![]() |
Uma tentação final por JOSÉ LUIZ DELGADO* Continua hoje, e continuará por todos os séculos, a intrigar as mentes e atrair os corações o mistério daquele carpinteiro dos confins do império romano que se tornou a pessoa mais importante e influente da história. É natural, portanto, que, assim intrigados, artistas das mais diferentes artes procurem dar sua interpretação da história suprema. Foi o que fez recente minissérie da Globo sobre Jesus. Não se travava, ali, de reproduzir com absoluta fidelidade a narrativa dos Evangelhos tal qual se contém nos textos sagrados, nem uma palavra a mais. O autor e o diretor de algum modo romancearam, inventaram episódios para preencher claros ou explicar comportamentos e essa diretriz é de modo algum, reprovável, desde que as invenções sejam plausíveis. Imaginar, por exemplo que José haja morrido nas vésperas do ministério público de Jesus é liberdade literária legítima, não havendo, nos Evangelhos, nenhuma indicação sobre a ocasião da morte dele. Ou que Jesus se tenha abalado profundamente com a morte do pai adotivo, a ponto de questionar sobre como suportaria o futuro sem José: também é razoável por mais que nos choque, se nos advertimos do ministério da Encarnação, sendo Ele verdadeiro Deus mas também verdadeiro homem. Nem veio maior absurdo na suposição de uma afeição amorosa que Maria, irmã de Lázaro, teria sentido por Ele, bem entendido: sem ser correspondida e antes da vida pública, quer dizer, antes de saber quem de fato Ele era. Pouco natural seria até o inverso, que rapaz dotado de personalidade humanamente tão ajustada e tão radiosa não tivesse despertado o interesse de alguma moça das redondezas. Quanto a essas invenções só não gostei, realmente, foi da cena da infância, da ressureição de uma avezinha: episódio que consta de um dos evangelhos apócrifos e é uma rematada bobagem, Jesus não evidenciando seu domínio sobre a natureza senão como sinal do seu poder de perdoar os pecados, isto é, de sua natureza divina, e nunca para se exibir, para alardear prodígios. Outra invenção da minissérie, no entanto, deveria interpelar a todos nós: uma tentação perto do final, quando o demônio mostra a Jesus o que a cristandade faria pelos séculos afora em Seu nome, e pergunta se semelhante futuro justifica tamanho sacrifício. O quadro doloroso das traições a Cristo, das negações, das deserções, das deturpações, das rejeições, mas não das rejeições consumadas por adversários ou pelos que, muitas vezes sem culpa própria, nem chegaram a conhecer a Jesus, e sim das rejeições praticadas pelos amigos, pelos cristãos. E não somente aquelas grandes tragédias coletivas que mancham o cristianismo - guerras de religião, cruzadas, violências praticadas em nome de Cristo, perseguições, torturas, mortes. Nem somente aquelas grandes nódoas pelos quais o Papa não hesitou em pedir publicamente perdão, sem se importar com as incompreensões e com as explorações. Mas tantas outras. A mania, por exemplo, de condenar os outros, sem nos examinarmos a nós mesmos; de sempre culpar terceiros, jogar pedras no passado da Igreja, enquanto nos pretendemos santos e imaculados. Ou a de nos julgarmos os sábios e infalíveis, os donos da verdade, ao passo que a Igreja institucional, que não Pedro nem Paulo mas Jesus mesmo fundou, está sempre errada, é apenas estrutura de dominação e poder. Ou a de acusarmos de sem caridade certos documentos do magistério (o qual, nem em nome do amor, pode deixar de anunciar a verdade) como se fossem os modelos vivos de caridade não somente no relacionamento cotidiano com os outros, mas sobretudo na dedicação aos pobres, e não apenas para dissertar sobre eles, mas para efetivamente servi-los, para ajudar a eles, para consolá-los. Quantas e quantas traições, omissões, divisões, infidelidades àquele Jesus ao qual, no entanto, declaram os aderir! Da manjedoura ao alto da cruz, esta é a questão com que Jesus perturba a cada um de nós: o sacrifício d´Ele valeu a pena? Em que medida estamos correspondendo ao magno preço pelo qual fomos resgatados? * José Luiz Delgado é professor universitário. |
|