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MUSEUS DE RECIFE E OLINDA
Um retrato do Nordeste

por LUIZA MODESTO

A história de Pernambuco não está registrada apenas nos seus monumentos e em livros. Como tantas outras cidades brasileiras, o seu passado está presente nas ruas e guardado em museus. Portanto, se você é daqueles que não se contenta apenas com as aparências, com o frugal, encontre tempo para entender melhor o povo nordestino, conhecer sua trajetória e decifrar os códigos da sua rica cultura. Para isto, deve incluir na lista de lugares a serem visitados alguns museus da cidade, mesmo que eles fujam da concepção européia e americana de instituições desse tipo. A princípio, saber o que visitar e aonde ir pode não ser uma tarefa fácil. Afinal, não existem folders informativos tratando do assunto disponíveis nas recepções dos hotéis. O pessoal por trás do balcão de atendimento poderia ser uma solução, caso fosse treinados para ajudá-lo nesse sentido. Mas nem tudo está perdido ou, como diria um pernambucano da gema, “ não se aperreie”. O Caderno Turismo & Lazer cobre essa lacuna, dando dicas de endereços que merecem sua visita.

O Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, idealizado pelo sociólogo Gilberto Freyre, possibilita uma viagem através do tempo, trazendo temas encontrados nos livros e discutidos em salas de aula. Contando com um acervo de cerca de 10 mil peças, das quais apenas quatro mil ocupam, em caráter permanente, os diversos ambientes da instituição, o museu é fiel ao pensamento do seu criador, que foi um estudioso das relações entre as raças e entre as classes formadoras da sociedade local. A história da região, portanto, é apresentada segundo a ótica freyriana, chamando a atenção para a miscigenação racial do branco, negro e índio, e sua conseqüente contribuição na feitura da ‘colcha’ cultural nordestina.

Dos museus da cidade, ele é o único que consegue mostrar, com riqueza de detalhes, como era o período de ouro da cana-de-açúcar, exibindo instrumentos de trabalho da época, modelos em miniatura de diferentes sistemas de moagem e, até, uma réplica da primeira usina a vapor do Brasil, instalada no século 19 no Engenho Sergipe, em Pernambuco.

A parte menos nobre do passado também está exposta para quem quiser ver. No espaço, diferentes tipos de gargantilhas, algemas e troncos, usados para castigar os escravos, denunciam o período que Rui Barbosa tentou apagar jogando na fogueira. O visitante leva um certo choque visual, imaginando alguém preso a um daqueles instrumentos de tortura.

Da escravidão, o visitante é introduzido para a casa-grande. No seu interior, o visitante se depara com um acervo amplo de objetos decorativos surpreendentes. As escarradeiras feitas de louça e pintadas com cenas tropicais, são alguns deles e denotando o cuidado das famílias abastadas com o quesito higiene.

ARTIGO DE LUXO – As louças, por sua vez, são um capítulo à parte. Há as brasonadas, artigos de luxo dos grandes detentores de terras. Em exposição no Museu do Homem do Nordeste, por exemplo, está um conjunto completo de porcelana com bordas em azul petróleo, que pertenceu ao Barão de Moreno. Menos nobre, porém dignas de destaque especial são as esquisitas xícaras com bigodeira. Curiosas, elas se sobressaem pela sua aparência pouco comum. Os utensílios têm uma proteção para evitar que os generosos bigodes dos senhores da época não molhassem. Outro detalhe interessante é um açucareiro com uma minifechadura. A peça tem uma chavezinha para trancar o doce e caro produto na época, mantendo-o longe de mãos não autorizadas.

E a imponência que o açúcar trazia para os senhores de engenho é mostrada nos quatro cantos da suposta casa pernambucana retratada pelo Museu do Homem do Nordeste. No dormitório, a distinta posição da classe endinheirada é demonstrada na cama, trabalhada em madeira escura, no oratório e no tapete gobelã de origem européia. Este último retrata, em grande dimensão, uma visão dos colonizadores de uma cena de engenho: uma negra com o busto exposto equilibrando um balaio carregado de frutas.

Há, também, um banheiro da primeira metade do século 20. E esse, diga-se de passagem, não era qualquer um. O vaso sanitário, a pia e o bidê vieram de uma residência ilustre: a do coronel Delmiro Gouveia, grande empreendedor nordestino, nascido no Ceará, mas que viveu em Pernambuco. Empresário bem-sucedido, ele inaugurou a Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso, um dos seus projetos de desenvolvimento para a região.

Os materiais de construção e adornos das casas também fazem parte do acervo do museu. Tijolos, pregos, telhas, pisos, azulejos, pinhas, obeliscos, fechaduras e chaves de todos os tamanhos, tipos e estilos estão devidamente agrupados. Eles contam silenciosa e ordenadamente a história de um tempo passado, alicerce da sociedade contemporânea.

RELIGIÃO E CULTURA – Quem for ao Museu do Homem do Nordeste não ficará conhecendo apenas o aspecto histórico, etnográfico e sócio-econômico da região. Ocupando uma sala, já pequena para tantos objetos em exposição, o segundo espaço do museu possibilita uma visão globalizada do caráter religioso e cultural do povo nordestino, o qual é apresentado ao visitante por um pequeno texto de autoria do antropólogo Darcy Ribeiro, que diz: “Nós, que não somos nem europeus, nem indígenas, nem africanos (...) Somos um gênero humano novo, um civilização que vai se apresentar ao mundo (...)” .

E sua introdução é feita pelos santos da igreja católica e pelos orixás do candomblé, as religiões mais significativas da região. Ao percorrer o salão, o visitante observa ainda diversos ambientes, repletos de ícones que compõem a colcha variada e rica da cultura nordestina. Não faltam, portanto, a indumentária e instrumentos de uma das expressões musicais mais em voga no momento, o Maracatu; os bonecos de Mestre Vitalino; os brinquedos vendidos nas feiras do interior, entre outros objetos típicos do homem da Zona da Mata, do Agreste e do Sertão.

Serviço:

Museu do Homem do Nordeste

Avenida 17 de Agosto, 2187, Casa Forte. Fone: 441.5500.

Horário de visitação: terça, quarta e sexta, das 11h às 17h; quintas, de 8h às 17h; sábado e domingo, das 13h às 17h. Preço de visitação: R$ 3, adultos e R$ 1, crianças.

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Jornal do Commercio
Recife - 28.12.2000
Quinta-feira