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ENTREVISTA/Jarbas Vasconcelos II
“Pernambuco está bem próximo do equilíbrio total”

Ao completar seu segundo ano de gestão, Jarbas Vasconcelos confirmou o que dizia na campanha estadual, em 1998: o carro-chefe de sua administração é o Governo nos Municípios. Em um balanço geral dos dois anos, o governador enumerou obras que são fruto do Governo nos Municípios e saiu, mais uma vez, em defesa do secretário de Planejamento e Desenvolvimento Social, José Arlindo Soares, responsável pelo programa, o que tem provocado ciúme na base aliada. Ao receber jornalistas do Sistema Jornal do Commercio em seu gabinete, ele falou sobre as dificuldades quem vem enfrentando, os planos para 2001 e 2002, o ajuste do Estado, o investimento na área social e a herança que recebeu do Governo Arraes. Diz que a relação com o funcionalismo é complicada, mas que pensa em conceder reajuste salarial para a categoria o mais rápido possível. Jarbas falou sobre os recursos da Celpe e os projetos que estão sendo implementados na área de tecnologia. Ele prometeu melhorar a problema da água e destacou a falta de segurança como o seu maior obstáculo e o mais difícil de resolver. Mas avaliou o trabalho que desenvolveu nesse biênio como positivo, destacando que “o Estado está bem próximo de um equilíbrio total”.

INVESTIMENTO NO SOCIAL

“Eu sempre coloquei, mesmo antes de chegar a ser governador do Estado, que ninguém estabiliza uma moeda de graça. Se o presidente Fernando Henrique Cardoso botou na cabeça que ia dar estabilidade ao País, ia ganhar uma reeleição e ia usufruir disso sem avançar no social, aí a coisa se complica muito. Então criou-se tributo, que está se pagando. E qual é o grande problema do Governo FHC? É que ele está no sexto ano, já entrando para o sétimo, e até agora não conseguiu usar o equilíbrio entre o ajuste fiscal e o avanço no social no Brasil. O Partido dos Trabalhadores diz que tem o compromisso apenas com o social. Nós vamos ver na prática, agora, como é que ele vai fazer isso”.

ENFRENTANDO CRISES

“A Zona da Mata Norte, a região que eu nasci, me criei, fui alfabetizado, estava completamente falida, acabada por conta da crise de uma seca. Ela nunca tinha convivido com isso. E a gente fez um programa lá e engenhou, que não foi só para atender o trabalhador rural, o operário da usina, o fornecedor de cana, e os produtores. Até as mudas de cana que a gente comprou foi na Mata Sul, para poder ajudar a economia do Estado. Hoje, todos os municípios que plantam cana da região estão satisfeitos com o Governo. Do usineiro ao trabalhador rural. Porque a gente não fez nenhum chapéu de palha. A gente fez uma coisa séria, profunda e duradoura. Vai ter um rendimento muito maior em 2001 do que teve em 2000, que foi a implantação. O que é nós fizemos agora com o leite? A bacia leiteira está completamente falida, o rebanho perdido por conta da seca. Nós investimos nisso. Quanto tempo levamos? Dez meses. Estabilizamos o preço do leite, que era de R$ 0,27. Nós vamos comprar o litro do leite por R$ 0,40. Vamos comprar 38 mil leites diário. Vamos atender a 95 municípios e a 120 comunidades carentes”.

RESULTADOS

“Eu não posso chegar em Araripina (Sertão do Araripe), que escolheu como fundamental uma estrada de 93 quilômetros, sem a gente ter condições de dizer se vai fazer ou não a estrada solicitada. Não dar para ir para ao município de Jurema (Agreste) e dizer que não vai fazer a estrada, que a população elegeu no Governo dos Municípios como a prioridade das prioridades do local. E aí a gente trabalhou em cima disso, e eu estou voltando, agora, para dar ordem de serviço, e, em algumas vezes, entregar obras que foram iniciadas no meio do ano”.

SALÁRIO DE SERVIDOR

“Eu darei aumento para os servidores públicos assim que as finanças do Estado permitirem, porque a convivência hoje é uma coisa muito difícil. Ainda não tem prazo para o anúncio desse aumento, mas eu acho que o Estado está bem próximo de um equilíbrio total das suas finanças. Aí gente pode pensar nesse assunto. Hoje em dia, para um governante, falar em prazo é uma coisa bastante complicada”.

DOIS ANOS DE GOVERNO

“Nós cuidamos do Estado. As secretarias trataram de elaborar projetos, José Arlindo (secretário de Planejamento e Desenvolvimento Social) teve um papel muito importante nesse processo com o Governo nos Municípios. Uma coisa importante que eu tento adotar neste final de ano, como já vem acontecendo nessas viagens que tenho feito pelo interior: ou assinar uma ordem de serviço ou entregar uma obra minha, tudo dentro do Governo nos Municípios. Essa é uma prática nova, uma prática salutar. O que foi que José Arlindo fez? Dividiu o Estado em dez regiões para levantar suas potencialidades, seus problemas e suas prioridades”.

MAIOR PROBLEMA DO GOVERNO

“A gente está com um problema grande de segurança. A segurança do Estado está longe de atender o que a população quer, o que ela deseja. Qual é a obrigação do Estado? É dar o mínimo de segurança ao cidadão. É um problema generalizado. Eu não deixo que nenhum secretário venha aqui fazer comparações de que no Rio se mata polícia, que em São Paulo a criminalidade aumentou... A população não quer saber disso. Ela quer ter segurança. E o governador está chegando à conclusão de que o problema não é só comprar viaturas e armamento. Estamos contratando uma pessoa de São Paulo, o coronel José Vicente, uma pessoa extraordinária, para propor. É possível que a gente compre 600 viaturas, é possível que eu retire qualquer tipo de processo político, eleitoral e partidário de dentro da polícia. Eu já disse várias vezes que um delegado para merecer a minha atenção e o meu respeito não precisa estar filiado ao meu partido. O meu maior problema é a segurança. Por onde em passo recebo queixas.

RACIONAMENTO DE ÁGUA NA RMR

“Tenho mexido nessa questão e tem muita coisa para se mexer em 2001. Há um ano eu estava com as barragens completamente secas. Agora eu estou com problema. Só Tapacurá, na semana passada, pegou quase dois milhões de metros cúbicos de água, e não era para pegar isso por causa do inverno que está se aproximando. E aí, a gente fica monitorando. Você não sabe o trabalho que dá ficar monitorando Tapacurá, dia e noite. Fica difícil para população ver a barragem cheia e não ter a água. Porque a distribuição está precária. Você não resolve isso em pouco tempo. Porque o problema vem da saída de água, da distribuição. Mas vamos dar uma melhorada considerável”.

PLANOS PARA 2001

“2001 vai ser um ano muito operoso. Primeiro, não tem eleição no meio. Para o administrador é uma coisa muito ruim quando tem uma eleição. Eu tive que fazer o ajuste do Estado e ainda uma eleição pelo meio. Um primeiro ano que foi todo voltado só para o ajuste. Depois o Governo nos Municípios, e ainda uma eleição... Tudo isso atrapalha, porque você tira o pé do acelerador. Então chegamos na metade do meu mandato e teremos mais dois anos muitos proveitosos. Em todos os setores. A infra-estrutura é um setor que você tem a perspectiva real, concreta, de aumentar em 40% a malha rodoviária do Estado. Temos um programa de água como Pernambuco nunca viu na vida, que é uma coisa importantíssima”.

TECNOLOGIA/INFORMÁTICA

“Cláudio Marinho (secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente) vem administrando isso muito bem. Tem muitas coisas que têm que ser implantadas, e ele está fazendo isso muito bem. Eu coloquei à disposição dele quase R$ 35 milhões. E ele gastou muito pouco disso, porque vai precisar para 2001. É isso que estou dizendo, veja bem como a gente cuidou das coisas. Tem dinheiro alocado para a área. É só agilizar as coisas. Tem um fundo de aval, que passou já na Assembléia Legislativa, para incentivo de novos empreendimentos, e ele vai investir nisso. Cláudio Marinho tem se movimentando muito, recebemos elogios até do New York Times. Outros estados têm vindo aqui para ver as coisas, copiar...”.

AS CRÍTICAS A JOSÉ ARLINDO

“O deputado José Mendonça, que fez uma crítica no JC, me chamou, em um lugar reservado, para dizer que tinha lido uma entrevista minha, e que quem estava certo era eu e não ele. Ele leu minha entrevista e viu que eu disse que era como colocar raposa no galinheiro botar uma pessoa do PMDB ou PFL para tomar conta do Governo nos Municípios. Eu tinha que botar uma pessoa competente, leal e que não fosse candidato, que tivesse a absoluta certeza que não seria candidato. E essa pessoa é José Arlindo. Ele tem credibilidade, é honesto, é uma pessoa competente e não é candidato. Por isso que comanda, com mão de ferro, com independência, o Governo nos Municípios. Então o que é que o governador está colhendo agora? Colhendo todo esse resultado do trabalho. Eu dizia sempre: eu não volto a fazer novas reuniões do Governo nos Municípios, no começo de 2001, se não tiver funcionando”.

RELAÇÃO COM FUNCIONALISMO

“Ela não é boa. Nunca foi boa. Hora nenhuma. Quando eu cheguei no Palácio, o meu primeiro dia útil foi 4 de janeiro. E no dia 4 de janeiro a imprensa estava convocada para ver uma mensagem que estava mandado para a Assembléia, tirando vários privilégios dos servidores. E aí, a antipatia veio em seguida”.

DIFICULDADES E FRUTOS

“Eu paguei 15 folhas no ano passado. Agora, hoje (28/12), iniciei o pagamento de dezembro. Já paguei o 13º... Nós vamos voltar agora para uma nova fase do Governo nos Municípios: para os ajustes, para saber o que é que falta, saber a avaliação. Eu agora vou para rua. A rua sempre é melhor que ficar aqui dentro do gabinete”.

BALANÇO GERAL

“Balanço altamente positivo. Estamos recuperando a auto-estima do Estado, melhorando a infra-estrutura, e a gente não vai a lugar nenhum se não melhorar a infra-estrutura para receber outros tipos de investimentos. A dívida? Completamente administrada. É uma dívida feita pelo meu antecessor que eu concordo, feita em 30 anos, com juros de 6%, um negócio de pai para filho. Muitos governadores reclamam, não sei porque. Doutor Arraes firmou em 98 e quem começou a pagar fui eu. O valor gira em torno de R$ 25 a R$ 30 milhões. Se não tivesse feito esse acordo da dívida o Estado estaria, com toda certeza, pagando mais ou então inadimplente”.

ARRUMANDO A CASA

“O governador passou dois anos para coordenar as despesas de Pernambuco, porque não adiantava o secretário da Fazenda (Jorge Jatobá) chegar para mim e dizer que estava diminuindo as despesas. Ele tinha que aumentar a arrecadação do Estado. E a arrecadação aumentou. Não é brincadeira pegar um governo com uma folha de pagamento de pessoal da ordem de 73% de tudo que você arrecada, e hoje está em 62%. Aí desapareceram 11%. Eu paguei esse preço. Miguel Arraes não fez isso. Todos os Estados brasileiros fizeram e Arraes não fez. Não fez porque é avesso a fazer essas coisas, adaptar a Constituição Estadual a questões administrativas, previdenciária. Eu tive que fazer isso. Foi um desgaste muito grande para mim. Então, a coisa inconveniente era que o governador ficasse apegado só a isso. Mas não, o governador foi para todos os Governos nos Municípios, deu toda a força ao secretário José Arlindo Soares. Sinalizava que o programa dele era o carro-chefe da administração”.

RECURSOS DA CELPE

“A expectativa é administrar esse dinheiro com a absoluta correção, seriedade e equilíbrio. Vamos terminar o ano com mais de R$ 1 bilhão em caixa do dinheiro da Celpe. Ele sofreu, agora, uma defasagem por conta do dinheiro do Funape. Só esta semana estou tirando R$ 165 milhões para o Funape. Então, eu cumpro aquele compromisso que assumi, de repassar R$ 300 milhões para a previdência. Estou fazendo isso para daqui a cinco, seis anos. Senão as contas do Estado estouram. Como muita gente pensa, esse dinheiro não está sendo gasto desde o começo do ano. A Celpe foi vendida em fevereiro, eu tive que mandar uma lei para a Assembléia, e esse dinheiro só começou a ser gasto, efetivamente, final de abril, começo de maio. O que é que a gente gastou? R$ 60 milhões da agenda mínima, mais os R$ 300 milhões do Funape. Então, vamos ter muito critério para gastar esse dinheiro. A BR-232 consumiu, até hoje, R$ 20 milhões”.

CONCLUSÃO DA BR-232

“O prazo para entrega não é final de mandato. O prazo é entregar a duplicação até Caruaru em 20 de agosto de 2002”.

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Jornal do Commercio
Recife - 31.12.2000
Domingo