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PELOS CONFINS DE PERNAMBUCO
A luta do sertanejo por dias melhores

O professor Damião Pereira leva crianças menores de cinco anos a pé para a escola, andando pelo menos 30 minutos todos os dias. Com sacrifício, tenta manter um colégio que foi fechado pela prefeitura de Quixaba, no Sertão do Pajeú. Centenas de quilômetros dali, em Cedro, Maria Rosendo sofre para criar dois filhos. O marido fugiu das dificuldade e foi tentar a vida no oásis da fruticultura de Petrolina. Ela mal sabe que, um dia, o município viveu a febre da exploração do ouro. Estes são apenas exemplos do sofrimento de quem mora em cidades dos chamados confins de Pernambuco. A série de reportagens, que segue até amanhã, é de Ricardo Novelino

O professor Damião Pereira é um exemplo do sofrimento e da persistência do sertanejo. Aos 25 anos, nascido e criado no longíquo Sítio Varjota, distrito de Quixaba, Sertão do Pajeú, distante 434 quilômetros do Recife, passou por cima de birras de governantes adversários para manter acesa a chama da educação. Desde 28 de fevereiro, quando reabriu a Escola José P. Carvalho, uma casa construída no meio do mato e fechada, meses antes, pelo prefeito José Pereira Nunes, cumpre uma mesma rotina de sacrifício todas as manhãs.

Acorda de madrugada, esquece o minguado salário de R$ 60, pago pelos próprios agricultores pobres da região, e vai à luta com seus alunos. Andreza, Gerlaine, Cinara, Luana, Cíntia, Fernando, Ânderson, Éder e Emanuel têm no máximo cinco anos de idade. São crianças carentes, que assim como ele, também nasceram num lugar praticamente esquecido, perto da fronteira com o Sertão da Paraíba e estão sendo criadas em um local, onde a água é uma raridade, a luz chegou há pouco tempo e o asfalto mais próximo está a mais de 40 quilômetros de distância.

Mesmo com as adversidades de quem é obrigado a andar a pé por mais de 30 minutos de mãos dadas com os meninos e meninas pela estrada de barro esburacada e cheia de pedras, Damião acredita que vai conseguir traçar um futuro diferente para os seus pequenos alunos. Ao tirar do próprio bolso o dinheiro para a pipoca, que aparece como raridade na merenda escolar, aposta numa possível mudança na vida de Quixaba, que apesar da pobreza, foi recém-emancipado de Carnaíba. “O prefeito disse que a escola não tinha futuro. espero provar que ele estava totalmente errado, dando uma esperança de melhoria a estas crianças”, declarou.

A determinação do professor Damião é um dos raros orgulhos de Quixaba. Apesar da promoção ao status de cidade, em 1991, a localidade de aproximadamente sete mil habitantes vive os mesmo problemas de décadas atrás. Dramas que nem os R$ 135 mil, recursos provenientes do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) enviados todos os meses pelo Governo Federal conseguiram amenizar. Às vésperas do século 21, os moradores de Quixaba sonham com o saneamento básico e ainda estão muito ligados ao município de Carnaíba. Nem mesmo o dinheiro da União fez o comércio crescer.

Para os adolescentes, estudar o 2º grau significa viajar para Carnaíba todos os dias. Para fazer compras em Afogados da Ingazeira, a 37 quilômetros, é preciso pagar R$ 4 pelo aluguel de um carro ou caminhonete.O hospital tão esperado ainda está em construção. Apesar do investimento de R$ 280 mil do Sistema Único de Saúde (SUS), a central de atendimento médico, que nem inaugurou, sofre de uma doença. Todas às vezes que chove, ele fica alagado. Os agricultores até conseguem produzir uma boa quantidade de pinha, mas penam para armazenar o produto. “Temos uma produção de até 500 caixas de pinha por semana, mas a estrada de barro e a falta de asfalto e de uma central de distribuição prejudica o trabalho”, queixa-se o vereador Luís de Almeida, conhecido por Luís de Solon. Enquanto isso, os nove vereadores escolhidos pelos 5.500 eleitores embolsam mensalmente R$ 15 mil.

Morar em Quixaba é difícil até para os cerca de 300 funcionários públicos e dezenas de aposentados. O ex-agricultor Antônio Pereira Primo é um exemplo de quem sofre para receber o dinheiro suado. Nos finais de cada mês, seu Antônio, aos de 79 anos, arrisca a vida na garupa de uma moto, pelas estradas de terra batida, para pegar os R$ 151. Banco em Quixaba ainda é um sonho distante e a agência dos correios do município não faz o pagamento a todos os dependentes da aposentadoria. “Eu escolho os motoristas com mais juízo, para não cair”.

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Jornal do Commercio
Recife - 29.05.2000
Segunda-feira