![]() |
ENTREVISTA/Jarbas Vasconcelos Jarbas se arma contra a onda do PT
JORNAL DO COMMERCIO Até que ponto a derrota eleitoral no Recife alterou os seus planos no Governo? JARBAS VASCONCELOS Não alterou em nada. A gente quando entra numa eleição trabalha com duas hipóteses: ganhar ou perder. Evidentemente, na minha vida, independente de período eleitoral, eu entro para ganhar. Mas eu não posso me frustrar por um resultado eleitoral. Acho que a gente ganhou. Ganhou o sinal da população. A população sinalizou para uma mudança. Essa sinalização poderia ser daqui a dois anos. Eu tenho uma pesquisa, que eu não posso mostrar, em que o sentimento de mudança permanece com o meu Governo. A população do Recife entendeu que queria mudar. Então, o que é que eu como político tenho que ver: tem uma onda preparada para o dia X de outubro de 2002. Eu quero saber que tamanho é essa onda, se eu sou capaz de me preparar para essa onda. Ela é contínua, eterna? O tempo é que vai dizer. A administração do PT é que vai dizer. Essa onda veio e a população foi o conjunto disso. Há uma insatisfação generalizada e o PT canalizou essa onda. Eu quero saber se essa insatisfação vai permanecer, em que nível vai permanecer. JC Como é que fica a Aliança sem estar no comando de prefeituras como Olinda, Recife e outros municípios da Região Metropolitana? Há um certo enfraquecimento... Jarbas Acho que o resultado dessa eleição não se repete. Há uma sinalização da população para mudança... JC E isso não interfere na Aliança? Jarbas Pode interferir. Mas eu não tenho essa dimensão exata do que vai acontecer daqui a dois anos. Eu sei o que tem, uma onda aí, que tem data marcada. Agora, de que tamanho ela se dará, em que condições de enfrentamento, aí é o tempo que vai dizer. Como é que eu posso analisar o Governo de João Paulo? JC O senhor vai para a posse de João Paulo? Jarbas Não. Não vou para posse nenhuma. Eu não fui a posse nenhuma. Eu era prefeito e não fui à posse de Arraes. Fui à posse de Magalhães porque foi meu sucessor. JC O que o senhor acha da decisão de Roberto Magalhães de não repassar o cargo para João Paulo? Jarbas Eu respeito. Acho que a gente teve um quadro muito acirrado, uma disputa radicalizada. Respeito a posição dele, sobretudo quando ele coloca a questão da família. JC Esses dois primeiros anos de Governo João Paulo vão ser interessantes para a gente analisar como vai estar o PT em 2002. Gostaríamos que o senhor avaliasse os dois anos que passaram, do seu Governo: onde ficaram os buracos, o que era para ser feito e não deu para fazer; e os dois anos que faltam, já que o senhor sabe que terá um papel importante, como João Paulo, nas eleições de 2002. Jarbas A eleição indicou nosso adversário. As urnas mostraram que o adversário da Aliança chama-se PT. Isso estava indefinido, não havia uma herança de Arraes. Arraes está saindo de um processo sem deixar herança, deixando o grupo órfão, sem deixar sucessor. Estou há dois anos ajustando o Estado. Agora, se o governador tivesse se preocupado apenas de tomar conta dos caixas, diminuir despesas, aumentar a arrecadação, mas não cuidasse do Estado... Nós cuidamos do Estado. Um exemplo está aí, é o resultado do Governo nos Municípios. Agora chegou a hora de colher os frutos. Eu vou enfrentar o chã e João Paulo vai subir um bocado de morro. 2001 vai ser um ano muito operoso para a gente. JC Esse rendimento também é político. São com essas ações que a Aliança vai chegar a 2002? Jarbas Eu não tenho dúvida que a avaliação do nosso Governo passa por aí. E não é em 2002 não. Me dê seis meses. Lá para junho de 2001. E faça uma avaliação sincera, científica. JC Qual o critério que o senhor utilizará para fazer as mudanças em seu Governo. Ter uma equipe mais técnica? Enfim, fora os secretários também estarem nas ruas, o que o senhor espera deles? Jarbas Eu resolvi já há algum tempo não fazer mais reuniões com os secretários, porque eram reuniões inócuas. O primeiro escalão, de qualquer forma, é grande. Eu faço reuniões setorizadas. Então, tem metas. Evidente que tem secretários que não acompanham essas metas. Alguns por moleza, outros porque não sabem lidar com números... O governador ficou muito preso no gabinete por conta do ajuste, voltado para coisa puramente administrativa. Mas estava vigiando, cobrando os projetos. Bom, agora eu estou na rua há um mês. Já bati o Estado todo. E aí os secretários vão ter que acompanhar isso. Porque quem não acompanhar vai ficar no meio da rua. JC Nessas suas andanças, a impressão que passa é que o senhor está recompondo, de alguma forma, o discurso que o eleitor estava acostumado a ouvir. A impressão da campanha é que aquele discurso assustou muita gente. Quando colocava a questão dos sem-terra, da baderna... Que avaliação o senhor faz daquele tom de discurso? Em 2002 a linha será a mesma? Jarbas A população não vai votar em cima de um discurso de esquerda e direita não. Isso é um tom dado muito pela intelectualidade, que defende isso, que luta por isso, e termina, às vezes, contaminando setores da sociedade. A população vai votar na questão administrativa, da postura da pessoa. Há uma onda perigosa aí, que já levou, inclusive, Fernando de La Rúa a ser eleito presidente da Argentina. E ele poderia chegar sem fazer as promessas que fez, porque o desgaste de Menem já era grande. E imagino que se alguém chegar daqui a dois anos na campanha para presidente, Lula com certeza não fará um discurso desse, porque pode contaminar. Muito pior do que você falar em sem-terra, baderna, foi aquela história do ex-governador do Distrito Federal (Cristóvam Buarque), que arrepiou aí as pessoas de esquerda. Aquilo, inclusive, passou por mim. Me mostraram numa madrugada para eu ver... JC A Aliança não estava preparada para o segundo turno... Jarbas Imaginava-se ganhar no primeiro turno e não se ganhou. O candidato foi mais ou menos escolhido. A estratégia da campanha eliminou Carlos Wilson. No momento em que eliminou Carlos Wilson, botou João Paulo como o preferido para enfrentar no segundo turno. Então, a campanha de Roberto Magalhães escolheu o adversário. Formalizado o segundo turno, o que é que cabia a gente? Fazer um apanhado o mais rápido possível do chamado jeito petista de governar. Levanta no Rio Grande do Sul, Belém do Pará e Distrito Federal. Vem um mundo de informações e dentre elas está lá: problemas com o governador do Distrito Federal, que eu particularmente gosto muitos dele e a coisa parece também que é recíproca, pelo menos era. O que é que Guia Eleitoral fez? Qual é o discurso do PT? O discurso do PT é que eles são éticos e nós somos aéticos. Só quem tem coraçãozinho são eles. Eles só têm compromisso com o social. Eu e Fernando Henrique temos compromissos com o ajuste. Pois João Paulo vai ter que compatibilizar, vai ter que fazer o ajuste e depois avançar no social. Então havia um compromisso de Cristóvam, que foi numa comunidades e disse que ele sendo governador não tiraria o pessoal do acampamento. E depois, teve que cumprir uma ordem judicial e a polícia fez aquele espetáculo que vocês viram. Depois, um governador que teve suas contas rejeitadas e foi punido. Isso só pode acontecer comigo, com Roberto Magalhães, com José Maranhão, Roseana Sarney? Mas não pode acontecer com o PT? Então, quando aquilo foi para o Guia foi para mostrar essas coisas acontecem. JC Mas o senhor não acha que em um determinado momento essa estratégia não extrapolou? Jarbas É possível. Agora, o que era ruim para o Guia era colocar alguma mentira. Se a gente for pego numa mentira, complica. Por exemplo, o prefeito de Belém (Edmilson Rodrigues) entregou a chave da cidade ao MST? Entregou. Eu, se fosse candidato a prefeito do Recife, perguntaria à população: 'você quer que eu entregue a chave ao MST?' Aquilo era verdadeiro? Era. Então mostra, leva para o Guia. JC Passada a campanha, a reação do eleitor e estranheza de como ele encarou aquele discurso, que não parecia seu, não altera em nada sua postura? Jarbas Não, eu não senti isso. Nem durante a campanha nem agora. Até porque eu não me escondo nas minhas andanças. Ao contrário, eu subi o Morro da Conceição no dia 8 de dezembro e disse, para todos os meus amigos, que foi a subida mais festiva que já fiz. Eu não vi nenhuma contestação. Eu vi casas com bandeiras do PT e as pessoas saíam para me abraçar. JC Uma vez que está delimitado seu adversário para 2002, que é o PT, esse discurso pode voltar? Jarbas Não, eu acho que na campanha de 2002 o quadro será outro. Até porque a eleição deste ano foi de improviso. Em política tudo que é de improviso é complicado. João Paulo foi para uma eleição improvisado. Ele saiu candidato primeiro para disputar uma eleição de deputado federal. O próprio Fernando Ferro disse isso. E aí, terminou dando certo. E nós fomos na improvisação para o segundo turno, sem experiência, porque nunca fomos para o segundo turno. Sem esperar, achávamos que ganhávamos no primeiro turno. Na reta final não. Eu estava muito desconfiado do segundo turno, e depois do episódio de Boa Viagem (quando Roberto Magalhães se atritou com militantes do PT e do PPS e soltou uma banana)... A coisa foi muito improvisada. E mais: você tem agora definido dois anos antes quem é o seu adversário. Eu sei que o meu não vai ser doutor Arraes, o PSDB, não vai ser doutor fulano, doutor sicrano. Meu adversário é o PT. As urnas disseram que nosso adversário é o PT. É feito a nossa bancada na Câmara: querendo dar carne a leão, elegendo um presidente do PT. Não é isso? Então o adversário já se sabe. A gente vai trabalhar. Não sei se eles vão ratificar o discurso deles. A gente tem que construir um novo discurso. Nós perdemos a eleição e vamos tirar lições. JC Como o senhor está fazendo essa briga na Câmara? Jarbas Eu fui prefeito duas vezes e fiz maioria. A primeira vez faltava muito pouco para completar, um ou dois vereadores só, que depois chegaram. É o contrário de, agora, você ter 30 contra 11. Então, o que é que esses 30 devem fazer? Primeiro deixar claro para população que não vão criar obstáculo de forma tal para inviabilizar o Governo do PT. A população não suporta isso. Agora, ela foi remetida para a oposição. Essa maioria de 30 vereadores, a população já disse: 'vocês são oposição'. Quem é a novidade aí, que é a mudança, são esses 11. JC Como é que está se dando a discussão na Aliança sobre sucessão de 2002? O senhor é candidato à reeleição Jarbas Eu achava e dizia que ia ter muita corrução e que a coisa da reeleição ia ficar impraticável. Mas não ocorreu isso. Acho que a Lei de Responsabilidade Fiscal e a imprensa freiaram muito isso. Não se teve uma volta de prefeitos na proporção que se imaginava, e as denúncias de escândalo foram reduzidas. Eu vou dizer uma coisa que sei que vai ser muito difícil de vocês acreditarem, vai parecer um 1º de abril: eu vou trabalhar muito para ver se acho um sucessor dentro da Aliança. JC Então qual o perfil desse seu sucessor? Jarbas Eu gostaria muito de concluir meu mandato daqui a dois anos. Gostaria muito de ser candidato ao Senado. Eu queria passar pelo Senado. Não queria voltar para a Câmara. JC E a cabeça de chapa ficaria com o PFL? Jarbas Não. Eu acho que tenho que encontrar um bom sucessor, que poderia ser do PMDB, PFL, PSDB... JC Quem é o nome que o senhor ver com esse perfil, Raul Henry, Mendonça Filho? Jarbas Não, não tenho nada definido. Eu acho que vocês falaram em dois nomes bons, um do PMDB outro do PFL. São pessoas que reúnem todas as condições. Raul é um quadro em ascensão e Mendoncinha é uma pessoa que me ajuda muito aqui no Governo. É trabalhador, tem muito equilíbrio e muita confiança. Raul também tem todas essas características. JC O senhor acha que a aliança está sólida ao ponto de fazer seu sucessor? Jarbas Não é uma tarefa fácil. Mas ela tem que ser construída. A gente não pode estar se dando o luxo de ter fraturas, política é um processo de agregação, a gente tem que agregar. Toda vez que política apresenta como uma força prepotente, autoritária, complica. Aquilo que vocês botaram na Imprensa, atribuindo a mim, que essa aliança era uma aliança de 20 anos, isso foi a maior injustiça que atribuíram a mim. As pessoas que escrevem coluna política botam coisas e acabou. Eu estou a dois anos das eleições, não sei nem quem vai ser meu sucessor, não sem em quem vou votar para presidente da República, imagina fazer uma previsão de 20 anos. |
|