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COMPORTAMENTO
Informática é programa de índio Xucuru

Dentro do Projeto Teclando Nossos Direitos, os índios receberam aulas de Windows, Word, Excel, Internet e até de Inglês

por MONA LISA DOURADO
mldourado@jc.com.br

Pesqueira – Desde que teve acesso a um computador e descobriu as inúmeras possibilidades de comunicação da Internet, Vânia Nogueira dos Santos, 19 anos, não perde uma oportunidade de estar em frente ao micro. Entre as atividades que mais a atraem, estão os jogos eletrônicos e as pesquisas nos sites, além da paquera nas salas de bate-papo. Nada que fuja ao padrão de comportamento dos jovens internautas brasileiros, a não ser por um detalhe: Vânia é índia, pertencente à nação Xukuru, sediada em Pesqueira, a 212 quilômetros do Recife.

Durante cinco meses, a estudante e outros 150 integrantes da tribo receberam aulas de Windows, Word, Excel, Internet e Inglês para Informática, promovidas pelo Movimento Tortura Nunca Mais, em parceria com as secretarias estaduais de Planejamento e Justiça, dentro da primeira etapa do projeto Teclando Nossos Direitos. Embora dirigidos aos maiores de 16 anos, os computadores conquistaram desde as crianças – como a indiazinha Wilma de Souza, 4, que domina o mouse sem dificuldade – até os idosos da tribo.

A entrega dos certificados de conclusão do curso, prevista para o último dia 18 e adiada em virtude de uma audiência pública envolvendo os Xukurus, ocorrerá no fim deste mês, numa solenidade na qual os índios navegarão na Rede e enviarão mensagens para entidades brasileiras e internacionais, cobrando agilidade na devolução de suas terras.

Enquanto isso, os Xukurus tiram o máximo proveito do laboratório montado na Aldeia Pé-de-Serra, que conta com 12 máquinas ligadas em rede a um servidor e conectadas à Web via Embratel, com o apoio da Fisepe. O agricultor Paulo Gomes Faustino, 33, por exemplo, acredita estar vivendo uma nova etapa da sua vida. “Nunca pensei que pudesse conhecer outros países e, através da Internet, consegui. No mundo globalizado, se a gente não tiver habilitado para lidar com a tecnologia não tem como sobreviver”, diz.

Segundo a coordenadora do Movimento Tortura Nunca Mais, Amparo Araújo, um dos principais objetivos do projeto é justamente o de tirar os Xukurus do isolamento, preservando sua história e cultura. Ela conta que, como fruto concreto do curso os índios estão elaborando um site (www.fpaulinereichstul.org.br/xucuru) com dados acerca de suas crenças, lendas e tradições.

O material está sendo catalogado pelos próprios Xukurus, através de entrevistas com os integrantes mais velhos da tribo. “Assim, eles treinam a escrita, a digitação e a confecção de homepages, que aprenderão a fazer no módulo avançado”, afirma Helijean Cavalcanti, 24, um dos três professores índios capacitados para ministrar as aulas.

Para um dos líderes da tribo e também aluno do curso de computação, José Aguinaldo de Souza, a Internet proporcionará ganhos importantes na articulação política dos Xukurus. “Vamos informar ao mundo nossa luta e as injustiças que sofremos, denunciar as irregularidades dos fazendeiros da região, os assassinatos e ameaças de morte, para inibir essas ações”.

De acordo com ele, até o comércio eletrônico está nos planos da tribo. “Temos mais de 50 rendeiras, que poderão vender a produção com maior facilidade”, conta. Uma das mais entusiasmadas com a idéia é Maria José de Jesus, 75. “As pessoas de fora queriam fazer encomenda e não tinham como. Agora terão”, comemora.

O próximo passo, conforme Amparo, é estender o projeto às demais aldeias Xukuru e, posteriormente, às outras nove nações indígenas de Pernambuco. “Em cinco anos, nossa meta é que todos os índios que desejarem tenham tido acesso ao computador e estejam preparados para caminhar com as próprias pernas.”

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Jornal do Commercio
Recife - 26.09.2001
Quarta-feira