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Transporte de risco
Grande Sertão - Veredas,
Guimarães Rosa põe na boca de Riobaldo Tatarana, nas
conversas desse com seu compadre Quelemém, que sustentam
a estrutura do romance, uma frase que volta
constantemente: Viver é muito perigoso. Às
vezes, acrescenta: É um descuido prosseguido.
Essa filosofia do personagem-narrador de Rosa se aplica
bem à nossa realidade de insegurança e violência, com
assaltos, seqüestros, assassinatos, falta de saneamento,
transporte perigoso. Referimo-nos especificamente ao
descuido (inevitável) de utilizar um transporte de
risco, perigoso, sobretudo no interior do Estado, onde,
em apenas uma semana, 11 pessoas morreram ao enfrentar
esse risco. Na capital, já estamos infelizmente
acostumados (embora protestando e reclamando inutilmente)
a um trânsito há muito desgovernado e irracional,
atualmente atingindo a perfeição do absurdo com o assim
dito transporte alternativo.
No acidente na cidade de Iati, quando uma caminhonete
D-20 lotada de estudantes caiu no Açude da Prainha,
morreram cinco pessoas, inclusive o motorista. Uma
estudante que viajava ao seu lado, garante que ele estava
embriagado. No da BR-232, uma Veraneio que transportava
passageiros entre Custódia e Serra Talhada colidiu com
um caminhão matando seis pessoas. Esses dois casos mais
recentes (não são raros) chamam a atenção das
autoridades e da sociedade para um grave problema. Tanto
o transporte de passageiros feito, em geral
clandestinamente, por peruas, caminhonetes, como o
transporte escolar (no Recife ele já está mais
organizado) são, de modo geral, extremamente precários,
sem fiscalização e sob a responsabilidade (no caso
irresponsabilidade) de pessoas sem o indispensável
preparo, freqüentemente até sem documento de
habilitação, que é o mínimo.
Isso não ocorre somente em Pernambuco; o que não
justifica o descaso do poder público, que tem
obrigação de zelar pelo bem-estar e segurança dos
cidadãos. Na Amazônia, com seus muitos e caudalosos
rios, seus igarapés, são rotineiros naufrágios de
embarcações, devido a excesso de lotação e outros
descuidos prosseguidos, como diria o
personagem de Rosa. Nas praias de todo o País, velozes
barcos motorizados vão entrando no mesmo descaminho dos
veículos terrestres. Há regras estabelecidas para o
transporte marítimo, com profissionais habilitados para
o ofício. Mas muitas pessoas com poder aquisitivo para
comprar barcos a motor se julgam dispensadas de adquirir
prática de navegação e, o que é mais grave, entregam
essas embarcações a menores. Guarda costeira não
temos. A fiscalização é praticamente nula. Quanto a
acidentes de trânsito em terra, com mortos, feridos,
mutilados, estão aí, tornaram-se rotina, sem que as
autoridades se perturbem.
Mas, no momento, o que mais está incomodando, agredindo
mesmo, os habitantes das grandes cidades e regiões
metropolitanas do Brasil é o transporte alternativo. Sua
origem está na tentativa de substituir o transporte
urbano convencional, por ocasião de greves. O problema
já se arrasta há anos sem solução. Algumas
prefeituras tentaram resolvê-lo, tirando esse setor da
clandestinidade e regulamentando-o, mas com quase nenhum
êxito. Ao que parece, as pessoas que exploram esse tipo
de transporte não desejam mesmo ser cerceadas por
regras, preferindo continuar vivendo à sombra da
clandestinidade, da irresponsabilidade e da violência
contra quem ousar se opor a seus desmandos sem conta.
Está atualmente nas mãos do prefeito João Paulo um
projeto de lei, aprovado por unanimidade pelos
vereadores, que tenta regulamentar o transporte
alternativo no Recife. O prefeito já disse que não vai
sancionar o projeto nos termos em que foi aprovado.
Pretende modificá-lo e também municipalizar o trânsito
no Recife. O problema, porém, não será resolvido na
capital sem providências que englobem toda a Região
Metropolitana. Viver não deveria ser assim tão
perigoso.
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Jornal do Commercio
Recife - 01.10.2001
Segunda-feira
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