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LITERATURA
O futuro do livro é virar eletrônico

Se até agora você buscava livros apenas nas livrarias, é bom começar a expandir seu horizontes. A cada dia que passa, um novo formato literário ganha mais espaço no mercado: o e-book. Feito para a Internet e tendo ela como único meio de leitura, essas ‘obras eletrônicas’ começam a conquistar os escritores, que já estão lançando títulos exclusivos para o formato, como o baiano Ubaldo Ribeiro. Ele lança, na próxima semana, Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, ainda sem data de publicação convencional. Outro que já se rendeu aos encantos virtuais da rede foi o mago Paulo Coelho, que anunciou que está preparando o seu primeiro e-book para ser lançado em breve.

por Carol Almeida

Falar sobre Internet parece ser tarefa sem muito sentido porque quase tudo agora soa, aparentemente, como uma redundante elucubração de teorias sem base, hipóteses incertas, idéias novas, sempre muito inéditas e velozes o suficiente para que se crie uma confusão de informações. Mas existe uma sutil diferença nesta rede (que mais parece uma cama de gatos) entre aparência e funcionalidade. Trocando em bits, a Internet representa um formato, mas funciona exatamente como contraponto disto. É a Internet que vem permitindo até agora as maiores discussões sobre de que maneira pode se construir um formato. Neste vácuo de significados está a novidade consumista do e-book, ou o livro eletrônico.

A definição para esta nova palavra na dinâmica léxica da rede é tão simples quanto seu nome. E-book é um livro feito na Internet (até aí nada novo) e para a Internet (boom!, nitroglicerina para o mercado de livros). Editoras, escritores e, principalmente, os leitores devem sentir a repercussão deste lançamento no bolso, no sentido conotativo e denotativo da expressão. Porque, além de ser mais barato para todas as partes, o e-book também acumula o conceito de hardware, ou seja, matéria física. A indústria está lançando neste começo de ano vários aparelhos de bolso de onde as pessoas podem baixar livros inteiros. Tudo isto está acontecendo em uma velocidade incrível, e provavelmente na próxima semana, todos os brasileiros conectados poderão baixar um livro inteiro de João Ubaldo Ribeiro, lançado exclusivamente na Internet.

Emergem então deste oceano dois tópicos de discussão. O primeiro diz respeito ao funcionamento do mercado editorial e o segundo é um pouco mais sério do ponto de vista cultural: os e-books podem revolucionar as maneiras de se ler escrever um livro. Não é o caso de 99% das obras eletrônicas ‘publicadas’ até agora, mas é uma possibilidade que anima alguns e assusta outros. Além do próprio texto, os escritores podem utilizar links, imagens, áudios, vídeos, enfim, eles fariam o que se convencionou chamar de hipertexto. A Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, nome do e-book de João Ubaldo, foi feito em um formato similar ao livro convencional, nada de música incidental ou imagens linkadas. É quase como o livro impresso estivesse sido escaneado. Página por página, o ‘folheamento’ acontece da mesma forma. Mas se tudo fosse tão simples, esta matéria não teria tantas ‘aspas’.

Todos os questionamentos são óbvios sob o aspecto prático e romântico do livro. Nem microcomputadores, nem laptops podem ser lidos na cama, na rede ou numa cadeira de praia. Não existe o cheiro do livro, o sentido de estar pegando nele (sim, para muita gente, isto é imprescindível). Como conseqüência, chega-se à conclusão que o e-book não é nada senão uma entidade virtual, que está depois do monitor, distante de seu sentido material. Mas sabe o que as grandes editoras de todo o mundo acham disso? Balela! A ordem agora é investir no mercado eletrônico com todo o arsenal de possibilidades.

INVESTIMENTOS – Na última terça, uma das maiores editoras dos Estados Unidos, a Time Warner Trading Publishing divulgou que estava criando uma divisão na empresa, a iPublish.com, para lidar apenas com e-books inéditos, de autores best-sellers. No Brasil, a Nova Fronteira, em parceria com a página Submarino, está investindo no lançamento do e-book de João Ubaldo Ribeiro e já existe uma página brasileira, www.ebooksbrasil.com, com vários títulos e notícias atualizadas diariamente para os internautas.

Mas esta febre de ofertas e o motivo de todo o debate sobre os livros eletrônicos têm uma origem próxima. Em 14 de março deste ano, a companhia Simon & Schuster assistiu a um fenômeno de acessos, cerca de 400 mil, em menos de 24 horas. Tudo porque a página da empresa lançava naquele dia o e-book Riding the Bullet, do best-seller Stephen King.

O deslumbre pós-Riding the Bullet (disponibilizado na rede por apenas U$ 2,50) alertou o mercado. A ressaca do lançamento deste livro eletrônico ainda repercute positivamente na Internet. Mas há de se levantar algumas ressalvas a este entusiasmo imediato. Primeiro, Stephen King, pela natureza de seus livros, sempre vendeu muito e segundo, o e-book foi lançado depois de um grave acidente sofrido pelo escritor. Houve quem pensasse que ele ia morrer, mas de repente, quando ninguém esperava, o convalescente ‘Rei’ (King) lançou um trabalho inédito, cujo mote é justamente uma ‘carona’ para o perigo.

“O internauta é um cliente em potencial tanto para consumo quanto para produção de livros. Prova disso é que, depois dos e-mails, nunca se leu e se escreveu tanto”, afirma Arthur Bahia, diretor comercial da Nova Fronteira. O raciocínio é coerente, porém não se pode medir nada ainda porque o caso de Stephen King, pelos motivos citados, não pode servir de termômetro.

O fato é que as páginas que disponibilizam o serviço são cada vez mais ousadas. O que nos anos 40 era apenas tema de ficções científicas, hoje é realidade. Mas apesar de já existirem há cerca de dez anos – tentativas que não deram muito certo para o grande mercado e somente para livros científicos – dos e-books só se tem uma certeza: eles dificilmente substituirão o livro impresso. Ao contrário do que o estudioso Marshall McLuhan previa em 1962, não há ainda perspectivas de uma tecnologia unicamente pós-impresso. O mundo não deverá submergir em um ambiente totalmente virtual, até mesmo porque está longe o dia em que ele conseguirá se livrar completamente do prazer pela posse material de seus bens.

Serviço:

www.simonandschuster.com
www.submarino.com.br

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Jornal do Commercio
Recife - 29.05.2000
Segunda-feira