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HISTÓRIA
Nos Aflitos, uma noite mágica

por Fernando Menezes

Muito antes do Hexa, que só chegaria quase vinte anos depois, o Náutico conquistou para sua galeria de grandes feitos, uma vitória que nunca mais será esquecida enquanto viverem os que a presenciaram. E com certeza será salva pela tradição oral, pelas discussões de bar e pelos livros de pesquisa esportiva. São esses feitos que consolidam o amor pelas cores escolhidas e preservam a sadia rivalidade, indispensável para manter as disputas regionais.

Na noite de 22 de novembro de 1951, no estádio dos Aflitos, Náutico e Sport se enfrentaram pela liderança do returno do Campeonato Pernambucano daquele ano. Os mais de vinte mil torcedores assistiram, então, a uma das mais extraordinárias vitórias da história alvirrubra, uma goleada e de virada. Em circunstâncias completamente adversas.

UM JOGO DE ARREPIAR – O Sport, embora estivesse modificado, tinha um elenco terrível, notadamente pelo seu ataque. Os dois clubes estavam empatados na tabela, e portanto, o clássico seria decisivo. A FPF preferiu não arriscar e deixou de lado os árbitros locais. Contratou Mário Vianna, na época o mais importante e badalado árbitro brasileiro, dos quadros da Federação Carioca. Com certeza ele seria uma atração a mais, além da garantia de rigor disciplinar e isenção

Com o estádio lotado, Vianna autorizou o início do jogo às 21h. Um minuto depois, a torcida rubro-negra explodia de alegria. Bria cobra um lateral, Ênio manda para a área, de cabeça, e Tonho coloca no canto direito, sem defesa para Vicente. Um gol-relâmpago que todos imaginaram que seria um golpe mortal no ânimo do time alvirrubro. Para piorar as coisas, antes dos 15 minutos Vicente sofre uma distensão. E como a regra na época não permitia substituir jogadores, o zagueiro Lula, que já estava atuando improvisado na lateral esquerda, foi pro gol. Para seu lugar desceu o meia armador canhoto Alcidésio. E assim, o Náutico se enfraquecia ainda mais porque recuava seu melhor criador de jogadas, e ainda ficava com um homem a menos.

Um frio correu pelo corpo dos torcedores alvirrubros, estava desenhada a clara possibilidade de sofrer uma goleada humilhante. Mas, o destino tem seus caprichos. E aos 25 minutos, Alcidésio pelo hábito de jogar na frente avança, e da entrada da área chuta e engana Manuelzinho. Um frango de espantar, para a fama de um goleiro legendário. Mesmo assim, ninguém acreditou em reação, aquele gol não passava de um acidente. Só que seis minutos depois, aos 31, Djalma dribla os dois zagueiros do Sport e chuta forte para desempatar. O ânimo voltou e a torcida timbu começou a empurrar o time. O primeiro tempo acabou com o Náutico no ataque e o Sport perplexo.

VITÓRIA HISTÓRICA – Logo aos dois minutos e meio do segundo tempo, quando todos esperavam a reação do Sport, veio o gol que selou o destino do jogo. O ponteiro Zeca bateu Pinheirense na corrida e atirou sem defesa para marcar o terceiro gol. Delírio nos Aflitos.

Em desespero, o Sport partiu todo para o ataque, e aí valeu a sorte de Lula, que defendeu bolas de cabeça e outras bateram nele. Enfim, uma noite mágica. Mesmo sufocado, o Náutico de vez em quando ameaçava com escapadas velozes. Numa destas jogadas, aos 30 minutos, Djalma marcou o quarto gol e finalmente, Fernandinho completou a goleada aos 41 minutos. A festa do bicampeonato foi antecipada.

De fato, o Náutico, que já ganhara o campeonato de 1950, conquistou o bi vencendo novamente o Sport, desta vez por 1x0, também nos Aflitos, no dia 17 de fevereiro de 1952, gol de Fernandinho e renda recorde de Cr$ 118.000,00.

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Jornal do Commercio
Recife - 29.05.2000
Segunda-feira