
MÚSICA
Forró de
Elino está com roupa nova por José Teles
Houve um tempo em que a
música nordestina não precisava de ser resgatada para
que seus artistas tocassem em rádio e vendessem discos.
O potiguar Elino Julião viveu a era dourada do forró,
ao lado de Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva,
Dominguinhos, Trio Nordestino, Marinês, Abdias,
Marinalva, Gerson Filho, Genival Lacerda, Ludugero. Isto
aconteceu até a segunda metade dos anos 60, quando os
artistas regionais davam-se ao luxo de morar em pólos
como Campina Grande, onde a Rádio Borborema mantinha
concorridos programas de auditório, dos quais Elino
Julião era presença constante.
Nascido em Timbaúba dos
Batista, Rio Grande do Norte, ele ostenta uma discografia
com mais de 60 títulos, entre discos solo e
participações em coletâneas (como a lendária
Pau-de-Sebo, da antiga CBS). Como compositor, tem
músicas gravadas por Jackson do Pandeiro (Xodó de
motorista), Luiz Gonzaga (Meu saudoso Ceará) e muito
mais gente. Este fornido currículo fez com que Elino
Julião acabe de receber uma merecida homenagem em Natal,
na forma de um disco-tributo, intitulado O Canto do
Seridó (produzido por Dácio Galvão, sob patrocínio da
Fiern/Sesi). O CD agrupa uma das mais ecléticas
reuniões de artistas para tal tipo de projeto, incluindo
uma pá de artistas de Pernambuco.
Prestam reverências a
Elino Julião cantores que aparentemente não têm nada a
ver entre si ou com o forró. E é esta variedade
estilística, que dá o molho ao disco. As partipações
vão dos pernambucanos Silvério Pessoa, Lenine e
Dominguinhos, às representantes da chamada Vanguarda
Paulista, Ná Ozzetti e Tetê Espíndola. Entre uns e
outros, tem Fagner, Maciel Melo, Elba Ramalho, Xangai,
Marinês e até Chico Science & Nação Zumbi, numa
misteriosa vinheta que encerra a faixa Filho de guaiamum.
Com um time de
instrumentistas feras (Mingo Araújo, Maciel Salú, João
Lyra, Genaro, Jamil Joanes, para citar uns poucos), Elino
Julião repassa sua já longeva carreira e seus forrós
mais conhecidos, alguns deles standards do cancioneiro
nordestino. Um dos mais conhecido, sem dúvida, é O Rabo
do jumento (Nascimento você diz que é valente/
Você cortou o rabo do jumento/ Eu não quero pagamento,
Nascimento/ Eu só quero outro rabo do jumento/...Veja
pessoal, que mau elemento/ Não sei se o animal é ele ou
o jumento/ Eu não quero pagamento, Nascimento/ Eu só
quero é outro rabo no jumento). Quem divide esta
faixa com seu autor é o ubíquo Lenine, ambos esbanjando
ginga e humor.
Outra das músicas bem
conhecidas de Elino Julião faz a apologia do muar, é O
Burro, uma das melhores do disco, na interpretação dele
e de Dominguinhos (Vamos dar valor a quem trabalha/
Vamos dar valor a quem dá murro/ O burro é quem merece
uma medalha/ O burro é quem trabalha/O burro é quem dá
murro). Elino Julião ainda segura bem sozinho um
arrasta-pé. Em O Canto do Seridó, ele reinterpreta
algumas canções sem parcerias vocais, é assim com
Finja que ainda me quer, São Severino Mártir, O
Negócio, e outro dos seus hits, Tamarineira (Só
por te amar/ Tô desta maneira/ Na Tamarineira, sei que
vou parar).
Com Fagner, Julião recria
Meu saudoso Ceará, com Silvério Pessoa revisita Jackson
do Pandeiro com Xodó de Motorista. A rainha do forró,
Marinês está com ele em Na sombra do Juazeiro, e Xangai
manda ver balanço na divertida Forró da Coréia. No
mínimo curiosas são as participações de Tetê
Espíndola em Relampiou e Ná Ozzetti em Puxando fogo.
O Canto do Seridó chega a
ser um disco didático para quem acha que forró é uma
coisa só, ou considera forró o produto transgênico
criado no Ceará. Aqui tem xote, baião, galope, rojão,
e algo fundamental que os atuais compositores do gênero
vêm perdendo: a capacidade de abordar temas simples, com
muito bom humor, dentro do formato que foi o segredo do
sucesso popular tanto de Elino Julião, quanto de Jackson
do Pandeiro ou Genival Lacerda: três estrofes, no
máximo, e um refrão bem bolado, entre elas.
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