Segundo Jean Carper, a dieta ideal para acender a mente é próxima àquela que moldou o cérebro da espécie: a dieta dos homens primitivos, caçadores e coletores, que sobreviveram graças a um cérebro superativado contra os perigos e que foram capazes de pensar revoluções geniais como a invenção do fogo e da roda. Ela privilegia como fonte desta dieta as pesquisas de Boyd Eaton, evolucionista nutricional da Emory University, de Atlanta, e co-autor do livro The paleolithic prescription.
“As pesquisas de evolucionismo nutricional mostram que os homens primitivos ingeriam cinco vezes mais vitaminas e minerais do que ingerimos hoje. Eles não tomavam leite após o desmame nem comiam laticínios. Com isto, evitavam os riscos dos derivados do leite com altas doses de gordura saturada. Alimentavam-se de frutas, vegetais, nozes e legumes, o que lhes dava 100 gramas de fibras por dia, dez vezes o consumo médio atual. Outro trunfo na dieta de nossos ancestrais: mais gorduras do tipo ômega-3, originárias dos peixes, e redução drástica das gorduras do tipo ômega-6, que, na dieta moderna, estão em produtos de padaria, óleos de milho, margarinas e carnes vermelhas.
A teoria de Jean Carper, de que é possível otimizar a memória e a inteligência a partir da dieta equilibrada, é partilhada com muitos médicos e nutricionistas atuais. Pesquisadores espanhóis observaram que crianças autistas que fazem dieta com restrição de glúten (presente no trigo, na cevada, na aveia e no centeio) e caseína (encontrada no leite e nos seus derivados) têm significativa melhora. Eles elevam os níveis de substâncias conhecidas como peptídeos. Estudos indicam que o autismo está relacionado à grande quantidade de peptídeos no sistema nervoso central. “Essa dieta não acaba com a doença, mas essas crianças aprendem mais”, diz o médico espanhol David Mariscal.
A médica Carla Frohmüller diz que o abuso do álcool pode causar sérios danos à memória. Bebidas alcoólicas reduzem a tiamina, vitamina essencial para a mente, encontrada em grãos integrais, frutos do mar e feijão. Segundo Carla, quem consome peixe com freqüência tem 40% menos chances de ter falhas de memória. Ela recomenda dieta com folatos (ou ácido fólico), presentes na laranja, no feijão, no brócolis e no espinafre.
Um estudo de Harvard mostrou que mulheres que consumiam mais folatos tinham menor risco de arteriosclerose. O ácido fólico reduz o nível de homocisteína, um aminoácido associado ao acúmulo de gordura nas artérias.
Há várias formas de preparar um cardápio para otimizar a memória e a inteligência. Segundo a nutricionista e fisiologista Cintia Biehl da Motta, UFRJ, está comprovado que quem faz dieta equilibrada, rica em frutas, cereais, legumes e carnes magras têm mais qualidade de vida. “Anemias por falta de ferro, ácido fólico ou vitamina B12 afetam a capacidade de raciocínio”, diz Cintia.
Carla Frohmüller alerta que a falta de vitamina B12 interfere na memória. Esse nutriente está em peixes, miúdos, ovos, soja, grãos e cereais. “Quem faz uma dieta exclusivamente vegetariana correm maior risco de ter deficiência de vitamina B12”, alerta.
Já a médica Jane Corona afirma que ainda não nos acostumamos a associar a falta de concentração e de memória ao cardápio. Esses problemas podem ser prevenidos estimulando o consumo de proteínas e de antioxidantes, especialmente as vitaminas B, C e E. Elas elevam o nível dos neurotransmissores.
“O ácido fólico e a vitamina B12 são essenciais para a síntese de um derivado do aminoácido metionina, que é ótimo para a memória. O cérebro é rico em gorduras, que se oxidam facilmente. Por isso, precisa de uma boa reserva de antioxidantes”, diz Jane.
Para a nutricionista Cintia Biehl, não se deve esquecer da água para manter o cérebro. “Beber muita água é essencial porque 95% do cérebro são líquidos”. Outra recomendação é não ficar mais de três horas em jejum. Isso pode causar hipoglicemia, destruindo neurônios. “A dieta é uma forma de repor os neurotransmissores (mensageiros químicos entre neurônios). Por exemplo, a acetilcolina é o neurotransmissor da memória e do pensamento. Seu nutriente é a fosfadilcolina, encontrada na lecitina de soja e nos sucos com muita clorofila (de couve, brócolis etc). Já o neurotransmissor que traz a sensação de bem-estar, a serotonina, é sintetizado a partir do aminoácido triptofano, encontrado em carnes magras e leguminosas”, ensina Cintia.
Nem todos os nutricionistas apostam que é possível receitar uma dieta para melhorar a memória e a inteligência. “Não há dieta específica com esse objetivo. Mas se um indivíduo estiver subnutrido pode ocorrer diminuição dos seus reflexos, da sua capacidade de aprender e maior perda muscular. Se a pessoa está bem alimentada e recebe os estímulos adequados, ela poderá desenvolver seu potencial”, diz a nutricionista Vilma Blondet.