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LIVRO
Escritores, impressores e editores

por Sebastião Vila Nova

Só existe livro porque existem escritores, editores e impressores. A afirmação, aparentemente acaciana, é, mais do que necessária, urgente e imprescindível no nosso meio intelectual, onde se tem confundido sistematicamente os conceitos de editor e impressor. Para que alguém possa se dar ao diretio de denominar-se editor não é necessário que seja impressor, proprietário de gráfica. As grandes editoras do Brasil e do mundo, na sua maioria, não possuem gráfica. Poucas, aliás, são as editoras que, possuindo tecnologia necessária à impressão, imprimem, elas próprias, os livros que publicam. Entre nós, as exceções mais notáveis são a Vozes e a Melhoramentos.

No Recife (embora não só no Recife), simples impressores têm-se denominado a si mesmos de editores graças à ingenuidade e à vaidade de escritores (alguns até dignos donome) que aspiram à glória fácil e passageira de autor de livro impresso. Para que alguém tenha o direito de ostentar o título de editor é necessário que banque financeiramente (pleonasmo é necessário) a impressão de tudo o que publique e, além disso, divulgue adequadamente e distribua a sua mercadoria (para o autor o livro é uma realização do espírito, mas para o verdadeiro editor o livro é uma mercadoria, é assim que as coisas funcionam).

Tem ocorrido, no entanto, a prática cada vez mais difundida entré nós de escritores financiarem a impressão de seus livros e, o que é muito grave, permitirem que aquele que simplesmente imprimiu o livro se ache no direito de fazer imprimir na capa e na folha de rosto a marca de sua suposta editora, faturando, portanto, duplamente: primeiro a importância pela qual cobrou a impressão do livro e, segundo, a ostentação do título de editor no livro que só fez imprimir. Editor é editor, impressor é impressor, embora, eventualmente, as duas condições possam estar superpostas, o que, no entanto, é raro no mundo todo.

Se um escritor financia inteiramente a impressão de seu livro, é claro que ele deve registrar que se trata de uma “edição de autor”. Walt Whitman não teve pejo algum de fazê-lo, como não deve tê-lo qualquer autor consciente do valor do seu trabalho intelectual. No entanto, no nosso acanhado meio intelectual, como afigura-se vergonhoso que um autor faça imprimir na capa ou na folha de rosto do seu livro confissão de que ele financiou a impressão do seu trabalho, termina o escritor por estimular a identificação espúria de impressor com editor, o que significa contribuir para a difusão da idéia de que temos uma indústria editorial emergente, o que, afinal, não é verdade.

Sejamos acacianamente didáticos (a tautologia constitui, afinal, a proposição mais autenticamente verdadeira): escritor tem como sua atividade escrever, e tão somente escrever; impressor tem como obrigação implícita no termo financiar a impressão, editor promover a divulgação e a distribuição do livro e pagar os direitos autorais do escritor. Se aquele que se diz editor não faz mais do que imprimir o livro, não é editor e, portanto, não tem o direito de ostentar no livro impresso a marca de uma suposta editora. Já é tempo de os nossos escritores tomarem consciência desta distinção.

* Sebastião Vila Nova é sociólogo.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.07.2000
Segunda-feira