade e interatividade, mas não tem vida sem a nossa participação”, analisou o professor.

Embora considere que o uso da máquina afasta o homem da “sua realidade maior” e critique a aceitação “incondicional” da tecnologia, posição pela qual as pessoas se tornam mecânicas e automatizadas, Galamba também enxerga um germe positivo na Web. “Ela é uma fantasia, um grande delírio que tem a função de encostar os indivíduos contra a parede e fazê-los refletir sobre a sua existência”, disse o professor Clilton Galamba.

PORTAIS – Preocupado com a forma de circulação de conhecimento na Rede, o professor de comunicação Paulo Cunha trouxe à tona a discussão em torno da tendência à reconcentração de informações na Web, com o advento dos portais. “Inquieta-me o risco de se adquirir uma posição passiva frente à Internet, como acontece com outras mídias tradicionais, a exemplo da televisão”, afirmou o professor.

Contrapondo a organização e velocidade de navegação proporcionadas pelos portais à característica libertária do conhecimento descentralizado, o professor vislumbrou a possibilidade de se chegar a uma forma híbrida de distribuição da informação, que garanta a manutenção da diversidade e da liberdade tanto de acesso quanto de produção do conteúdo na Internet.

REFORMA – Levando o debate para uma esfera mais técnica, o engenheiro de segurança do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) Evandro Curvelo abordou a necessidade de se implementar uma reforma estrutural na Internet para que a Rede funcione conforme o que se é exigido dela hoje.

De acordo com Curvelo, a Web não foi construída para as funções que assume atualmente, razão pela qual apresenta limitações, na maioria das vezes, incompreendidas. “Tentamos tirar água de pedra, criando cada vez mais novas aplicações para a Internet. A Rede foi desenvolvida para atuar durante a Guerra Fria, depois foi usada por instituições acadêmicas e daí se popularizou sem que sofresse mudanças significativas de ifra-estrutura. Da forma como está montada, a Web não é capaz de nos fornecer a velocidade e segurança que tanto exigimos dela”, avaliou.

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Jornal do Commercio
Recife - 22.11.2000
Quarta-feira