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O PT NA PREFEITURA
PT no poder: seis meses à procura de uma marca

Período foi marcado por algumas indecisões do próprio prefeito e pela busca de uma maior participação popular na administração

por FABÍOLA MENDONÇA

Seis meses marcados pela indecisão, por uma certa inabilidade política e, em alguns momentos, pelo autoritarismo. Um semestre também com a busca de uma maior participação popular, num modelo novo implantado no Recife. Essa estranha mistura pode exemplificar a cara da administração petista no Recife, que está completando, hoje, seis meses. Sendo a primeira vez que um petista ocupa o Palácio Antônio Farias, sede da Prefeitura, e desde o início cercado de grandes expectativas, bem que o balanço político poderia ser outro. Mas o prefeito João Paulo não conseguiu, até agora, cortar as arestas da sua base aliada, que, volta e meia, não hesita em criticar a condução política do Governo, nem dar um grande salto em termos administrativos. Poucas ações diferenciadas podem ser destacadas, embora leve-se em consideração o curto período de gestão.

“Seis meses é muito cedo para fazer uma avaliação administrativa. Acho que o Governo petista ainda não tem uma marca própria, até porque isso não acontece por decreto, mas é fruto de todo um processo. É claro que sempre fica a sensação de que poderia se fazer muito mais...”, avalia o deputado federal Eduardo Campos (PSB), numa crítica, embora com cautela, à falta de ações administrativas da gestão. Sobre o aspecto político, o maior questionamento do socialista é quanto à relação ‘amistosa’ que João Paulo vem mantendo com o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB).

“É importante a relação administrativa com os governos federal e estadual, mas é preciso clareza, senão se confunde a relação institucional com a política”, dispara Eduardo Campos, inimigo político de Jarbas Vasconcelos.

Até por causa da complexa aliança que o elegeu, a dificuldade de conviver sem atritos com os partidos aliados vem marcando o Governo João Paulo. Essa relação, inclusive, vem tendo rebatimento nas articulações de composição para a eleição estadual do próximo ano. “João Paulo não pode deixar que isso aconteça. Ele uniu todas as forças de esquerda no ano passado e tem que ter competência para fazer o mesmo no pleito do ano que vem”, salienta o senador Carlos Wilson (PPS).

Para o presidente regional do PDT, deputado estadual José Queiroz, falta a João Paulo tato político para manter a harmonia na aliança. “É preciso uma convivência de forma mais ampla”, dispara Queiroz. “O que está acontecendo é fruto da composição feita na eleição do ano passado. A unidade foi buscada pelo eleitorado. Não foi uma costura política comum, desejada pelas forças envolvidas, mas uma manifestação coletiva de mudança. Por isso a dificuldade de convivência. Isso requer muita habilidade do prefeito João Paulo”, complementa o ex-ministro da Justiça, Fernando Lyra (PPS).

Se é entendimento entre alguns aliados a dificuldade do Governo João Paulo em conduzir sem problemas uma negociação política, até por causa da complexidade do seu partido e da criticada forma de atuação do secretário Múcio Magalhães (Governo), muitos concordam também que os seis meses o Governo evidenciaram uma característica: a busca da participação popular.

“Não há grandes ações, mas o PT já conseguiu pontuar algumas questões específicas e definir prioridades, como na saúde e na educação”, destaca José Queiroz. “Ele (João Paulo) está conseguindo ouvir setores da sociedade, tanto que tem provocado reação da Câmara. Ele está ouvindo muito mais a população do que os vereadores. Isso é positivo”, conclui Fernando Lyra.

A maior vitrine dessa participação se deu com a reestruturação do Orçamento Participativo, que reuniu, segundo João Paulo, mais de 30 mil pessoas só na primeira etapa do programa.

As maiores ‘gafes’ cometidas por João Paulo na experiência como prefeito foram a nomeação da primeira-dama, Luzia Jeane, para a assessoria especial da Secretaria de Saúde, acumulando a função com a de presidente da Legião Assistencial do Recife, e a proposta de reajuste salarial de 43% para 18 assessores de segundo escalão, que teriam seus salários aumentados de R$ 3,5 mil para R$ 5 mil. Nos dois casos – depois de receber pressão –, ele voltou atrás, comprovando a indecisão do Governo.

Para alguns observadores, quando resolveu conceder reajuste aos auxiliares, João Paulo mostrou uma face autoritária. Contrariando orientação de auxiliares que se colocaram contra a medida, ele puxou para si a decisão e afirmou que assumiria o desgaste. O fato provocou reação imediata dos servidores, às vésperas de sua data base. Ao recuar do aumento, João Paulo instalou a mesa permanente de negociação com os servidores.

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Jornal do Commercio
Recife - 01.07.2001
Domingo