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COMPORTAMENTO
Quando os adolescentes perdem os limites

por Maria Elisa Alves
Agência Globo

Sempre que assistia aos jogos de futebol no condomínio de classe média alta onde mora, Lucas via os meninos mais velhos fumarem maconha após as partidas. Aos 12 anos, ganhou um cigarro. Em casa, acendeu, tragou e gostou. Dois anos depois, começou a tomar ácido e usar cocaína nas festas que freqüentava. Depois de quatro anos consumindo drogas e brigando com todos ao seu redor – desde os colegas da escola até os parentes – Lucas atingiu o auge do descontrole: há dois meses, bateu na mãe e só não esfaqueou o pai por pouco.

Casos como o do rapaz, hoje internado em uma clínica de recuperação para usuários de drogas, são cada vez mais freqüentes – e não adianta culpar os hormônios da puberdade por todos os problemas. Especialistas não titubeiam em apontar os responsáveis pelo surgimento de uma geração violenta, que costuma brigar em boates, praticar pequenos furtos e até mesmo traficar drogas: os pais e o modelo de educação liberal que não estabelece limites para os filhos.

Para a educadora Tânia Zagury, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora de dois livros sobre adolescentes, o número de jovens que está se marginalizando é assustador. Segundo Tânia, a explicação para o fenômeno é simples: os pais não estão sabendo dizer não aos filhos.

“Os pais não querem ser repressores e acabam permitindo que os filhos façam tudo o que querem. Quando os garotos erram, nunca repreendem adequadamente. Numa atitude superprotetora, dizem logo que o filho não tem responsabilidade. Com isso, as crianças crescem sem limites, berrando nos shoppings, quebrando as casas dos amigos dos pais, sem assumir a responsabilidade por seus atos e sem ter a percepção de que existem outras pessoas. Ao chegar à adolescência, as crianças educadas desta forma, que estão virando a maioria, começam a dar problemas em todas as áreas. Queimam índios, como no caso ocorrido em Brasília, e depois alegam que só queriam se divertir”, analisa.

O problema da delinqüência juvenil causada pela falta de limites não se restringe aos lares brasileiros. A psicoterapeuta britânica Asha Phillips defende que muitos distúrbios de comportamento apresentados por crianças e adolescentes são causados pela incapacidade e insegurança dos pais na hora de impor limites. Autora do livro Dizer não, impor limites é importante para você e seu filho, recém-lançado no Brasil, Asha tenta tirar o tom pejorativo e repressor da palavra não, ensinando que reprimir às vezes é um ato necessário e educativo.

O médico Marcelo Carvalho, que trabalha na recuperação de jovens de classe média envolvidos com o consumo e tráfico de drogas, também acha necessário dizer não às crianças e aos adolescentes para evitar o aumento da violência entre jovens. “A violência é causada pela ‘ausência de pai’. Não do pai propriamente dito, mas da figura que personifica a lei. Os jovens de hoje não têm mais regras. São filhos de uma geração que acreditava ser proibido proibir. Acabou se perdendo a medida da educação. Não se pode ser nem repressor nem liberal demais”, diz.

De acordo com Marcelo, os problemas que os pais enfrentam hoje são derivados da falta de autoridade moral. “Faltam regras hoje em dia. Saímos de um período de repressão, de ditadura, para um de liberdade total. Os pais quiseram virar amigos dos filhos. Há um lado bom, mas um perigoso, que é a quebra da autoridade. Hoje, os filhos não ouvem os pais, não seguem conselhos. Os adolescentes acham que sabem e que podem tudo. Inclusive agredir os pais”.

A psicóloga Adelina de Freitas, professora de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida, comenta que dar limites significa não apenas impor regras ou reprimir, mas especialmente dar atenção e referências para que o jovem possa amadurecer.

“Os pais que, de uma maneira até bem intencionada, deixam os filhos fazerem tudo são, na verdade, desatentos. Eles não dão aos filhos referências de até onde podem ir, função essencial dos pais. A violência social também alimenta a agressividade da adolescência. Se este mundo é extremamente violento, o jovem também vai questioná-lo com violência, através das drogas, da agressividade, das brigas entre gangues”.

Para o terapeuta Daniel Benchimol, é fácil diferenciar o que é típico da adolescência, como a contestação da autoridade dos pais, do que é abuso dos jovens. “A lei é necessária. Ao se deparar com ela, o jovem tem a possibilidade de crescer, experimentar transgressões criativas, produtivas. Se não há lei, o adolescente tende ao caminho da delinqüência”.

LIMITE – A maioria dos pais de adolescentes sequer gosta de imaginar que o filho possa protagonizar atos criminosos. Mas o pesadelo de ver um filho fazer parte das estatísticas de delinqüência pode, porém, estar mais próximo do que se pensa. Um levantamento da Associação dos Comissários da Infância e da Juventude de São Paulo mostrou que o envolvimento de jovens de classe média com a criminalidade cresceu cerca de 80% nos últimos três anos.

Para a pedagoga M., mãe de um rapaz de 15 anos, foi difícil reconhecer como seu o filho flagrado furtando um CD player de um carro estacionado na rua em que a família mora. Até entender o que havia acontecido com o rapaz, que sempre tirou boas notas na escola, foi difícil.

“Ele era agressivo, mas eu atribuía isto às mudanças próprias da adolescência. Jamais imaginei que ele pudesse estar passando por problemas. Sempre o eduquei com cuidado, deixando ele fazer o que quisesse, para evitar traumas. De repente, percebi que deveria ter sido mais repressora. Não sei se foi nisso que errei, mas estou tentando descobrir junto dele”, diz M., que está fazendo terapia familiar.

V., de 17 anos, também acredita que a falta de controle tenha prejudicado a sua vida. Como o pai trabalha em outro estado e só volta para casa nos finais de semana, V. acaba sem levar bronca. O resultado foi um rapaz cada vez mais rebelde, que chegou a machucar o rosto da mãe. “Sempre fui mimado. Meu pai, quando me vê, está com saudades e não quer discutir. Fui criado fazendo tudo o que quis. Agora, que comecei a terapia, acho que me faltaram rédeas”, reconhece.

Segundo Tânia Zagury, o modelo de educação ideal deve ser um meio-termo entre a repressão e a liberalidade. Segundo ela, a fórmula é dizer sim sempre que possível e não sempre que necessário. Além disso, é fundamental passar valores para os jovens.

Para a psicóloga Evelyn Eisenstein, a melhor maneira para evitar que os adolescentes parem no Juizado de Menores é o diálogo. Durante as conversas, é possível transmitir noções do que é certo. Se a família for estruturada, os conselhos serão ouvidos. “É difícil. Mas eu sempre falo para os pais de adolescentes ficarem calmos. Afinal, adolescência passa”.

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Jornal do Commercio
Recife - 23.07.2000
Domingo