LG_jc.gif (3670 bytes)


Transporte de risco

Grande Sertão - Veredas, Guimarães Rosa põe na boca de Riobaldo Tatarana, nas conversas desse com seu compadre Quelemém, que sustentam a estrutura do romance, uma frase que volta constantemente: “Viver é muito perigoso”. Às vezes, acrescenta: “É um descuido prosseguido”. Essa filosofia do personagem-narrador de Rosa se aplica bem à nossa realidade de insegurança e violência, com assaltos, seqüestros, assassinatos, falta de saneamento, transporte perigoso. Referimo-nos especificamente ao descuido (inevitável) de utilizar um transporte de risco, perigoso, sobretudo no interior do Estado, onde, em apenas uma semana, 11 pessoas morreram ao enfrentar esse risco. Na capital, já estamos infelizmente acostumados (embora protestando e reclamando inutilmente) a um trânsito há muito desgovernado e irracional, atualmente atingindo a perfeição do absurdo com o assim dito transporte alternativo.
No acidente na cidade de Iati, quando uma caminhonete D-20 lotada de estudantes caiu no Açude da Prainha, morreram cinco pessoas, inclusive o motorista. Uma estudante que viajava ao seu lado, garante que ele estava embriagado. No da BR-232, uma Veraneio que transportava passageiros entre Custódia e Serra Talhada colidiu com um caminhão matando seis pessoas. Esses dois casos mais recentes (não são raros) chamam a atenção das autoridades e da sociedade para um grave problema. Tanto o transporte de passageiros feito, em geral clandestinamente, por peruas, caminhonetes, como o transporte escolar (no Recife ele já está mais organizado) são, de modo geral, extremamente precários, sem fiscalização e sob a responsabilidade (no caso irresponsabilidade) de pessoas sem o indispensável preparo, freqüentemente até sem documento de habilitação, que é o mínimo.
Isso não ocorre somente em Pernambuco; o que não justifica o descaso do poder público, que tem obrigação de zelar pelo bem-estar e segurança dos cidadãos. Na Amazônia, com seus muitos e caudalosos rios, seus igarapés, são rotineiros naufrágios de embarcações, devido a excesso de lotação e outros ‘descuidos prosseguidos’, como diria o personagem de Rosa. Nas praias de todo o País, velozes barcos motorizados vão entrando no mesmo descaminho dos veículos terrestres. Há regras estabelecidas para o transporte marítimo, com profissionais habilitados para o ofício. Mas muitas pessoas com poder aquisitivo para comprar barcos a motor se julgam dispensadas de adquirir prática de navegação e, o que é mais grave, entregam essas embarcações a menores. Guarda costeira não temos. A fiscalização é praticamente nula. Quanto a acidentes de trânsito em terra, com mortos, feridos, mutilados, estão aí, tornaram-se rotina, sem que as autoridades se perturbem.
Mas, no momento, o que mais está incomodando, agredindo mesmo, os habitantes das grandes cidades e regiões metropolitanas do Brasil é o transporte alternativo. Sua origem está na tentativa de substituir o transporte urbano convencional, por ocasião de greves. O problema já se arrasta há anos sem solução. Algumas prefeituras tentaram resolvê-lo, tirando esse setor da clandestinidade e regulamentando-o, mas com quase nenhum êxito. Ao que parece, as pessoas que exploram esse tipo de transporte não desejam mesmo ser cerceadas por regras, preferindo continuar vivendo à sombra da clandestinidade, da irresponsabilidade e da violência contra quem ousar se opor a seus desmandos sem conta.
Está atualmente nas mãos do prefeito João Paulo um projeto de lei, aprovado por unanimidade pelos vereadores, que tenta regulamentar o transporte alternativo no Recife. O prefeito já disse que não vai sancionar o projeto nos termos em que foi aprovado. Pretende modificá-lo e também municipalizar o trânsito no Recife. O problema, porém, não será resolvido na capital sem providências que englobem toda a Região Metropolitana. Viver não deveria ser assim tão perigoso.


Jornal do Commercio
Recife - 01.10.2001
Segunda-feira