Todo ano é a mesma coisa: chega o final do ano e não há como escapar de uma boa superstição para garantir sorte e fartura para os próximos 12 meses
por FABIANA MORAES
Carregar talismã, patuá. Fazer figa. Comer romã ou uva. Pedir benção a Iemanjá. Consultar os búzios. Para a maioria dos brasileiros, não há como não entrar no Ano Novo sem, ao menos, uma boa superstição. Algumas são até poéticas, como aquela que pede para pular sete ondas durante a virada. Outras tendem para o esquisito: tem gente que, na noite de Réveillon, pendura uma meia (tem que ser a do pé esquerdo, e sob o luar) na janela de casa, pedindo felicidade.
A engenheira civil Fernanda dos Santos, 33 anos, não se intimida de virar o ano de forma pouco ortodoxa. “Como 12 uvas verdes e dou alguns pulinhos durante passagem de ano”, diz. Tudo seria bastante normal se não fosse um detalhe: Fernanda coloca as 12 uvas de uma só vez na boca. Depois, começa a pular com o pé direito. Um espetáculo meio cômico, mas, segundo ela, purificador. “Ainda assim, não sou supersticiosa. Durante o ano todo, não faço nenhuma simpatia. Também não peço nada específico, só desejo sorte”, conta a engenheira, que, confessa, sempre perde as sementinhas das uvas que deveria guardar para manter sua sorte. “Não tem jeito. Coloco na carteira e perco logo depois”.
A socióloga Esmeraldina Lyra, 45, também não é uma grande credora de amuletos ou fórmulas mágicas. Tampouco segue uma religião específica, que a oriente algum comportamento durante o Ano Novo. Mas, baseada apenas em sua devoção à Nossa Senhora da Conceição, joga flores ao mar na noite do dia 31, em homenagem a Iemanjá, que simboliza a santa católica no sincretismo entre a religião cristã e o Candomblé. Logo após a meia-noite, Esmeraldina espera que sete ondas passem para então jogar as flores no mar. “Mentalizo paz, saúde, amizade. Me sinto bem fazendo isso. Também é uma forma de preservar tradições antigas”, continua.
A psicanalista Telma Barros – que não realiza nenhum pequeno ritual para começar cada ano novo – diz que as superstições e ritos são uma maneira de as pessoas lidarem com suas frustrações. “O final do ano é muito simbólico. As pessoas olham para trás e percebem o que fizeram e o que deixaram de fazer. É um marco de passagem forte”, diz. A procura pelos simbolismos também reflete uma tendência meramente humana: a de se agrupar. Quando parte para experimentar romãs para chamar mais sorte, as pessoas também estão procurando se juntar às outras que comungam dessa prática. “Quando uma pessoa, mesmo sozinha, vai à praia jogar flores para Iemanjá, ela termina entrando em contato com outras que estão fazendo a mesma coisa. É uma forma de estar sempre em sociedade, de não ficar sozinho”, acredita a psicanalista.
MIRRA E LARANJA PELA CASA – A professora universitária Olímpia Nazaré de Souza, 53, resolveu trazer para sua casa um antigo costume familiar: defumar toda a casa na passagem do ano. “Minha mãe comprava mirra e acendia na noite do dia 31”, relembra Olímpia. Agora, a professora compra, além da mirra, erva doce e laranja para perfumar o lar, além de só vestir branco durante a passagem. “Para falar a verdade, não ligo para as superstições. Fazer tudo isso apenas me dá paz, tranqüilidade. É tudo muito cultural, ligado à nossa raiz”.
Os rituais realizados por Olímpia também são, de acordo com a psicanalista Telma Barros, meios para renovar as forças. “É um pensamento mágico, onipotente. Todos os nossos sonhos estão naquele amuleto”, diz. A especialista lembra que, no entanto, que aqueles que recorrem sempre aos rituais para garantir sorte precisam separar a linha entre o mágico e o real. “Achar que vai ter um ano novo ruim porque não levou flores ao mar, por exemplo, é exagero. Não há como depositar todos os objetivos da vida numa superstição”, aconselha.