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MARIANA III
Artesãos mantêm viva a tradição artística que caracteriza a região

Uma das formas mais agradáveis de absorver a essência barroca de Mariana é através dos ateliês de seus artesãos. No mais famoso deles, o do escultor Hélio Petrus, anjos, querubins, fontes em pedra sabão e madonas de cedro transportam os visitantes para uma época em que artistas como Aleijadinho e Manoel da Costa Ataíde vagavam por aqui, deixando as marcas de sua arte em igrejas e monumentos, sem imaginar o quanto elas inspirariam intelectuais e artistas da posteridade.

Influenciado pelo acervo barroco de Mariana, cidade em que mora desde os sete anos de idade, Petrus só ingressou na carreira artística aos 24, quando cursava a faculdade de Letras. “Fazendo uma pesquisa sobre a arte mineira do século 18, senti-me atraído por Aleijadinho e outros escultores. Daí, foi só fazer a primeira tentativa de esculpir uma estatueta e descobrir o dom que eu tinha”, revela.

De lá para cá, passaram-se mais de 30 anos, no decorrer dos quais dedicação foi a palavra de ordem no ateliê. “Dizem que o poeta nasce, e o escritor se faz. O artista é como o poeta, porque já nasce com a vocação. Mas o talento tem de ser aprimorado com sacrifício, pesquisa e perseverança, porque a gente praticamente tenta tirar a imagem de dentro da madeira”, afirma o escultor.

Por conta desse empenho, Petrus conseguiu alcançar uma maturidade profissional que lhe permite trabalhar as suas peças através do mesmo processo utilizado no século 18, com os florões e arabescos sobre folha de ouro. “Depois de esculpida na madeira, a obra passa pelo processo de pintura à base de látex, sendo posteriormente submetida à lixa, para se corrigir as imperfeições e realçar os detalhes. Em seguida, é feito o douramento da peça, por meio da policromia. Após esse procedimento, procura-se criar um aspecto de envelhecimento, revestindo-a de um certo ar de misticismo”, explica Petrus.

Entre as principais obras do ateliê do escultor estão o relevo sobre a coroação de Nossa Senhora e o diálogo de Cristo com a samaritana no poço de Jacó, inspirada no Evangelho de São João. Cada uma das talhas e esculturas feitas em cedro pode levar até três meses para ficar pronta, o que justifica o valor cobrado por elas, que varia de R$ 200 a R$ 20 mil.

Para dar continuidade à produção de arte barroca na cidade, Hélio Petrus decidiu dividir com aprendizes o seu conhecimento. “Com a ajuda deles, também é possível conceber projetos maiores e ter uma produção contínua para atender a demanda dos clientes e manter um acervo para exposições”, diz o escultor. Ele sonha com o dia em que as autoridades públicas do município se sensibilizarão “quanto à importância de aliar arte e turismo, colocando em destaque o trabalho dos artistas marianenses, a exemplo do que acontece com os artesãos nos grandes centros culturais da Europa, que têm na atividade turística uma expressiva fonte de renda”. (M.D.)

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Jornal do Commercio
Recife - 20.07.2000
Quinta-feira