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SERTÃO
Biólogo pede suspensão de projeto na caatinga

Implantação de plano de manejo em assentamento na Serra do Mel, em Exu, é uma ameaça à conservação da biodiversidade da Chapada do Araripe, segundo ofício enviado ao Incra e Sectma

A conservação da biodiversidade da Chapada do Araripe, no Semi-árido nordestino, é o principal argumento de um ofício encaminhado ontem a órgãos governamentais para tentar impedir a implantação de um plano de manejo da caatinga na Serra do Mel, em Exu, a 616 quilômetros do Recife. O pedido foi feito num ofício entregue à Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco (Sectma) e à superintendência estadual do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

O lugar, com quatro mil hectares, foi escolhido pelo Programa Nacional de Florestas (PNF/Ibama) para a implantação de um projeto piloto de reforma agrária. O objetivo é desapropriar a área, avaliada em cerca de R$ 1,5 milhão pelo Incra, e instalar 60 famílias de sem-terras acampadas nas proximidades. No lugar de destruir a caatinga, como normalmente acontece em assentamentos da região, os técnicos do PNF/Ibama sugerem a utilização racional da vegetação.

Na opinião do ornitólogo Severino Mendes Júnior, que assina o documento, não há pesquisas científicas que comprovem a inexistência de impacto do manejo florestal sobre a biodiversidade. “O local foi indicado como uma das áreas prioritárias para a conservação em razão da diversidade de plantas e animais. Se há riscos de se perder esse patrimônio biológico, não pode haver intervenções desse tipo no local”, alega o ornitólogo.

Professor das universidades Federal e Federal Rural de Pernambuco, Mendes Júnior cita uma listagem com 193 espécies de aves para a Chapada do Araripe, das quais quinze ocorrem exclusivamente no Brasil. Sete delas encontram-se ameaçadas de extinção – a jacucaca, o pintassilgo-do Nordeste, o zabelê, o bico-virado-da-caatinga, o pica-pau Picumnus fulvescens, o joão-xique-xique e araponga-do-Nordeste – e uma é exclusiva do local: o soldadinho-do-Araripe, descrito em 1998.

O pesquisador alega ainda que a Chapada do Araripe abriga duas unidades de conservação, uma floresta nacional e uma área de proteção ambiental federal, e é reconhecida pela sua importância paleontológica e pela manutenção do equilíbrio ecológico e climático da região.

Mendes Júnior argumenta também que a porção da chapada situada em Pernambuco já sofre pressão por parte da indústria do gesso, da pecuária e da agricultura. “Essas atividades produzem impactos no meio ambiente, pondo em risco a biodiversidade, além de desencadear processos de desertificação e de extinção.” Na próxima semana, o pesquisador pretende denunciar o caso ao Ministério Público Federal.

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Jornal do Commercio
Recife - 29.09.2001
Sábado