Primeiro disco gravado pelo violonista Canhoto da Paraíba, e que também marca a estréia de Henrique Annes, ganha formato digital e será lançado sexta-feira
MARCOS TOLEDO
Não é todo dia que uma obra fonográfica de autor da região é reeditada em formato digital. Principalmente uma raridade, como o primeiro álbum do violonista Canhoto da Paraíba, Único Amor, de 1968, acompanhado pelo então estreante Henrique Annes. Concebido originalmente pelo selo Passarela, da gravadora Rozenblit, o disco foi reeditado pela Polysom e será relançado na próxima sexta-feira, a partir das 17h, em frente à loja Opus, no Shopping Sítio da Trindade (Casa Forte).
“Eu não queria participar daquelas rodas (de choro) como músico. Quando vi o Canhoto tocar fiquei tão entusiasmado que me toquei. Era tão sublime, tão tecnicamente perfeito. Acho que o Canhoto me influenciou a tocar. Mais do que meu pai e Jacob (do Bandolim).” Esse depoimento, concedido pelo músico Paulinho da Viola ao JC, no ano passado, reflete bem a importância de Chico Soares, o Canhoto da Paraíba, para a música instrumental popular brasileira.
Paulinho tinha apenas 16 anos, quando Canhoto e uma trupe de instrumentistas pernambucanos chegaram ao Rio de Janeiro, a bordo de um jipe Willys. O ano era o de 1959. O destino, a casa de Jacob do Bandolim. O pai de Paulinho, o violonista César Faria, era um dos integrantes do Época de Ouro, grupo que acompanhava Jacob.
No primeiro sarau com os convidados, o jovem músico carioca ficou do lado de fora. Dentro, figuras como Pixinguinha e o maestro Radamés Gnatalli que, reza a lenda, teria atirado um copo de cerveja para o alto ao ver e ouvir Canhoto tocar. Conta-se ainda que Jacob jamais teria deixado passar uma mão de tinta sequer sobre a mancha no teto. Radamés, no entanto, sempre negou essa versão.
Histórias à parte, a verdade é que Francisco Soares de Araújo nasceu em Princesa Isabel, na Paraíba, mas foi no Recife que se tornou um dos expoentes do violão brasileiro. O instrumentista, que começou sua carreira profissional na Rádio Tabajara de João Pessoa, em 1953, no entanto, chegou ao seu primeiro disco apenas 15 anos depois.
Ainda se recuperando de uma isquemia cerebral que sofreu em 1998 e comprometeu o lado esquerdo de seu corpo, Canhoto conta quando João Dias – dono do supracitado jipe Willys – foi à capital paraibana, o ouviu tocar e fez o convite para trazê-lo para Pernambuco. “Eu tinha muita vontade de vir para o Recife”, lembra. E não teve demora. Após cinco anos na Tabajara, fez as malas e partiu de seu Estado natal. Chico Soares recorda também que foi João Dias quem primeiro o apelidou de Canhoto.
Por intermédio de um amigo – a quem dedica a valsa Memória de Sebastião Malta –, Canhoto se empregou no Sesi como assistente social, onde permaneceu por pouco mais de uma década. Nesse mesmo período, atuava no regional da Rádio Jornal do Commercio, no famoso programa Quando os Violões Se Encontram. Foi nesse programa que ele conheceu o então jovem Henrique Annes, que se tornaria seu parceiro no álbum de estréia.
RAÍZES – Estabelecido em Pernambuco, Canhoto da Paraíba aguardou ansiosamemte a oportunidade de gravar seu primeiro disco. Único Amor, de 1968, acabou se tornando uma inesperada oportunidade para o jovem violonista Henrique Annes, que conhecera o músico paraibano na Rádio Jornal do Commercio, e o acompanhou no LP, sob a direção do maestro Nelson Ferreira.
Chico Soares recorda que conhecia um conterrâneo, empregado na antiga Fábrica de Discos Rozenblit, localizada na Estrada dos Remédios, bairro de Afogados. O amigo, chamado Zacarias, pleiteou à direção a gravação de um compacto com o violonista. A gravadora acatou a idéia, mas para fazer um LP.
Na época, Canhoto era acompanhado pelo também violonista João Pinto. “Mas ele tinha um problema”, conta. “Quando diziam ‘gravando!” (no estúdio), ficava nervoso, tremendo.” Canhoto diz que João chegou a gravar metade das músicas, mas se afobou e chegou até a se desentender com Nelson Ferreira, que fazia a direção musical. “Com medo de perder a oportunidade, falei com Henrique.”
Henrique Annes, de formação clássica, conheceu Canhoto no programa Quando os Violões Se Encontram, da Rádio Jornal do Commercio. “Eu morava na Rua Imperial e Henrique em Jardim São Paulo”, lembra o paraibano. “Ele pediu meu endereço e ia lá em casa. Quando voltava, estava com a música pronta. É muito inteligente”, elogia.
Assim, Henrique regravou todo o acompanhamento do álbum. Segundo o violonista, então com 22 anos, a dupla fez três ensaios, na casa do solista. “Gravamos em uma semana”, recorda. “Para mim, foi uma honra ser escolhido entre tantos violonistas da época. Eu era jovem e foi um desafio.” O lançamento ocorreu, ainda 1968, na sede social do Sport Club do Recife.
O DISCO – Após 33 anos desde o lançamento em vinil, Único Amor, álbum de estréia dos violonistas Canhoto da Paraíba e Henrique Annes, chega às lojas em CD. Um trabalho bem recuperado, tanto musical quanto graficamente. A versão digital preserva a sonoridade e design da época.
A oportuna idéia de transformar o disco em CD surgiu no fim do ano passado. Henrique Annes lembra que o colecionador Aberardo Carneiro Leão pegou o próprio LP e fez três cópias digitais. Ficou com uma e presenteou os dois intérpretes dos fonogramas com as demais.
Já este ano, num almoço com os amigos Saulo Berenstein e Jaime Lessa, resolveram fazer a transposição profissionalmente com o objetivo de prensar o álbum e comercializá-lo. Seria mais uma forma de ajudar Canhoto em sua recuperação de saúde.
Intermediados por Saulo, os quatro amigos se reuniram com João Florentino, dono da Aky Discos e do selo Polysom, que comprou o projeto e mandou prensar mil cópias do álbum em CD.
O lançamento oficial de Único Amor, de Chico Soares, está programado para a próxima sexta-feira, dia 5, com um show como nos velhos tempos: um sarau, na frente da loja Opus de Casa Forte, às 17h. Além do próprio Henrique Annes, devem estar presentes violonistas como Nuca, Bozó, Cláudio Almeida, Nenéu Liberalquino e outros.