Estudiosos de estratégia e cientistas políticos prevêem um envolvimento crescente do governo brasileiro na luta contra o terror. Os Estados Unidos não admitem neutralidade
SÃO PAULO – Mesmo que não envie tropas para lutarem ao lado dos Estados Unidos contra o terrorismo, o Brasil sofrerá conseqüências de um provável conflito na Ásia Central. O alinhamento cobrado pelo presidente George W. Bush, que não permite nenhum tipo de neutralidade, significará bem mais que retóricas manifestações de solidariedade. “Omissão, da parte de países aliados, nem pensar.”
Estudiosos de estratégia e cientistas políticos que acompanham de perto a evolução da reação norte-americana aos atentados do dia 11 em Nova Iorque e Washington prevêem um envolvimento crescente do Governo brasileiro na luta contra o terror, mas descartam a hipótese de cooperação militar.
O País deverá atuar nos campos da segurança e da informação, incluindo o controle de contas bancárias e operações fraudulentas de lavagem de dinheiro.
“O Brasil tem maneiras mais eficazes que o envio de tropas, como a vigilância sobre as ramificações do terrorismo nas fronteiras e o rastreamento dos fundos que financiam os terroristas”, afirma o empresário Roberto Teixeira da Costa, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, instituição dirigida no Rio de Janeiro pelo ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia.
“Será impossível acabar com o terrorismo, mas acredito que os Estados Unidos vão responder à altura e, com certeza, de maneira surpreendente”, acrescenta Teixeira da Costa.
A resposta norte-americana a um inimigo de face oculta que não se consegue identificar deverá ir muito além de um eventual ataque ao Afeganistão, onde ainda estaria escondido o principal suspeito, Osama bin Laden.
“O bombardeio imediato, sem definição clara do adversário, não seria um caminho apropriado”, adverte Teixeira da Costa. A guerra contra os terroristas, acredita ele, será longa e desgastante.
“Os próximos 18 meses serão muito difíceis, mas depois disso teremos uma sociedade melhor, incluindo, quem sabe, um acordo de paz entre israelenses e palestinos”, diz o empresário.
A guerra vai ser menos militar do que se imagina, prevê o pesquisador e cientista político Paulo César Manduca, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que também prevê um conflito prolongado.
“Mais disposto a apoiar os norte-americanos do que por ocasião da Guerra do Golfo, quando tentou ficar neutro e acabou irritando os dois lados, o Brasil poderá colaborar no campo da segurança, levantando informações sobre o terror e rastreando fundos destinados ao financiamento de atentados”, sugere o pesquisador.
Manduca, assim como outros estudiosos de estratégia e analistas da política internacional, não acredita que o Brasil venha a participar de operações de guerra, numa campanha sem objetivos militares definidos.
“Os Estados Unidos estão buscando feições árabes entre milhões de árabes, num país acidentado de geografia difícil para a guerra”, observa Manduca.
Sua expectativa é que, após uma investida militar de efeito pirotécnico, os norte-americanos se voltem para o rastreamento de informações. Um dos alvos deverá ser o fluxo de armas no mercado negro, nessa hora em que há muita arma sobrando no Leste Europeu.
Para Ricardo Sennes, coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais em São Paulo e professor do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil deverá ter posição clara, porque não há como se omitir.
“Tem de ficar claro que o Brasil vai combater o terrorismo, embora não assuma compromissos no mesmo nível dos países supostamente alvos de atentados”, adverte Sennes. O envio de tropas, mesmo que só de forças especiais, estaria descartado.
“Estamos fora da rota, essa guerra não será como a das Malvinas”, observa o cientista político Samuel Feldberg, do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP.
BRASIL – Imaginando que a retaliação norte-americana deva provocar novos atentados terroristas nos Estados Unidos e nos países aliados, Feldberg acredita que possa haver respingos dessas ações no Brasil, tendo como alvos empresas norte-americanas e organismos da comunidade judaica, por exemplo.
O também cientista político Alexandre Fuccille, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, acredita que a cooperação brasileira não ultrapassará os limites da área de segurança e informações, apesar de o País haver invocado o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar).
“Se o Brasil não enviou tropas para o Golfo em 1991, não enviará igualmente para a Ásia Central”, argumenta Fuccille.
“É essa a posição do Governo brasileiro, embora os Estados Unidos queiram a participação de seus aliados, incluindo o apoio militar”, acrescenta.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, não consegue imaginar como será a guerra, mas adverte que o Brasil já está sofrendo antecipadamente seus efeitos. O desânimo do consumidor norte-americano, que representa 25% de nossa pauta de exportações, já se reflete aqui nos setores de calçados, têxteis e siderurgia, informa Piva.