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JOELMIR BETTING

Aliviando o garrote

Caçapa cantada pela coluna em dezembro. A descompressão do crédito bancário para produção, giro e consumo já está a meio caminho, nesta metade do ano. A decisão política de ajustar o garrote monetário para a realidade brasileira nada tem de eleitoreira em 2001 e muito menos em 2002. Não era mais suportável continuar asfixiando governos, empresas e famílias com o crédito bancário mais curto e mais caro de todos os tempos neste Brasil capinanceiro.

Monetarice de lado, financiamentos de no máximo 30% do PIB (contra 86% da média mundial), a um custo final de 60% na produção ou de 140% no consumo fazem o jogo do veneno puro disfarçado de remédio duro. Em meio mundo, a nova realidade econômica demonstra que a estabilização dos preços resulta menos dos trancos da austeridade monetária de Greenspan & Malan e mais dos choques de modernização das empresas e de competição dos mercados.

No comando do Banco Central, Armínio Fraga assinou contrato de risco com a descompressão gradualista do garrote bancário. Decisão que não depende sequer das barganhas rasteiras com o Congresso trapalhão.

Depende da caneta da própria autoridade monetária, com o aval técnico do Ministério da Fazenda e com o sinal verde do Palácio do Planalto.Tal como se deu na abertura do câmbio.

Nesta altura do calendário, a oferta de crédito bancário aproxima-se de 38% do PIB, contra 27% em outubro. A taxa básica nominal já está em 16,5%, a um passo da taxa real de um dígito. Na ponta dos empréstimos ao setor produtivo, as taxas finais de julho estão, em média, um quinto abaixo dos níveis de outubro.

Para dezembro, há quem aposte em taxa básica de 15% ao ano, em oferta bancária de até 40% do PIB e em taxa final média um terço mais barata (ou menos cara) que a de outubro último. Para o final do ano que vem, a massa dos empréstimos já estaria acima de 50% do PIB. E com o custo real desse dinheiro de aluguel ficando pela metade dos sufocos bancários do ano passado. Eis por onde transita a projeção de um PIB 4% maior em 2000 e de 5% a 6% maior em 2001. Não se trata de uma farra de crédito de padrão asiático (de 110% a 130% do PIB).

Trata-se de um mero ajustamento da política monetária às condições brasileiras de uso e de abuso do sistema financeiro. Insensatez seria perpetuar um regime de crédito que ainda reserva menos de 3% do PIB para o consumo familiar e menos de 2% para a economia rural.
Que tal? Nem na China.

Sem grilo
Monetaristas enrustidos ainda juram, por todos os juros, que créditos maiores a custos menores afugentam dólares, desencorajam a poupança e ressuscitam a inflação de demanda. Pois a descompressão está a meio caminho e não se registrou, até aqui, nenhum desses efeitos colaterais.

Sustentável
A verdade é que não existe incompatibilidade entre retomada dos negócios (adequadamente financiados) com estabilidade dos preços (naturalmente competitivos). Só estão em alta os preços sob choques de oferta (seca, geada e Opep) e as tarifas ainda administradas (ou reindexadas).

Linhas tortas
E que dizer do refresco fiscal oferecido pela baixa dos juros da dívida pública que financia o déficit público? Num Brasil onde não é mais o déficit que provoca a dívida e, sim, a dívida que provoca o déficit?


Jornal do Commercio
Recife - 25.07.2000
Terça-feira