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GENTE DE ESPORTES
EDINHO SEM PAPAS NA LÍNGUA

por Wladmir Paulino

Atenção ‘bonzinhos’, burros, preguiçosos e perdedores, não passem perto de Édson Domingues Nogueira, 56 anos. Não gostaram da afirmação? Então, paciência! Edinho, como costuma ser chamado, é assim: polêmico para uns, durão para outros tantos, leal para ele mesmo. É oito ou oitenta. Na vida dele não existe meia-justiça, meio-ladrão, meia-mulher grávida e meia-verdade. Quem lhe fizer mal, vai ter o troco, amanhã, depois, daqui a um, dois, dez anos, mas vai.

Na vida é assim, no futebol também. Jogador que faz pose de anjinho não tem vez com ele. O preferido é o bad boy, aquele encrenqueiro, espirituoso e – pasmem – pagodeiro e chegado numa loira gelada. Mas calma, Edinho não é partidário da anarquia. Jogador pode beber? Pode, desde que saiba a hora certa. “E todo mundo não bebe? Por que o jogador não pode?”, questiona o atual gerente de Esportes do Náutico e presidente da Federação Pernambucana de Futsal, ele mesmo parceiro de farras com atletas em tempos passados.

E essa ‘queda’ de Edinho para os desregrados perseguiu-o em toda carreira. Não teve um só time no qual ele passou que não tivesse o pessoal ‘da barca’ – gíria para jogadores farristas. “O que não pode é o jogador chegar embriagado no treino. Se ele cumprir com as obrigações e não tiver dinheiro para a cerveja, eu dou”, aponta.

Só para ter uma idéia, o desportista conta que nos times em que trabalhou como preparador físico, só o sino da igreja não bebia, pois, como é de conhecimento público, a boca fica para baixo. “Mesmo assim, quando dava meio-dia, ele virava para cima e colocavam bebida dentro”, diverte-se.

Nesse rol de festeiros incluem-se os astros do penta tricolor (69-73), da vigésima conquista rubro-negra (75) e o bi alvirrubro (84-85). Se o jogador não se enquadra, pior para ele. Pode até bater na cadeia, como Rabicó, ex-salonista da Votorantim.

Eis o ‘causo’: dois dias antes de uma decisão, o atleta pediu a Edinho (na época gerente de Esportes da Votorantim) para visitar a mãe. Só que a genitora do jogador atendia pelo nome de farra. Usando do poder de delegado, o gerente não pensou duas vezes e mandou o craque do time para o xadrez. O que seria motivo para ressentimento e rancor virou gratidão. “Até hoje, ele me chama de pai”, orgulha-se.

AVE EM EXTINÇÃO – Capítulo à parte nas memórias de Edinho é o meia Henágio, ex-Sport, Santa e Vitória, para o gerente, uma ave em extinção. Notório amante da noite e, claro, de compostos etílicos, o jogador fazia de tudo para não largar a garrafa. Uma vez, no Arruda, quando a Brahma espalhou placas em todo o estádio, Henágio saiu-se com essa: “Professor, se em todo o campo tá escrito beba Brahma, como é que o senhor quer que eu pare de beber”. Entre risos, Edinho vaticina: “Um jogador como aquele nunca poderia parar”.

A contratação de Biliu pelo Náutico é outro exemplo claro das preferências de Edinho. Nos anos em que defendeu o Santa, era praxe no Arruda comentários sobre a proximidade do volante com as casas de pagode da cidade. Mas não é esse Biliu que aportou nos Aflitos. Após a vitória sobre o Sport, o jogador avisou ao gerente que iria a Timbaúba, visitar a família. “Eu disse a ele: ‘Vá tomar uma cervejinha, meu filho, eu não lhe contratei desse jeito!’”, diz, com a naturalidade que lhe é peculiar.

CLÍNICO GERAL – Na sua segunda passagem pelo Náutico, Edinho enfrenta o desafio de tentar dar mais um título estadual ao clube. Esse tipo de conquista depois do hexa (1963 a 1968) tornou-se raro para os alvirrubros nas últimas três décadas, quando a torcida só deu o grito de “é campeão” em quatro oportunidades (74/84/85/89). Nessas quatro oportunidades, Edinho esteve presente no bicampeonato, ao lado de Baiano, Lourival e Ademir Lobo, entre outros, época em que fez serviços de ‘clínico geral’´ na suprevisão de futebol. “De tudo eu fazia um pouco.”

Independente do resultado do clássico de ontem, ele garante: o Náutico vai brigar pelo título enquanto tiver chances de ganhar o campeonato pernambucano.

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Jornal do Commercio
Recife - 29.05.2000
Segunda-feira