LG_jc.gif (3670 bytes)

NOVOS PREFEITOS IV
Confrontos internos se tornaram a marca do PT

por SÉRGIO MONTENEGRO FILHO

Desde a sua fundação, o PT abriga diversas correntes ideológicas, que nem sempre defendem as mesmas idéias. São as chamadas ‘tendências’. Em Pernambuco, o partido se divide em nove grupos distintos, com teses e ideologias diferenciadas. Para quem não conhece bem, o PT parece um partido de linha única, que vive brigando. É nas plenárias internas da legenda que as diferenças são claramente explicitadas. O confronto entre tendências é considerado salutar pelos petistas, mas algumas vezes termina por retardar ou mesmo impedir decisões importantes.

Um episódio mais recente que registrou o conflito interno foi a indicação do médico petista Jarbas Barbosa para a Secretaria de Saúde do terceiro Governo Arraes, em 1995. Ligado à tendência Unidade a Luta (AUL) – uma das mais moderadas do PT – a escolha de Barbosa dividiu o partido, que apesar de ter subido no palanque de Arraes, não se entendia sobre a participação ou não na administração. Tendências mais à esquerda não concordavam com a indicação. O secretário terminou assumindo, mas enfrentou uma dura oposição dentro do seu próprio partido.

Voltando um pouco no tempo, a briga das tendências impediu que o PT aceitasse uma proposta de aliança feita pelo então candidato a prefeito do Recife pelo PSB, Jarbas Vasconcelos. Foi lançada a candidatura própria de Bruno Maranhão. Alguns petistas chegaram a deixar o partido para ficar ao lado de Jarbas, que venceu a eleição. Entre eles, o próprio João Roberto Peixe, Jarbas Barbosa, Sydia Maranhão, Marcelo Mário de Melo e Marcelo Santa Cruz.

Antes disso, o partido havia vivido, logo no primeiro ano, uma crise que culminou com a saída do recém-filiado Arthur Lima Cavalcanti. Ex-deputado, ele desejava conquistar um novo mandato, mas seus ‘métodos’ foram criticados por setores puristas do PT, que não admitiam alianças e dobradinhas com candidatos de outros partidos, ainda que fossem de esquerda. “Na realidade, não havia coeficiente eleitoral para eleger um deputado federal, e Arthur Lima estava de saída para o PMDB. Mas as brigas agilizaram o processo”, conta João Roberto Peixe, que na época, como presidente do partido, teve que administrar o confronto. O purismo exacerbado, ao longo dos anos, foi cedendo espaço à necessidade de sobrevivência política e, por conseguinte, às formas tradicionais de fazer alianças e dobradinhas.

Em 1986, porém, as tendências voltariam a não se entender sobre um possível apoio ao então candidato do PMDB ao Governo do Estado, Miguel Arraes. Como resultado, pela primeira vez desde a sua fundação no Estado, o PT ficou neutro em uma disputa. O partido, como um todo, só viria a convergir em 88, em torno da candidatura de Humberto Costa à Prefeitura do Recife. Em 90, houve quem tentasse novamente uma aliança com Jarbas na eleição para o Governo do Estado. Mas as divergências internas forçaram o lançamento da candidatura própria de Paulo Rubem Santiago. Em 92, Humberto Costa voltaria a unir as correntes do partido em torno do seu nome para disputar novamente a Prefeitura do Recife.

A tão sonhada aliança só aconteceria em 1994. Depois de muitos debates, o PT fechou um acordo com Arraes – que disputava o Governo pela terceira vez, com amplo favoritismo. Inicialmente, o nome de João Paulo foi colocado pelo partido como opção para a vice, mas terminou descartado. Os petistas ficaram fora da chapa majoritária e, como prêmio, receberam a poderosa Secretaria de Saúde, pivô de inúmeras divergências internas nos meses seguintes.

Em 96, João Paulo fez sua estréia majoritária no Recife – antes, em 92, havia disputado a Prefeitura de Jaboatão – representando o partido em uma aliança com o PDT e PCB. Dois anos depois, em 98, Humberto Costa novamente assumia o papel de unificar as tendências petistas. Negociou uma aliança com o PSB de Miguel Arraes, candidato à reeleição para governador, e ficou com a vaga de candidato ao Senado. PT e PSB voltaram a se distanciar no primeiro turno de 2000, quando Arraes apoiou a candidatura de Carlos Wilson (PPS). Mas no segundo turno, sem qualquer resistência significativa por parte das tendências, os petistas aceitaram a adesão do PSB e do PPS ao palanque que levaria João Paulo à vitória.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 31.12.2000
Domingo