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ENTREVISTA/ Vamberto Morais
Erudição a serviço do ecumenismo

por Lauro de Oliveira*

O traço marcante da personalidade de Vamberto Morais talvez seja a inquietação. Inquietação que se manifesta sobretudo no espírito. Ele está sempre na busca incessante de quefazeres intelectuais. Pode-se dizer que é um escritor disciplinado e produtivo.

Nos últimos tempos, ele praticamente publicou um livro por ano. Sempre o vem lançar no Recife. Embora morando em Londres há mais de 50 anos, Vamberto Morais nunca perde contato com sua terra de origem. Vamberto desempenhou importante papel como chefe do Serviço Brasileiro da BBC de Londres no período da ditadura militar iniciada no Brasil em 1964. Naquela época, os meios de comunicação sofriam entre nós insidiosa censura e os brasileiros praticamente ignoravam o que realmente se passava em nosso país. Vamberto acolhia então os exilados políticos e os opositores do regime para oportunas entrevistas transmitidas para o Brasil pela BBC. Nesta entrevista, Vamberto fala de sua vida, de suas idéias e de suas atividades ecumênicas e inter-religiosas em Londres, onde chegou pela primeira vez em 1946.

JC CULTURAL - Por que você abandonou a medicina?
VAMBERTO MORAIS
– Para explicar meu abandono da medicina, seria absurdo e irreal concentrar-se no meu caso, que é apenas um dentre milhares de jovens da classe média. Vamos fazer um pouco de história e voltar ao que era o Brasil em 1936, quando eu, um menino imaturo e tímido de 14 anos, terminei o que se chamava na época curso ginasial. Que opções eu tinha diante de mim? Que pobreza lamentável! Tínhamos apenas as faculdades de Direito, Medicina, Engenharia e Agronomia. Não havia universidade: o Brasil, e ainda mais o Nordeste, se atrasou terrivelmente neste ponto. Numa pequena reunião de família eu achei que o melhor seria fazer Direito, já que a tradição era que jovens com interesses de cultura geral, acadêmicos, se tornassem bacharéis. Meu irmão mais velho, que ia seguir Direito, recomendou que eu escolhesse Medicina, o que em vista da pobreza de opções parecia bem razoável. E foi assim que em 37 comecei os dois anos do que era então o pré-médico.

JC Cultural – Mesmo não sendo uma opção perfeita, como foi sua atuação na Faculdade de Medicina?
Morais
– Na Faculdade de Medicina esse estudante, malgré lui, escolheu a menos médica das especialidades, a psiquiatria. Em meu último ano, de 1944, realizamos na Sociedade de Internos, de que me fizeram presidente, um Congresso de Estudantes de Medicina, mas antes disso Galdino Loreto e eu promovemos a Semana Cultural, com a participação de professores como Bezerra Coutinho, Luís Freire e outros.

JC Cultural – Como era então sua maneira de pensar?
Morais
– Já nessa época eu tinha escapado do materialismo ateu e fiz uma palestra no último dia sobre a crise moderna da religião, com base no novo conceito de experiência religiosa desenvolvido por William James em seu livro clássico de 1902, e na nova visão da unidade de todas as religiões lançada por Swami Vivekananda no Parlamento Mundial de Religiões de 1893, em Chicago. Note-se que James, diplomado em medicina como eu sem vocação, teve forte crise de depressão que lhe permitiu compreender melhor os casos de crise existencial expostos no livro, como o de Tolstoi. As Variedades da Experiência Religiosa, hoje um dos clássicos do assunto, se baseou nas conferências de Gifford que James deu na Universidade de Edimburgo em 1901 sobre Teologia Natural, um dos primeiros professores norte-americanos a serem convidados para ensinar na Europa.

JC Cultural – Embora já bastante tocado pelo sentimento religioso, deu você continuidade à sua vida de médico psiquiatra?
Morais
– Em 1945 eu me candidatei em São Paulo a uma bolsa de estudos do Conselho Britânico. A Inglaterra tinha ganho muito prestígio no mundo pela sua resistência ao nazismo, e naquela época, para todos os que queriam uma mudança social, tinha um governo trabalhista ou socialista, coisa que me atraía muito. Em 1946, depois de tirar o primeiro lugar num concurso para médico da Assistência a Psicopatas, fiquei radiante quando soube que o British Council me oferecia uma bolsa. E assim em setembro parti para Londres do Rio num navio norueguês, com três outros companheiros – um agrônomo mineiro primo do poeta Carlos Drummond de Andrade, que se tornou grande amigo meu, um cirurgião paulista e uma professora de inglês, também de São Paulo.

JC Cultural – Como foi então seu primeiro contato com a vida em Londres?
Morais
– Numa Londres cheia de ruínas dos bombardeios, com um forte racionamento até de pão, este jovem nordestino teve de enfrentar o pior inverno que a Inglaterra (e a Europa em geral) tinha tido em mais de 50 anos. Mas havia mais: entrei em grupos de pós-graduados de boa parte do Ocidente e comparei minha situação com a deles: a maioria se sentia à vontade em suas profissões e, em especial, os que estavam estudando literatura inglesa ou outras matérias acadêmicas que me atraíam, enquanto eu me sentia inadaptado, amarrado às pacientes do Hospital Maudsley.

JC Cultural – Você, um inadaptado entre os demais bolsistas, que rumo tomou?
Morais
– Durante o curso ginasial, eu já tinha revelado um enorme interesse pela história e, em especial, pela história antiga, e tinha começado mesmo a escrever em cadernos, com capítulos arrumadinhos, uma História do Mundo Antigo. Os livros eram escassos e minha base era, antes de tudo, a coleção de César Cantu (uma edição que levava a história até 1879) e depois uma tradução espanhola de Oncken. Não havia então nenhum curso superior de história num Recife atrasado, como já disse, ainda sem nenhuma universidade. Ora, a psicanálise que iniciei me levou a um confronto com o passado e comecei a compreender que estava no caminho errado. Meu psicanalista inglês, um homem de fina compreensão, sem dogmatismo freudiano, me ajudou muito nessa crise de depressão. Do ponto de vista prático, encontrei trabalho na BBC, que foi a salvação. Concebi então o projeto de, terminado o ano da bolsa, mudar de carreira e financiar minha própria reeducação na Universidade de Londres. Por que não reviver meu interesse por história antiga, que nunca tinha morrido? Foi isso o que fiz e, para tal, foi preciso estudar pelo menos uma língua clássica – escolhi o grego. Mais tarde, comecei a ler o Novo Testamento no original, tão mais fácil depois das agruras de Tucídides! E isto teria importantes conseqüências. Continuei colaborando na BBC, para a qual escrevi uma série de programas sobre Psiquiatria na Grã-Bretanha e também tomei parte em rádio-teatro, desenvolvendo novos interesses. Por fim, em 1955, tirei meu diploma de BA Honours na University College: a tese de Ph. D. veio bem depois.

JC Cultural – Você acha que o fato de especializar-se em História, teve influência na escolha dos temas dos seus livros?
Morais –
Não há dúvida de que meu interesse fundo por História influenciou muito a minha vida. Espontaneamente, sempre me vem a pergunta: como é que isto começou? E é evidente que se combinou à minha forte inclinação para a espiritualidade e religião como resposta a meu problema de vida, que é o de toda a humanidade. A seqüência de meus livros publicados pela Ibrasa, na série Gnose, começando com O Mistério de Jesus, em 1990, passando por O Sentido da Vida, que é, em síntese, uma história do trabalho e do lazer humano (e da ganância) e culminando com A Religião do Terceiro Milênio, na verdade uma história futurista da religiosidade, está toda penetrada de uma perspectiva histórica, pregando a aceitação da mudança pelas religiões. Por exemplo, se olhamos a história do diabo e do inferno, podemos compreender muita coisa, em especial no desenvolvimento do cristianismo. E isto é um tema constante em meus livros, como, por exemplo, A Primeira Comunidade Cristã e o mais recente – A luz no fim do túnel – de que vou falar aqui um pouco. O livro de fato quebra um tabu. O horror de falar da morte é outro sintoma da alienação de nossa sociedade, em que se evitam coisas profundas. O estudo das experiências do limiar da morte tem atraído muita gente, e não só psicólogos, e não há mais dúvida de que se trata de experiências místicas de grande valor, que nos revelam algo sobre os níveis mais profundos, e quase sempre eliminam o medo da morte. Eu já tinha falado do assunto de passagem em alguns livros anteriores (como em Meditação pela Yoga), mas neste livro tais experiências são relacionadas com as crenças tradicionais sobre paraíso e inferno (ninguém mais crê no Diabo). Como sempre, eu me concentro no concreto, no que as pessoas têm experimentado ou sobre as que tiveram visões, não em crenças e doutrinas. Eu procurei fazer o livro, o mais curto da série, o mais instrutivo e informativo possível. A morte é transcendente porque vai além dos nossos pensamentos usuais, do cotidiano e trivial. Johann Christoph Hampe, o alemão que teve uma dessas experiências, intitulou seu livro Morrer é coisa inteiramente outra. Outro e outra são experiências inefáveis, incomunicáveis, que pertencem a um outro nível da realidade. E assim espero que meu livro ajude as pessoas a compreender um pouco esse nível espiritual.

JC Cultural – Nesse contexto de seu interesse por história e preferência por temas religiosos, como foi sua experiência com as religiões orientais?
Morais
– Minha atração pela Índia e religiões do Extremo Oriente é bem antiga e começou quando minha irmã Cesarina e eu, antigos companheiros de leitura (foi ela que estimulou meu interesse pela boa ficção e pela música clássica, pelo que lhe sou de uma imensa gratidão), lemos o Kim e outros livros de Kipling. Nesse tempo, revoltado com o autoritarismo da Igreja, eu me proclamava budista ou panteísta. Kim é um livro fascinante, embora com uma mensagem imperialista, e seu herói é um lama tibetano que viaja pela Índia, ajudado por um menino irlandês tão moreno e versado nas línguas do país que passa por um nativo, um verdadeiro diabrete. Depois de ver o famoso filme de Frank Capra Horizonte Perdido, de James Hilton, que se tornou parte do meu folclore e imaginação (o livro é comentado brevemente em O sentido da vida). Em 1979, aproveitei uma licença especial dada pela BBC para passar algumas semanas na Índia, visitando centros de Yoga. Apesar de problemas de saúde e do que se chama choque cultural, foi uma viagem das mais interessantes, que também me instruiu sobre o lado negativo da cultura hindu. Um amigo indiano, que tinha estado há pouco em Bombaim, me falou do problema da corrupção em sua terra natal, o que não deixa de ser consolador para brasileiros.

JC Cultural – Julgo que você em seus livros faz uma crítica muito procedente do mundo moderno, apontando a ascendência do ser sobre o ter, o imediatismo, a ânsia de poder etc. Como você vê hoje nossa sociedade?
Morais
– Minha repulsa por muita coisa na sociedade de hoje só tem aumentado. Vivendo há meio século na Inglaterra, pude ver como a sociedade britânica foi corrompida pela ganância e amor ao dinheiro, em especial pela fase desastrada da fada má Margaret Tatcher, que deixou uma herança apavorante. O fato de que ela fez questão de dar seu apoio ao monstruoso Pinochet a define. Ouço diariamente queixas da pressa e ânsia em que as pessoas vivem. E do consumismo, tanto aqui, como no Brasil. Estive relendo há poucos dias o último livro de Erich Fromm To have or to be? E continuo buscando inspiração nele. O que se chama hoje globalização frisa o lado negativo que oprime o Terceiro Mundo. A sociedade filantrópica Christian Aid, que vem trabalhando muito no Brasil, assim como a Oxfam, está promovendo uma campanha mundial para que se cancele a dívida dos países mais pobres, mas até aqui os mais ricos fizeram ouvidos de mercador ao apelo.

JC Cultural – Você em Londres, juntamente com sua esposa, freqüenta grupos ecumênicos e interreligiosos?
Morais
– Há anos que Lourdes e eu participamos do Movimento de Inter-Faith, de Londres, organizado por elementos católicos para aproximar as várias religiões. Hoje em dia a Inglaterra é um país multicultural e multirreligioso e um dos objetivos da campanha é combater pela raiz o preconceito racial, ainda bem forte aqui e em boa parte do mundo. O atual governo trabalhista tem feito muito contra o preconceito, mas o primeiro ministro é criticado com razão pela sua preferência por gente rica e pelos interesses de business e os altos salários dos chamados fat cats (gatos gordos, como marajás no Brasil), os executivos das grandes companhias e presidentes dos órgãos públicos.

JC Cultural – Já se observa algum resultado prático desse movimento?
Morais
– Há uma nova atmosfera aqui na Inglaterra, como em outros países, criada por esse movimento constante, esse diálogo cada vez mais convergente, entre cristãos, hindus, muçulmanos e gente sem filiação certa, como eu, que recusa a ficar preso a rótulos. Por exemplo, na recepção no Palácio do Arcebispo de Cantebury, depois da palestra do Dalai Lama, sentou-se ao meu lado uma freira, sem hábito, inglesa, e falamos sobre a nossa experiência de meditação, e isto a poucos passos do canto da sala em que o dalai lama atendia aos que vinham cumprimentá-lo. Descobrimos, então, a freira e eu, que tínhamos feito retiros com as mesmas pessoas, mulheres que se podiam qualificar de hindu-cristãs, como a irmã Vandana, cujo livro sobre o uso de mantras e rosários eu cito em A religião do Terceiro Milênio. Este é um sintoma típico da convergência de movimentos religiosos ou espirituais, em que rejeitamos o velho preceito estreito de “cada macaco no seu galho” . No primeiro sábado de julho, tomamos parte, como todos os anos, na peregrinação anual do Interfaith, movimento de Londres, em que mais de 200 pessoas de todas as fés se reúnem para fazer um retiro pré-determinado, visitando igrejas, mesquitas, templos hindus, sinagogas ou centros de religião Bahai, que prega a união de todas as religiões. Às vezes termina numa ação de graças na catedral católica de Westminster (eu descrevi uma destas peregrinações no começo de A religião do Terceiro Milênio), mas isto não sucedeu o ano passado. Outro sintoma são os retiros que temos realizado em Maragogi, em geral em agosto, de que participam amigos de qualquer religião ou mesmo aqueles que não têm fé.

* Lauro de Oliveira é escritor

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Jornal do Commercio
Recife - 03.07.2000
Segunda-feira