por LENIVALDO ARAGAO
Editor de Esportes
Tive uma convivência de muitos anos com Sílvio Oliveira, no Jornal do Commercio, Diário da Noite – irreverente irmão do JC, e em outros jornais, revistas e sucursais. Constituíamos, por assim dizer, uma dobradinha que dava certo. Havia um razoável entendimento na nossa relação de trabalho, a ponto de em momentos diferentes eu o ter chefiado e ter sido por ele comandado. Isso, sem o menor constrangimento.
Aprendemos a nos respeitar, mas também a discordar, pois não havia dono da verdade. Sempre raciocinávamos em termo jornalístico-profissionais, à procura do melhor. Eu sabia de cor e salteado o que Sílvio – Picapau, na intimidade da redação –, pretendia que se abordasse em determinada matéria, bem como ele tinha a idéia exata de meu pensamento a respeito de certos assuntos.
Meticuloso, investigativo, perfeccionista, levava-me muitas vezes a chamar sua atenção para o horário que tínhamos a cumprir, sob pena de atrasarmos a circulação do jornal. É que Sílvio parecia estar em outra esfera quando se entregava à tarefa de redigir uma matéria ou burilar o texto de um repórter.
Sílvio Oliveira, que no seu alvorecer para o jornalismo classificava-se como um repórter nato, e que engavetou o diploma de advogado para dedicar-se à profissão para a qual achava-se vocacionado, respirava jornalismo as 24 horas do dia. Mal saíamos da redação e procurávamos um bar para tomar alguma bebida que nos levasse a relaxar, depois da tensão de mais um dia agitado, Sílvio sequer dava-me tempo para respirar. E tome jornal.
Na redação, era um verdadeiro bólido, sempre rápido no dizer e no fazer. Um amigo comum, Pedro de Paula Barreto, Pedrão, tratava por “seu Ligeirinho”, quando procurava-o pelo telefone.
A preocupação em fazer um bom jornal, tornava-o excessivamente nervoso, transformando-o numa espécie de terror para os mais novos. Exigente, interrompia o repórter no meio da matéria, de maneira súbita, dando-lhe as instruções para a feitura de um novo texto. Na época da máquina de escrever, mais de uma vez, colocando-se atrás do jovem repórter, puxava repentinamente o papel, jogando-o na cesta do lixo. E o pobrezinho, superado o susto, era obrigado a começar tudo de novo. Uma questão de temperamento, de modo de agir. Por causa desse seu emocionalismo, vez por outra metia-se numa encrenca na redação, mas logo estava numa boa, rindo ao se lembrar da confusão em que se metera.
Irreverente, desligado ao extremo, vez por outra dava uns foras, que divertiam os companheiros, levando-o e rir de si mesmo. Como certa vez em que liguei o telefone para tratarmos de alguns assuntos do jornal. A certa altura perguntou-me onde me encontrava. Respondi que estava em casa. “Eu também estou em casa.” “Eu sei, fui eu que liguei.”
Episódios assim eram passados à turma, que tirava o couro de Sílvio. O velho Picapau levava na esportiva, esperando a hora de ir à forra. E às vezes, ia.