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ARTIGO

Projeto Genoma

por Emanuel Dias*

Se vivemos hoje o ocaso do século de todas as liberdades, estamos caminhando rápida e acertadamente para o amanhecer do século de consagração da vida. Nosso tempo vivido deu-nos a certeza de que o coletivo deve estar acima do individual, de que a dignidade humana é um bem incontrastável, de que a ética deve cimentar todas as relações. O novo tempo que se aproxima – e já começou – antecipa a contemplação da vida na vitória contras as doenças.

O que nos remete a essa convicção é o Projeto Genoma Humano, um trabalho que vem sendo desenvolvido em várias partes do mundo e sintetizado em um consórcio internacional que se destina a mapear todos os genes da espécie humana até o ano 2025. A rapidez com que esse trabalho se desenvolve dá-nos a certeza de que seu termo final chegará mais cedo, trazendo esperanças de que uma sobrevivência menos penosa, com menos dores e mais alegria de viver. Essa é uma expectativa otimista que projetamos a partir de um projeto que desde já provoca enormes questionamentos. Basicamente recorre-se a valores éticos para antecipar o uso selvagem de um patrimônio científico que deve pertencer a toda humanidade, sem custo que represente exclusões. Pode parecer uma utopia, mas não vemos outro caminho para esse gigantesco esforço que se processa para o combate final das doenças genéticas, que são incuráveis, que não seja sua generosa universalização.

Não temos dúvida de que há uma lógica de lucro por trás dos grandes empreendimentos internacionais, seja na indústria da morte – as armas de guerra – seja na indústria supostamente voltada para a vida – os medicamentos. Além desse aspecto material, há de se constatar o potencial abuso da individualidade, a agressão a valores éticos como meios contestáveis que justificariam os fins. Mas não temos dúvida, também, que sobre o risco dos valores humanos ameaçados sobreviverá um bem conquistado neste século de lutas que termina. Esse bem é o aprofundamento da consciência política na defesa de valores coletivos palpáveis e difusos. Quando essa consciência se materializa em mandamentos constitucionais, como é o nosso caso, não temos mais dúvida de que não há razão para temer os avanços engendrados nos laboratórios do capitalismo internacional. A sociedade está mais madura, mais consciente, mais capaz de reagir às agressões aos direitos fundamentais.

Podemos perceber esse avanço mesmo na mais trágica revelação de nossa atualidade, como é o caso da África, berço de uma parte de nossa civilização. Nos estertores que aquele povo vive revela-se clamor pela sobrevivência, extremamente mais doloroso hoje que há apenas cem anos. Da mesma forma, nos escândalos em que nós brasileiros estamos mergulhados há uma manifestação de luta indignada pela transformação, pelo combate sem trégua aos vícios e às deformações institucionais.

Isso é avanço sobre o sofrimento. Isso tudo nos permite imaginar que vivemos uma fagulha temporal na História. Que se faz em muito mais tempo que a nossa percepção de vida de uma ou algumas gerações. Os avanços científicos que assustaram no passado hoje são patrimônio inalienável da humanidade. Assim também nos parece ser o Projeto Genoma Humano, para o qual voltamos nossa atenção pedagógica.

Nós somos obrigados a nos voltar para esse estudo e aprofundar sua compreensão, se não como cientistas diretamente envolvidos em seus complexos mecanismos, que seja como educadores que têm o dever de refletir sobre os grandes avanços da ciência e partilhar o aprendizado com as gerações que viverão esses avanços.

Essa reflexão implica, entre outras coisas, em manter vivo questionamento de um projeto desse ordem, capaz de interferir na ordem individual e coletiva. Devemos ter sempre presente a cobrança de que o uso científico do mapeamento da vida se faça sem exclusões. O conhecimento e a capacidade de alterar o DNA do portador de uma patologia têm que ter o seu SUS, a universalização de uso, a democratização de todas as descobertas.

Se há, no passado, vícios que nos fazem desconfiar desse encaminhamento, devemos antepor a ele a confiança de que o século das liberdades nos ensinou – e continua nos ensinando – a perceber a hora e fazer acontecer. As seqüências genéticas capazes de garantir um melhor futuro para a sociedade podem até parecer extravagantes para um mundo onde milhões ainda passam fome, milhões são analfabetos. Mas é preciso também nos advertir para os milhões que padecem a cura do corpo que alimenta a força da alma.

* Emanuel Dias é reitor da Universidade do Estado de Pernambuco


Jornal do Commercio
Recife - 25.07.2000
Terça-feira

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