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Já provou o peru de fim de ano, madame? Pra mim, parafraseando T.S Elliot, dezembro é o mais cruel dos meses. Já sei, a senhora tá dizendo, pro seus botões, que de tanto falar em malas, tornei-me uma. Possa ser, possa ser. Talvez não aprecie o dezembro pelos excessos, que tudo de mais, até bolacha maria, faz mal. Dezembro é época de excesso de comida, de bebida, de presentes, de cota pra isto e pra aquilo, e de parentes. Não sei se vocês, diletíssimos 69 leitores, deram fé, mas parentes hoje em dia só se reúnem em época de festa. Aquela coisa meio sem graça. O sujeito encontra a prima que não via há um tempão, e cadê assunto? De repente, um e outra, lembram, constrangidos, que já se paqueraram. Ao cabo de uma perscrutada nas erosões provocadas pelo tempo, agradecem Ao Lá de Cima a coisa não ter ido além da paquera. Foi não foi, rola uma gafezinha. Feito a que cometeu um amigo nosso. Dá-se que numa destas festinhas natalinas de parentes, ele esbarra numa prima segunda que não encontrava há séculos. A parenta pergunta pelos meninos (o quebra-gelo mais usado pela parentada). Juninho terminou engenharia. E a parenta: Aquele menino, Juninho, engenheiro? mas já?!. E meu amigo: Já. Tá pensando que o tempo só passou pra tu, foi?. Por sinal, nesta mesma fatídica noite, esse mesmo amigo cometeu outra gafe, com a mesma prima segunda, na hora da foto. Em festa de natal, lá pras tantas, depois de muito vinho garrafa azul, cerveja morna, uísque johnni, panetone, e peru duro (sem quaisquer conotações que não as gastronômicas, veja lá, minha senhora!). Alguém, com a caveira cheia dos johnni, manda juntar a reca inteira pra foto da família reunida. Meu amigo, por azar (dela), ficou do lado da prima segunda, a tal, da gafe, Ela meio sem jeito, ajeita o cabelo tingido de ferrugem, e comenta: Sabe, faz mais de 15 anos que eu não tiro retrato. E meu amigo: No que faz muito bem. Com ares de estar muito sentida, a prima segunda, logo depois de mais este ataque de sinceridade, deu uma rabissaca, e partiu, meio chorosa, pra copa, sem nem sair na foto. Ainda xingou o coitado de grosso, e pediu que ele, por obséquio, a esquecesse. Desnecessário, o pedido. Meu amigo nem lembrava mais o nome dela. Como tenho digestão assim mais complicada do que eu, todo natal e rompimento de ano, passo mal. Onde se chega é aquela tuia de comida, como se o pessoal estivesse prestes a ir prum abrigo anti-nuclear, e não celebrar o nascimento do Filho do Homem. O galo cantou pra Pedro mentir, e o peru pagou o pato. Onde se vai, tome peru. O bicho é uma ave meio ignorante de grande, o pessoal então tá sempre pedindo que a gente coma mais um pouquinho. Não apenas do peru, mas da farofa, do salpicão, e do arroz com alguma fruta cristalizada. Sem esquecer, naturalmente, a obrigação de provar o filé com ervas finas (inventaram agora esta de ervas finas). Tracei um filé com uma tal de erva fina na sexta e até agora sinto o gosto da infeliz na ponta da língua. Tô na dúvida, se era erva fina ou maldita. É por isto que dou o maior ponto a Papai Noel, que passa o dezembro inteiro repetindo, O horror, o horror! (que o pessoal confunde com ho, ho, ho, ho, como se alguém normal risse assim). De qualquer forma, entre mortos e feridos escapamos todos. E um lembrete pra senhora, meio metidinha a boyzinha. A partir de amanhã seremos todos do século passado. e-mail: teles@jc.com.br |
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