O prefeito eleito João Paulo (PT) e seu vice, Luciano Siqueira (PCdoB), têm mais em comum que apenas o fato de terem vencido a eleição. Ambos foram ‘fichados’ e investigados pela extinta Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). Guardados no Arquivo Público Estadual, os prontuários dos dois revelam detalhes das suas atividades “subversivas”.
Menor que o de Luciano Siqueira, o prontuário de João Paulo data de 1983, com registros de sua atuação no Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco e na fundação e presidência da CUT no Estado. Também indica manifestações e atos públicos nos quais ele tomou parte e registra sua participação em reuniões na Ação Católica Operária, na CUT e no Centro Brasileiro de Desenvolvimento – Cebrade. O Dops apresenta alguns registros de prisão de João Paulo, com destaque para a greve geral organizada em 1983, quando ele foi “detido para averiguações”, juntamente com um grupo de “subversivos” como o médico petista Jarbas Barbosa, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Marcos Pereira da Silva, e Suzane Maranhão, esposa do petista Bruno Maranhão, entre outros.
Presidente do PCdoB, Luciano Siqueira tem um prontuário mais ‘recheado’, com data de 1975. Entre outros registros, sua prisão na Penitenciária de Itamaracá (inclusive com a lista de visitas que recebia), sob a acusação de crime contra a Segurança Nacional. O prontuário traz, inclusive, os ‘vulgos’ de Luciano, conhecido como ‘Vicente’ e ‘Miguel’, e de sua esposa Josefa, chamada de ‘Anastácia’ e ‘Olga’.
Há, ainda, cópias da portaria do MEC que o expulsou da Faculdade de Medicina, por “comportamento subversivo”, e recortes de jornais de 26/11/75 registrando a decisão da Justiça Militar de absolver a ele e à sua esposa da acusação de liderar o segmento estudantil da Ação Popular, “organização subversiva que desenvolve atividades prejudiciais à segurança nacional”.
A vida de Luciano Siqueira foi acompanhada, no mínimo, por mais de dez anos pelo Dops, que incluiu no prontuário recortes de jornais de 1986, registrando sua atuação como deputado estadual. “Eu não acredito que a bisbilhotagem tenha acabado. Nós do PCdoB, temos certeza de que os telefones estão grampeados e que nos espionam”, afirma Siqueira.
“Desde 73, tinha agentes do Dops infiltrados nas nossas reuniões. Mas os serviços de informações continuam ativos. Basta ver o caso da Abin. As Forças Armadas nunca deixaram de investigar as esquerdas”, reforça João Paulo, que diz ter sido preso 13 vezes. Mesmo número sob o qual foi eleito prefeito do Recife.