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MÚSICA BRASILEIRA
Coleção salva a memória da MPB

Pelão, Fernando Faro e Arley Pereira são curadores dignos do material da série A Música Brasileira Deste Século, Por Seus Autores e Intérpretes

por JOSÉ TELES

O descaso, sobretudo, fez com que a música brasileira dos anos 60, nesta área a década mais fecunda e inovadora do século 20, praticamente não tenha registro em vídeo. Todos os grandes festivais, programas históricos como o Jovem Guarda ou O Fino da Bossa, foram apagados para reaproveitamento dos tapes, ou então vítimas dos incêndios que periodicamente assolavam os arquivos das emissoras de TV.

Sobreviveram ao holocausto da ignorância o programa Ensaio, da extinta TV Tupi e o MPB Especial, da TV Cultura, ambos produzidos por Fernando Faro, documentos fundamentais para a cultura nacional. Com coordenação do produtor J.C Botezelli, o Pelão, e Arley Pereira, o áudio destes programas estão sendo transpostos para CD e livro, na coleção A Música Brasileira Deste Século, Por Seus Autores e Intérpretes, com patrocínio do Sesc São Paulo. O objetivo é chegar a uma centena de títulos. Os primeiros 25 (acompanhados de dois livros) foram lançados no primeiro semestre deste ano, outros 13 (mais um livro) acabam de sair do forno. São itens indispensáveis para se acompanhar (com perdão do caetanismo) a linha evolutiva da MPB, do lundu e do tango brasileiro ao samba-maracatu de Jor Ben (antes e depois do Jor).

Os 13 CDs desta segunda leva trazem do pioneiro Ismael Silva ao Quinteto Violado. Músicas antológicas, intercaladas por curiosidades, anedotas, e muitos casos, que tornam a audição dos discos, um divertido curso de MPB com vários mestres. O CD com a entrevista de Paulinho da Viola e os Quatros Crioulos (Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros), disseca o fim das escolas de samba, enquanto manisfestação realmente do povo, com uma trilha sonora formada por impecáveis sambas de quadra, hoje um gênero extinto (sambas cantados nas festas das escolas, mas não nas passarela). A glória e decadência das escolas são analisadas, ao mesmo tempo em que se recordam grandes sambistas, como Joãozinho da Pecadora (por causa do samba Vai pecadora arrependida), que acabou conhecido como Joãozinho Porém (por causa do “Ai, porém”, que ele canta em Foi um Rio que passou na minha vida, de Paulinho da Viola).

Músicas e histórias vão sucedendo-se. Ismael Silva canta e fala dos anos 20 e 30. Dos sambas que vendeu a parceria para Francisco Alves (entre eles Se você jurar, atual hit de novela global), desmistifica sua fonte de inspiração. Criava músicas de frases que ouvia por acaso. O Antonico do samba antológico nunca existiu. Surgiu de uma uma conversa de terceiros.

O melhor da coleção são os CDs com artistas da velha guarda, famosos numa época em que a mídia ainda engatinhava, as entrevistas com eles são raras. Sendo particularmente delicioso o disco com Cascatinha e Inhana, que abrem o papo com Índia, um clássico da MPB, com efeito uma guarânia paraguaia, com versão de J. Fortuna (também autor da versão de outra canção paraguaia, Meu primeiro amor). Uma curiosidade: Cascatinha, era nome de uma cerveja, antes de Inhana ele participou da dupla Chopes & Cascatinha.

De que outra forma, se preservar a voz e a música de Pedro Caetano, um compositor de nome tão pouco conhecido hoje em dia, cujas composições no entanto fazem parte do insconciente popular. “É com esse que eu vou/ Sambar até cair no chão”, versos iniciais de um samba composto em 48, num vagaroso trem da Rede Mineira de Viação (iniciais traduzida pela patuléia como “Ruim Mas Vai”). Dele também é Mangueira, onde estão os tamborins?, Com Pandeiro ou sem pandeiro. E o que dizer de Newton Teixeira? Nascido em 1916, ele conviveu com praticamente todos os grandes compositores e cantores que sedimentaram o que se convenciona chamar hoje de MPB. E mais, é autor de inúmeros clássicos, tais como Mal-me-quer ( “Eu perguntei ao mal-me-quer, se o meu bem ainda me quer”), e Deusa da minha rua( “A deusada minha rua/Tem os olhos onde a lua/ Costuma se embriagar”). Por fim, Hervê Cordovil, parceiro de Noel Rosa, autor das brejeira Pé de manacá ( “Lá em cima daquele morro/ Tem um pé de manacá/ Nós vamos casar, e vamos pra lá/ Cê quer?”) e Cabeça inchada ( “Estou doente morena, doente estou morena/ Cabeça inchada morena, dói, dói, dói”), pois Cordovil, quem diria, é autor do primeiro rock com sotaque brasileiro, Rua Augusta (“Desci a Rua Augusta 120 por hora”), composto para ser cantada pelo filho dele, Ronnie Cord, em 1964.

Os CDs com artistas contemporâneos, a exemplo do Quinteto Violado (com sua atual formação), Dominguinhos, Roberto Menescal, MPB-4 são mais interessantes musicalmente, já que a maioria tem toda sua trajetória mapeada em entrevistas diversas, discos em catálogo, biografias recentes, e ene programas televisivos. Todos, sem exceção, no entanto, independente disto, são capítulos importantes na história de uma das músicas populares mais férteis do mundo ocidental.

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Jornal do Commercio
Recife - 31.12.2000
Domingo