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Sociedade e representação

Alta funcionária das Nações Unidas fez elogios à preocupação da sociedade brasileira com suas crianças socialmente excluídas. Reiko Niimi é representante no Brasil do Unicef, um fundo da ONU para a infância. Em recente artigo neste Jornal do Commercio, ela se refere a reportagens publicadas por nós na passagem dos dez anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente. Considera exemplar a atitude do brasileiro nesse campo, “não apenas quando se trata de denunciar, mas também quando quando se trata de participar”. Diante da enormidade de problemas que enfrentamos, ou simplesmente sofremos, da péssima classificação internacional do nosso país com referência a índices de mortalidade infantil, concentração excessiva de renda etc, é gratificante para nós essa opinião. Principalmente partindo de uma pessoa que entende de problemas da infância.

Gratificante especialmente para este jornal, que tem insistido sobre a necessidade da responsabilidade social, da participação da sociedade na solução das questões que lhe dizem respeito, sem esperar tudo, como era costume entre nós, da boa vontade e iniciativa do Estado. A tendência atual é que o Estado cuide somente de relações internacionais, defesa, segurança e poucas atribuições mais. Sendo assim, retornam à sociedade atribuições que ela, historicamente, havia delegado ao Estado. Cabe-lhe ver quais são as questões importantes, os problemas que a afetam, buscar soluções e aplicá-las, com o apoio do Estado, que arrecada impostos e tem a chave do Tesouro (nacional, estadual, municipal), pressionar, cobrar.

Os problemas brasileiros são múltiplos e complexos, mas não é impossível resolvê-los. O trabalho feito até agora pela sociedade, através de variadas organizações nacionais e internacionais, ONGs, grupos empresariais, entidades religiosas etc, é visível e palpável. Crianças são tiradas das ruas, recebem educação e alimentação, aprendem profissões; desempregados têm ajuda; idosos carentes são socorridos com abrigo e assistência de saúde; voluntários trabalham em favelas e áreas assoladas pela violência. O que está faltando é uma ampliação da consciência social de particulares, empresas, igrejas etc.

É necessário e urgente que a conscientização da sociedade, sobre essas questões, se amplie e generalize tanto que os cidadãos se convençam de que não devem querer ter prosperidade e felicidade sozinhos, e de que, participando da solução dos problemas sociais, serão mais cidadãos, melhorarão a qualidade de vida de toda a sociedade, e terão muito mais paz, segurança, possibilidade de viver a vida. Não é dando uns trocados a crianças e adolescentes nos cruzamentos, quando fecha o sinal, dando esmola a pedintes, que serão solucionados os problemas. A ação da sociedade em prol dos carentes tem que ser organizada, como toda ação que quer atingir um fim. Assim como uma empresa adota uma praça, pode adotar também um grupo de crianças, dando-lhes a atenção e a educação que as fará participantes da sociedade. Isso é apenas um exemplo.

São muitas as maneiras de agir socialmente e não são somente empresas que têm de assumi-las. Há poucos dias, no 1º Congresso Imip da Saúde da Mulher e da Criança, a OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou uma meta de redução da desnutrição infantil. Até o ano 2002, evitar as mortes por fome de 100 mil crianças com menos de cinco anos, na América Latina; onde todo ano morrem 500 mil crianças por desnutrição nessa faixa etária. As verbas internacionais serão concedidas a programas do Ministério da Saúde, como Saúde da Família, Agentes Comunitários de Saúde.

É uma oportunidade para a participação da sociedade. A Pastoral da Criança da Igreja Católica Romana já faz trabalho semelhante há anos, atingindo milhares de crianças no país inteiro. A OMS pretende capacitar profissionais para atingir sua meta. Por que não coordenar seus esforços com os dos milhares de voluntários daquela entidade religiosa? Os resultados se multiplicariam. Novos trabalhadores voluntários seriam mobilizados. Os resultados da conscientização para a responsabilidade social, com apoio do Estado, já se fazem sentir: em Pernambuco, no ano passado, mais de 68 mil crianças foram tiradas do trabalho para a escola, sobretudo nos canaviais, e seus pais receberam bolsa de R$ 25 para mantê-las estudando. Um decisivo impulso no sentido de a sociedade poder cumprir seu papel em questões como essas seria que os nossos representantes políticos nos parlamentos se tornassem realmente representativos.



Jornal do Commercio
Recife - 25.07.2000
Terça-feira