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TENDÊNCIAS
Internet e participação popular

por Waldemar Borges*

Nunca as transformações tecnológicas, particularmente as da área de informação, interferiram com tanta intensidade em outras atividades humanas como nos tempos atuais. Das relações de produção às interpessoais, o mundo tem experimentado mudanças com velocidade e magnitude sem precedentes. Na atividade política, as mudanças também começam a chegar. E parece que nesse ramo, elas serão maiores do que se pode imaginar.

De saída, as ferramentas disponibilizadas pelas novas tencologias, principalmente as relacionadas com a Internet, estão ferindo de morte a prática dos que sempre buscaram obstacular o controle social sobre as gestões governamentais.

Se, até pouco tempo, governamentes descomprometidos com o princípio da transparência administrativa alegavam dificuldades técnicas e operacionais para impedir o amplo e rápido acesso aos dados da administração pública, hoje eles já não podem mais recorrer a esse tipo de argumento para evitar a democratização das informações exigidas pela cidadania.

Organização, armazenamento, disponibilização em tempo real de informações fazem parte de rotinas corriqueiras do mundo cibernético. Em outras palavras, não abrir as ‘caixas prestas’ ficou mais difícil para os que se valiam da letargia dos procedimentos burocráticos anacrônicos como pretexto para manter a população afastada dos núcleos de decisões.

Mas este é apenas um dos vetores da transformação que está chegando. A possibilidade de interação via Internet vai provocar impacto ainda maior sobre a atividade política, notadamente no que diz respeito aos mecanismos de delegação de poderes. Ao possibilitar que o cidadão interaja, de dentro da sua casa, com os núcleos de decisão do poder, a tecnologia estará abrindo caminho para a mais radical metamorfose nas tradições instantâneas de representação popular.

O alargamento dos espaços da democracia participativa e direta vai ser de tal ordem que obrigará, por exemplo, as casas legislativas a modificarem substantivamente os seus papéis. Os assuntos de maior relevância, ou mesmo os que interferem mais objetivamente no dia-a-dia da população, serão rapidamente discutidos e equacionados através da participação direta dos cidadãos, sem grandes demoras, sem maiores intermediações.

As relações entre a chamada sociedade civil e os gestores públicos ganharão um novo perfil e uma nova qualidade. A idéia da representatividade será revista e novas formas de mediação terão que ser construídas, inclusive para organizar, legitimar e dar racionalidade ao volumoso fluxo de informações que será gerado pelos diversos atores e interesses sociais.

Não se trata de imaginar um mundo onde cada cidadão vai governar isoladamente a partir do seu computador. Não vai surgir exatamente uma ‘cybercracia’, fundada no espontaneismo e exercida individualmente por cada internauta. Mas não há dúvida de que a facilidade como as informações estão sendo disponibilizadas, por um lado, vão atropelar avidamente os tradicionais modelos de representação popular. Construir novos mecanismos de participação política, garantindo o que de positivo os avanços tecnológicos podem trazer para o aprofundamento da democracia, é um dos grandes desafios que a sociedade de informação tem pela frente.

* Waldemar Borges (PPS) é vereador do Recife

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Jornal do Commercio
Recife - 24.05.2000
Quarta-feira