LG_jc.gif (3670 bytes)

RETROSPECTIVA 2000
A incrível novela eleitoral americana

O ano 2000 não deixou avanços significativos na política internacional. Não surgiram grandes conflitos, mas também não foram resolvidas questões antigas que foram bastante discutidas, como a crise em Israel. A eleição norte-americana também entrou para a história

A mente mais criativa e conspiratória de Hollywood não poderia ter imaginado o enredo da grande novela política que os Estados Unidos viveram no ano 2000. No auge de seu poder político, econômico e militar, a nação que se autodefine pelo conceito da própria excepcionalidade e se comporta freqüentemente, em suas relações com o resto do mundo, como se detivesse o monopólio das virtudes, produziu um espetáculo excepcionalmente grotesco e embaraçoso para uma democracia madura ao escolher seu primeiro presidente do século 21.

forçados a escolher entre as figuras insossas de herdeiros de duas dinastias políticas, o republicano George Bush e o atual vice-presidente democrata Al Gore, que mais os aborrecia do que empolgava, os americanos dividiram-se como nunca antes nas urnas. O resultado é que acabaram submetendo o sistema político do país ao teste mais severo na era do sufrágio universal e revelaram a si mesmos e ao mundo deficiências e vulnerabilidades insuspeitadas em sua democracia: máquinas de votar obsoletas, cédulas mal desenhadas, eleitores despreparados, parcialidade de funcionários eleitorais, um número desproporcional de votos nulos nas áreas de maioria negra e juízes que tomam decisões transcendentais para vida do país movidos por suas preferências políticas.

Depois de 36 dias de guerra pós-eleitoral, o país sentiu-se aliviado pela resolução do impasse e consolou-se no fato de que a confusão da contagem e recontagem de votos na Flórida não gerou episódios de violência que circunstâncias semelhantes alimentariam em outras latitudes. Mas, no final, poucos insistiam na tese segundo a qual o sistema funcionou ou de que a crise foi uma lição de civismo.

A impressão mais forte que ficou foi a de que o sistema funcionou mal, pois produziu um presidente fraco, com um óbvio problema de legitimidade, escolhido no final em função não dos votos depositados nas urnas, mas de um veredicto politicamente motivado de cinco magistrados conservadores da Suprema Corte.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 31.12.2000
Domingo