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A hora e a vez do legítimo forró pé-de-serra

por LEONARDO SPINELLI

Este São João vai ser definitivamente do forró pé-de-serra. Artistas e empresários ligados ao ritmo tipicamente nordestino não escondem a alegria de ver o forró ‘made in’ Ceará sair aos poucos da ordem do dia das rádios e televisão para dar lugar ao mais genuíno xote e baião da terrinha. Muitos se disseram estarrecidos com o que viram na programação da TV nos últimos finais de semana: Dominguinhos passando 40 minutos no Faustão, Gilberto Gil no mesmo programa cantando dois baiões, Alcymar Monteiro no Programa Raul Gil. Enfim, está chovendo pesado no pé da serra sertaneja.

Para o empresário Marcos Veloso, dono do bar Nosso Quintal, o forró tradicional está ressurgindo por que o eletrônico, do tipo Brucelose e Magníficos foi uma moda passageira. “O pé-de-serra esteve escanteado nos últimos cinco anos. Porém, o estilizado tem apenas um andamento rítmico. Cansou. Com o tradicional isto não acontece, pois são vários ritmos: xote, xaxado, baião”, acredita.

O bar de Veloso é um ponto de encontro de vários forrozeiro de renome no Estado. No próximo dia 14 quem baixa por lá é o tradicionalíssimo Trio Nordestino. Já neste final de semana, Ivan Ferraz se apresenta ao lado de Aracy Araújo, lançando CD e prestando homenagem ao colega.

Outra voz que defende com unhas e dentes a raiz nordestina é o músico Fernando Filizola, integrante do Quinteto Violado no início da carreira. Atualmente, ele responde pelo projeto Agrocultura que leva forró, feira típica e a consciência de cultura de raiz aos moradores da comunidade de Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho. Tudo com apoio da Associação de Moradores do local e da prefeitura.

Ele classifica seu projeto pela retomada do forró pé-de-serra como uma “guerrilha” que está prestes a sair vitoriosa. “Vamos explodir no São João. O Cabo terá uma festa totalmente típica”, avisa. Segundo Filizola, esta retomada do forró tradicional não é uma coisa isolada, está acontecendo em todo o Brasil. “Quando a gente vê Dominguinhos passar 40 minutos no Domingão do Faustão da TV Globo, percebe que algo está mudando. Até mesmo na Bahia há cooperativas que estão se organizando para quebrar a hegemonia do axé”, revela.

Se tudo isto é bom para o empresariado ligado ao forró, imagine para o artista. “Quem vai dominar o São João este ano é o pé-de-serra. As pessoas estão se ligando no romantismo do sertanejo. Chegou o nosso momento”, acredita o forrozeiro Josildo Sá. Ele, inclusive, se apresenta nesta sexta no bar O Rei do Cangaço ao lado da banda Arquivo do Forró. Amanhã, Josildo segue na caravana do Circuito de Forró dos Sertanejos, no Clube dos Oficiais da PM.

O circuito acontece há cinco anos. Esta foi a forma encontrada pelos sertanejos para fugir da hegemonia do ‘e-forró’ no período junino. Sempre com atrações das cidades de Serra Talhada, Afogados da Ingazeira, Belmonte, Salgueiro. A cada ano aumenta o número de municípios e em 2000 mudou o público. “Nas edições anteriores nosso público era formado de gente da velha-guarda. Este ano tem muitos jovens. A coisa está mudando”, afirma o apresentador do Forró Verso & Viola Ivan Ferraz.

Percebendo este horizonte ensolarado, os donos da marca Forró Classe A resolveram ressucitar o nome que fez muito sucesso há cerca de sete anos, quando a festa fazia a cabeça dos jovens no antigo Clube Boa Viagem. “Desde o ano passado é notória a evolução comercial do pé-de-serra. Semana passada nada menos que três redes de TV destacaram artistas de forró em sua programação. Por isso resolvemos reeditar o Forró Classe A”, analisa um dos sócios do novo point, Sílvio Macedo.

O Classe A recomeçou suas atividades em 14 de abril, sempre trazendo, todas as sextas, vários forrozeiros. Uma vez por mês há uma atração de peso. A bola da vez é o cantor Jorge de Altinho que estará lançando um CD ao vivo, o primeiro no Recife após três anos (ver matéria ao lado). Segundo o empresário, o mercado está tão quente que há 40 artistas na lista de espera de apresentação em sua casa. “No meio deles há gente como Dominguinhos e Nando Cordel. Estamos com a agenda fechada até o final de julho”, afirma.

O negócio está tão bom que a estrela da noite de hoje, Jorge de Altinho, faz uma ótima previsão. “É bom não se espantar quando artistas como Nádia Maia, Petrúcio Amorim e outros figurarem no rol das estrelas do momento.”

Apesar de o forró estar apertando o passo, há locais que sempre apostaram em sua força. É o caso do bar Azulzinho, na Cidade Universitária. São quase 20 anos dedicados ao forró tradicional com a mesma proposta: todo final de semana a atração é pé-de-serra. Até mesmo na sexta-feira de Carnaval não tem conversa, o arrasta-pé é certeza.

“Normalmente quem toca na casa é o trio de Zé Bicudo. No entanto, artistas como Maciel Melo e Terezinha do Acordeon sempre dão uma canja”, explica o proprietário Valdízio Ramos. A clientela agradece, como atesta o economista Jaime Meira, freqüentador assíduo do local. “Todos se conhecem. O Azulzinho é uma confraria dos amantes do forró. No São João isto aqui ferve.”

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Jornal do Commercio
Recife - 26.05.2000
Sexta-feira